sábado, 16 de outubro de 2021

Oviedo

 



Já há alguns anos que sonhava visitar Oviedo, tão só, porque um amigo de tempos recuados era dali e falava da sua cidade com entusiasmo e paixão. 

Nas inúmeras deambulações pela costa setentrional de Espanha, Oviedo ficou sempre ao lado.





Oviedo é a capital do Principado das Astúrias, conhecida pela sua qualidade de vida e pelo rico e variado património histórico, de que se destaca a Catedral de San Salvador, cuja construção foi iniciada no séc. XIII e que contém uma mistura de elementos pré-românicos, românicos, renascentistas, barrocos e góticos.

A cidade oferece inúmeros parques verdes, é polvilhada por dezenas de estátuas,, quer de celebridades da cultura, quer de personagens folclóricos e recebeu, mais de uma vez, o título de cidade mais limpa da Espanha.




Sobre a impressão que Oviedo deixa ao visitante, nada como transcrever o que sobre ela escreveu o cineasta Woody Allen, após aí receber o maior prémio concedido na Espanha, o prémio Príncipe das Astúrias, na categoria Artes: «Uma cidade deliciosa, exótica, bonita, limpa, agradável, pacífica, para pedestres. Algo como saído de um conto de fadas».



CG


quinta-feira, 14 de outubro de 2021

Las Médulas

 




É uma paisagem mágica e idílica aquela que nos surge quando chegamos a Las Mèdulas. A pouco mais de 20 quilómetros da cidade de Ponferrada, Província de Léon, surgem pináculos de terra vermelha e ocre que interrogam de espanto o viajante.

Uma investigação rápida ao google dá conta que aquela paisagem fantástica é o que restou de uma montanha modelada por cerca de 200 anos de exploração mineira a partir do séculos I da era cristã.



São, provavelmente, das maiores minas de ouro a céu aberto do império romano. Aí está demonstrado o génio dos romanos na península ibérica ao ensaiarem uma técnica original de captação de ouro, há mais de dois mil anos, que consistia em escavar cavidades na montanha que eram depois enchidas com água com o objetivo de criar suficiente pressão para fazer explodir a montanha.

Os restos do que ficou, após a exploração aurífera dos romanos, é uma paisagem de terra avermelhada em relevos e de floresta povoada por centenários castanheiros e carvalhos com enormes troncos de formas estranhas e retorcidas que, com o contraste da cor verde da sua folhagem e o dourado das montanhas, empresta um toque exuberante à paisagem.




Declarado como Património Mundial da Humanidade pela UNESCO devido à sua beleza e interesse cultural único, Las Médulas são visitadas por milhares de turistas, sobretudo nos meses da primavera e do outono.

CG




terça-feira, 5 de outubro de 2021

Monforte de Lemos

 



Monforte de Lemos é uma pequena vila onde se pensa ter nascido Inês de Castro no ano de 1325 e que fez parte da corte de D. Constança de Aragão quando esta foi a Portugal casar-se com o Infante D. Pedro, filho do Rei Afonso IV. A relação amorosa entre o Infante e Inês de Castro e a sua morte cruel transformou-se no mais famoso e trágico caso de amor da história portuguesa.
Monforte recebeu-nos com tempo morno, apesar da teimosia das nuvens em não deixar o sol brilhar em toda a plenitude. Caminhar pelo seu centro histórico é respirar uma atmosfera de tempos recuados, de pujante e bem restaurada arquitetura medieval desenhando ruas estreitas e empedradas para a vida. E foi essa a razão principal de ter sido declarada como bem cultural de interesse.





Todo o conjunto arquitetónico da Casa do Condado de Lemos é imponente e eleva-se sobre um pequeno promontório donde se avista uma paisagem deslumbrante, com a cidade dispersa a seus pés, num arco de 360 graus.
O palácio da Casa de Lemos, original do século XIII, conserva parte das muralhas originais. Também a Torre de Menagem, da mesma data, e todo o casario e monumentos que lhe estão próximos testemunham a importância que Monforte de Lemos alcançou em séculos passados. Daí avista-se o convento das Clarissas e o Colégio de Nossa Senhora da Antiga.
A cidade é banhada pelo Rio Cabe que é atravessado pela Ponte Velha, construção do século XVI, em pleno casco urbano.




