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segunda-feira, 6 de junho de 2016

Trabalhos forçados




Cada indivíduo carrega uma história dentro de si. Uns mais atreitos a passar a vida numa banalidade de números e letras. Outros, curvados perante as pedras, as areias e o cimento ao construir os casulos de outros. 

Por razões de herança, passei, cerca de meio ano, num ambiente laboral completamente distinto do que fiz em toda a minha vida. 
Do uso de papel, caneta e computador e das funções de gestão, tornei-me num ajudante de pedreiro e de trolha. 

Peguei em rochas bem pesadas, arrastei areias e cascalho para os locais necessários, transportei baldes de cimento sem conta, ajudei a construir muros de pedra e betão, carreguei sacos de concreto e pacotes de cerâmica diversa, ajudei na medição de ângulos e esquadrias, de pés direitos e metros de muros. Discuti opções de concepção e de design. Geri expectativas sobre as formas e os conteúdos que se criavam e rejubilei com os resultados alcançados dia após dia.

Foi uma experiência de trabalhos forçados, por interesse e vontade próprias, para entender melhor o outro lado da subsistência humana. E valeu a pena, em múltiplos sentidos. Foi, sobretudo, uma fascinante experiência de vida. Impressiona o alento que os obreiros carregam para o estaleiro. É um deslumbre constatar, a cada dia, uma disposição que não deixa penetrar o cansaço. 

São bem-aceites o anedotário e a brejeirice que liberta risadas e comentários bem subtis. 
Não choca o mal-estar momentâneo pelas falhas imperdoáveis, logo corrigidas, não venha o patrão a saber. 
Sensibilizam as conversas animadas sobre o mulherio da zona ou sobre o tempo que passa. 
Tudo serve para alimentar o dia-a-dia e esquecer as agruras de uma rotina penosa.
Como escreveu alguém, «a arte de viver é, simplesmente, a arte de conviver». Qualquer que seja a missão, qualquer que seja a função!


sábado, 20 de dezembro de 2014

A casa da mãe!





 
Num silêncio envolto em saudade, tenho visitado, nos últimos tempos, a casa que foi o berço onde nasci, o canto de afectos partilhados e onde encontrava a mãe sempre de gesto meigo e acolhedor.
Logo que chegávamos, manifestava preocupação com pormenores que acrescessem aconchego à nossa presença. Por exemplo, na época do frio, fazia questão de atiçar um pouco mais o fogão, acrescentando-lhe lenha para que o ambiente exibisse maior conforto. Depois, seguia-se um convívio feito de diálogos, quase sempre repletos de memórias vivas do passado da família e que, fatalmente, desaguavam nos afectos que tinham precocemente partido. 
Era nesse espólio de memórias que o tio Hilário e o tio Armindo emergiam como figuras de cartaz das lembranças de saudade. Tinham sido os irmãos mais queridos com quem partilhara uma vida feita de sacrifícios, penúria económica, incertezas e inquietações, aqui e ali, salpicada com intervalos de felicidade fraterna.
A mãe revelava tanta preocupação pelo bem-estar dos filhos que, por vezes, roçava a obsessão. Mas era o seu jeito protector e de desvelo, sempre vigilante, para que os seus rebentos fruíssem de uma vida feliz.
Até que chegou a sua vez de partir. A dor da sua ausência acantonou-se no quotidiano dos afectos mais próximos e que agora partilham uma saudade feita de desgosto e de mágoa. Mas permanece a memória de um sorriso sempre embrulhado em ternura e numa suave inquietação que só sossegava quando conferia que a vida dos seus filhos seguia o curso normal. Subsiste, também, a casa que habitava que, ao longo dos anos, transformou num aprazível ponto de encontro e num refúgio de maternal afeição.
A nossa mãe era o cimento que agregava as contradições que emergiam na variedade de temperamentos da sua prole. Era o mar onde desaguava o turbilhão de alegrias e tristezas, de insucessos e conquistas ou de derrotas e vitórias de toda a sua familia. Dela obtinha-se sempre uma palavra de incentivo, de apoio, de solidariedade e de ternura. Nunca de admoestação.
Hoje, a casa da mãe está vazia. Já lá não mora a rainha de afectos e a conselheira de todos os momentos. Quando lá entro, comove-me a solidão da cadeira onde sempre a encontrava. O próprio fogão parece estranhar o ambiente gélido a que não estava habituado. Perturba-me não ouvir a sua voz meiga a relembrar as histórias, mais alegres ou soturnas, que a sua longa vida partilhou. E o arrebatamento, misto de orgulho e ternura, quando falava da sua neta mais presente, a Ana Maria. Torturo-me por já não lhe poder responder que o Carlitos e a Joaninha são netos felizes e que muito a admiram. E por já não lhe ouvir as novidades dos meus irmãos de França.

E invade-me uma imensa tristeza por já não lhe perceber a ternura, forrada em desejo, que colocava no desabafo, tantas vezes repetido: «- a Leonor deve estar a chegar!».
Uma das preocupações que comigo partilhou foi sobre o destino da casa onde sempre vivera, evidenciando o desejo que a mesma não fosse alienada. Esse seu anseio será concretizado, pois, a casa não será negligenciada ou abandonada. Continuará a ser um ponto de encontro e um repositório de emoções. Ali nos reuniremos num abraço fraterno e na partilha de afectos dos que mais contam nas nossas vidas. Continuará a ser a casa da mãe!