CG


quarta-feira, 1 de setembro de 2021

Amanhece devagar ...

 

















Depois de um sono acalentado pelos murmúrios da maré-cheia, cativa dos rochedos semeados ao longo da orla norte de Vila Praia de Âncora, é salutar saltar da cama quente e sondar o tempo, ainda envolto num luar sublime, que logo transmite um sentimento misto de liberdade e magia.

Narciso adora madrugar, sempre que está junto do mar, levantando-se com o crepúsculo matutino. Gosta de sentir a fresca brisa da alvorada, admirar os pescadores de proximidade que, com as suas barcaças, pontilham o oceano com luminescências da faina piscícola e de desfrutar as características fragrâncias da maresia temperada com a fauna marginal ao oceano.

Fica encantado a olhar o constante vaivém do mar, lá mais ao fundo, e a respirar todos aqueles aromas antes de iniciar a caminhada, pelo passadiço, até Moledo do Minho. 

Faz questão de assistir ao nascimento de mais um dia neste vilarejo, aguardando o raiar do sol sentado no alto paredão fronteiro ao mar. É dali que avista a foz do Minho com a imponente Ínsua, pequena ilhota de granito com fortificação marítima, classificada como monumento nacional e que continua a sua missão de vigilância e proteção da barra do rio.











No regresso, cruza-se com caminheiros apressados, quase todos de semblante sonolento e cabelos desordenados. 

Outros andarilhos. de marcha mais tranquila, carregam mochilas que denunciam a demanda a Santiago de Compostela. Parece que todos estão compenetrados na missão de festejar a vida com aquele exercício matinal.

Durante o percurso, Narciso sente a liberdade aumentada, deleita-se com as ventanias soltas e rebeldes, frui de um recolhimento morno e fagueiro e descansa o olhar nas paisagens azuis a perder de vista.

É aí que mais sente saudades do futuro, sobretudo quando a maresia lhe entra pela alma dentro prenhe de odores mágicos do restolho da flora, que ladeia o caminho, evocando memórias ancestrais carregadas pelos genes.

São momentos inesquecíveis, aqueles: o contacto com a natureza e o assombro do mar. 

Narciso respira os cerca de sete quilómetros com as preocupações do quotidiano ausentes do seu espírito. Porque, por ali, o dia amanhece devagar ...

CG

sábado, 21 de agosto de 2021

A essência do tempo










 


 

«O tempo é um rio formado pelos eventos, uma torrente impetuosa. Mal se avista uma coisa, já foi arrebatada e outra se lhe segue, que será carregada por sua vez.»

Marco Aurélio (imperador romano), in «Meditações»


Há um tempo para tudo, diz o povo, e com razão.

Há o tempo da inocência, primeira veste da nossa alma, que se impõe naturalmente na alvura dos nossos dias. É um momento idílico da vida caracterizado pelo crescimento, maturação e desenvolvimento psíquico. É o tempo de olhar o mundo sem sentir a sociedade, de sonhar fantasias várias e de pressentir a ternura nos gestos de quem nos protege.

Segue-se, depois, o tempo da descoberta, do olhar desassombrado e frágil para os fenómenos que giram à nossa volta. É o tempo dos ideais e valores, da afirmação da personalidade, da irreverência, da aprendizagem livresca, da afirmação do carácter e das escolhas que estruturam e condicionam o futuro.

O tempo do desencanto antecede o da frustação em que, não raras vezes, o sonho transforma-se em pesadelo. Com o passar do tempo, emergem desilusões várias, desde logo, com amigos e companheiros de jornada. Competição, intrigas, traições e cobardias desfazem quase tudo que tínhamos por adquirido.

Depois, há um tempo que mais nos deprime, o tempo do fim: o desaparecimento dos nossos afetos maiores vira do avesso a vida e, por vezes, gera o caos e a tormenta. Há os que aguentam esse tempo com audácia, os que se perdem por entre mágoas sombrias arrastando os que lhes são próximos pelas águas turbulentas da inquietação.

Esta ilusão de instantes mágicos, que é a vida, é a verdadeira essência do tempo!

CG


sexta-feira, 20 de agosto de 2021

Poeira no vento!

 




«I close my eyes only for a moment, and the moment's gone. All my dreams pass before my eyes, a curiosity»

Dust in the wind (Kansas)



Que bela canção e que letra tão profunda de emoção: «Dust in the wind». A nostalgia dos sons e a relevância do poema conduz-nos para bem longe do nosso deserto pacífico.

Ao dispensar atenção ao bulício do quotidiano, perpassam pensamentos de roupagem multicolor. O presente obriga-nos a olhar em frente e a abandonar o passado esmaecido do nosso destino.

Tudo o que vivemos deixa de ter valor e significado mais à frente. A natureza em flor, os sussurros do vento, as melodias das aves vagabundas, o sol claro e morno da tarde deixam de ser pontos de referência quando o tempo se esgota por entre pensamentos furtivos sobre o significado da vida. 

«All we are is dust in the wind»!

CG


quarta-feira, 18 de agosto de 2021

Chamamento do mar!

 














O furor esbranquiçado das águas deste oceano de sonho prenuncia um tempo de luz e magia. Nada como o sol para aconchegar e amaciar o ambiente neste final de viagem que não cumpriu o planeado.

Mas, o que menos importa é de onde se parte ou em que lugar se chega. O que mais fascina é o caminho!

Viajar é sentir o mundo à flor da pele, é partir e voltar, deslumbre e sacrifício, descoberta e paixão e, a todo o momento, novos horizontes conquistados. 

Nada se compara à emoção de ser peregrino na própria viagem, de sentir o mundo pelo olhar dos outros e desvanecer nos ventos de feição a liberdade de viver.

Após alguns dias de itinerãncia, aportamos na nossa Vila Praia de Âncora para matar saudades de um tempo recuado e carregar o sol que nos faltou nos últimos dias. É aqui que gostamos de ancorar sempre que respondemos ao chamamento do mar!









Esta terra fez-se refúgio quando o futuro ainda estava longe. É para cá que desejamos vir quando o presente deixar de ter sentido e o passado se desfizer em memória.

Um dia, numa conversa informal sobre a vida, Narciso e sua companheira de vida decidiram isso mesmo: as cinzas serão parceiras destas rochas habitadas pelo mar.

Porém, a concordância da consorte fez-se acompanhar de um sussurro de preferência pelas zonas mais firmes de mar chão, por nunca se ter compatibilizado com águas profundas. 

Narciso sorriu pelo inusitado desejo já que nessa altura nada mais importa e todos os medos dissiparam-se lá atrás. Mas, assim será!

CG


segunda-feira, 16 de agosto de 2021

Tui - uma cidade surpreendente!


De Paredes de Coura a Tui percorre-se cerca de trinta quilómetros, por entre montes e vales polvilhados por um casario granítico e, de onde a onde, mansões senhoriais rodeadas de vegetação abundante.

A cidade de Tui, que sobe a colina da margem direita do Rio Minho, frontal a Valença foi, em tempos remotos, sinónimo de chocolate, caramelos e outras guloseimas para os visitantes fugazes da outra margem.

Nos dias de hoje é o combustível mais em conta que seduz os portugueses raianos ou em viagens de proximidade.


A primeira impressão que Tui deixa ao visitante é a de uma cidade medieval, graças à arquitetura do edificado, quase todo em granito e de notável conservação.

É um prazer percorrer as suas ruelas e calçadas, ora mais estreitas, ora mais largas, mas sempre apresentando a peculiar traça milenar.

Percebe-se bem a razão porque a cidade foi declarada conjunto histórico-artístico espanhol, por apresentar um estilo medieval e por mérito do seu rico património arquitetónico cujo expoente maior é a catedral românica e gótica, Santa Maria de Tui.


Lá em baixo, avista-se um espelho de água longo e sereno, o Rio Minho, que parece reflexivo e consciente da sua missão de unir os dois países até desaguar em terras lusas. 

 É, sem dúvida, uma cidade surpreendente!

CG


sexta-feira, 13 de agosto de 2021

Aventura falhada

 















                                                                                                                                        CG

Visitamos, pela primeira vez, Paredes de Coura, lugar mítico que acolhe, desde 1993, um dos maiores festivais de música em Portugal, evento que atrai milhares de entusiastas deste tipo de espetáculos de verão. Pernoitamos na área de serviço de autocaravanas, preparada a preceito há alguns anos, mas que, presentemente, tem a maioria dos serviços desativados. Uma pena!

Paredes de Coura é uma típica Vila do interior do Minho, banhada pelo rio Coura, um pequeno curso de água límpida que serpenteia estas terras de múltiplos encantos naturais. Por ali, a pandemia tem feito caminho, a ponto de obrigar ao encerramento de alguns serviços municipais, tais como o Museu Regional.

Como parte da fachada é envidraçada, deu para espiar algum do seu acervo, como um encantador tear rústico de madeira que, num instante, despertou memórias da minha avó materna, a quem chamava de «mãezinha». 

Ao admirá-lo, uma enxurrada de emoções emergiram em meu espírito, a ponto de quase ouvir de novo o mágico «toque, toque, toque» da braçadeira do pente a arrastar os fios da teia com que se produziam as mantas e os tapetes.

Para além dessa atividade artesanal, a minha avó era dona de um belo quintal de onde obtinha as verduras necessárias ao dia-a-dia e colhia uma apreciável variedade de frutos da época. Como a sua descendência de segunda e terceira geração era abundante, acontecia que os frutos desapareciam como por magia. Daí que fosse seu costume colocá-los a madurar numa varanda sempre vigiada para que nenhum intruso se enamorasse deles.

Vivia ainda a infância da vida e já me aventurava a entrar, de quando em vez, no espaço proibido da casa da avó e, ouvindo o costumeiro «toque, toque, toque» no andar inferior da moradia, caminhava ao som dos balanços da travessa do tear a fim de mitigar o ruído dos meus passos no soalho de madeira e alcançar o «fruto proibido». 

Um dia, quando já estava à entrada da varanda, surgiu a mãezinha que, com um sorriso de «gioconda», afirmou: - Afinal és tu o mandrião!

Admirado pela inesperada aparição, constatei depois que ela, enquanto se aproximava da varanda, simulou o «toque, toque, toque» batendo com uma vara nas escadas que ali desaguavam. O constrangimento que senti foi suficiente para pôr fim àquela aventura falhada.

CG

terça-feira, 3 de agosto de 2021

O bajulador

                                                                                                                                         in Blog Caiçara



Neste tempo de chumbo por que passamos, foram muitos os festejos que ficaram adiados. Nas aldeias mais rurais deste pais, as festas e romarias sempre funcionaram como um escape de liberdade e alegria e uma brisa de descontração a insuflar a alma para fazer frente a mais um ano de trabalhos e canseiras.

Numa animada conversa, sobre este assunto, Narciso destacava de maior importância a festa da Páscoa na sua aldeia, pelo alvoroço e entusiasmo que suscitava nas pessoas e, sobretudo, nas crianças.

Lembrava-se de, ainda menino, se deleitar com a turma do «compasso pascal», tradição arreigada em terras minhotas, baseada num ritual que se traduz na visita, pelo pároco, com a ajuda de mordomos e outros auxiliares, às casas dos paroquianos, levando a cruz a anunciar o Cristo ressuscitado.

Narciso era interno dum colégio religioso, daí que o padre da aldeia sempre reclamava a sua presença nessa liturgia, dando-lhe a função de recolher num saco as esmolas oferecidas a um santo de que já não recordava o nome. 

No final do beija-cruz em cada lar, gostava de apreciar as mesas, repletas de doces, frutas, guloseimas e vinhos finos, expostas para consumo dos integrantes do grupo do compasso.

Em determinado ano, quando tinha cerca de doze-treze anos, o compasso entrou na casa de um paroquiano, que vivia do seu ofício de cesteiro, e que era um conhecido puxa-saco do «senhor abade». 

Inesperadamente, aquele anfitrião abeirou-se do pequeno Narciso, pensando que era o sobrinho do padre, o Arturinho, e iniciou todo um cerimonial de bajulação e afagos em voz suficientemente sonora para que o padre pudesse ouvir.

Narciso estava agradado com os elogios e os mimos do artesão, mas, perante a insistência em confundi-lo com o sobrinho do padre, respondeu-lhe timidamente: - Eu não sou o Arturinho!

Embasbacado, o bajulador levantou-se num ápice, perguntando: - Então de quem és tu?

Como constatou que estava perante um garoto de origem humilde, descartou-o de imediato com o semblante constrangido pelo engano e enfadado pela perda de tempo com um puto irrelevante. 

No espírito daquele imbecil acantonou-se o ciúme por Narciso, apesar dos parcos recursos da família, ser um dos poucos rapazes da aldeia que tinha escapado aos trabalhos braçais e rumado a um colégio para se dedicar aos estudos.

Narciso ficou triste e melancólico, pelo inesperado da situação, e ficou-lhe para sempre gravado na memória este obscuro episódio da sua vida. Até porque, como muito bem reza, a propósito, um ditado popular: «Fere mais a língua do adulador do que a espada do perseguidor».

CG

segunda-feira, 2 de agosto de 2021

A diversidade do meu pequeno pomar ...

 


Apesar das fruteiras serem muito jovens, este ano a colheita parece compensar um pouco mais...

  
Mais do que a maior ou menor quantidade de frutos para consumo próprio, a sua qualidade espelha a dedicação como as plantas são tratadas e amimadas no dia-a-dia. 

             
   

Para além de retribuírem para uma alimentação saudável, as frutíferas proporcionam uma relevante qualidade de vida aos que lhes dedicam o tempo e os nutrientes imprescindíveis ao seu desenvolvimento, pois, é adquirido pela ciência que viver perto da natureza melhora e aumenta a saúde mental e os padrões de atividade física. 


CG





sábado, 31 de julho de 2021

Até onde nos levará?

 


imagem do Satélite Astronómico Hubble 
Fonte: Portal IG




A astronomia não fazia parte das curiosidades científicas do Narciso.

Foi o seu filho, Eduardo, que um dia lhe inspirou um deslumbramento pelos astros do universo e lhe surgiu em casa com uma despretensiosa luneta para olhar o céu noturno. Na altura, Narciso ficou estupefacto com o atrevimento do Eduardo pela precoce curiosidade sobre a astronomia. quando ainda iniciava a vivência dos anos sonhadores da adolescência.

Contudo, este entusiasmo do seu rebento acabaria por despoletar nele uma saudável inquietação para as questões sobre a origem da vida e do universo. Cedo começou a presumir que a narrativa criacionista da religião cristã não poderia constituir um dogma sem qualquer possibilidade de demonstração.

Nos inícios da década de setenta, do século passado, Narciso teve um crise de fé em terras de África, quando aí prestava serviço militar na guerra da Guiné-Bissau, para a qual implorou a ajuda de um sacerdote conhecido, não tendo obtido qualquer resposta.

Nos momentos de combate no mato, quando a morte era sua vizinha nos corpos baleados e contorcidos dos camaradas mais azarados e testemunhava a miséria de todo um povo, cerceado de liberdade, acantonado às «tabancas» e sofrendo os danos colaterais de uma guerra injusta, Narciso sentia-se vazio por dentro e incrédulo em qualquer divindade.

Naqueles momentos de tragédia, questionava, por exemplo, a ausência dos capelães do exército, que sempre preferiam o «ar condicionado» de Bissau às matas e bolanhas onde os combatentes «caíam que nem tordos».

Lembra-se bem de, nas «emboscadas noturnas», quando deitado no capim pelas altas horas da noite a olhar o firmamento de África carregado de estrelas, descobrir o seu fascínio pelo cosmos. Depois, percebeu que o universo é gigantesco como o infinito, está em expansão e que o nosso planeta é um simples grão de poeira quando comparado com a grandeza do cosmos multiverso.

Impressionava-se pelo mutismo sufocante das hierarquias da igreja católica perante a evolução da ciência, facto que contribuía para reduzir, progressivamente, a sua narrativa a um efetivo malogro.

Não por acaso, desde a antiguidade clássica até aos nossos dias, a ciência tem colidido com a religião católica em diversos domínios. 

O desenvolvimento da astronomia, por exemplo, tem colocado a ridículo a interpretação literal da bíblia sobre a criação do mundo, sobretudo a partir da demonstração de que a Terra não fica no centro do universo e que orbita o sol.

A própria teoria da evolução de Charles Darwin, sobre a seleção natural, deitou por terra a teoria criacionista defendida pela religião cristã. E só em 1950 o Papa Pio XII descreveu a evolução como uma abordagem apropriada à origem do ser humano.

Ou seja, o avanço da ciência tem funcionado como um cilindro gigante que vai esmagando teorias, dogmas, interpretações, contradições e mitos tidos como verdades absolutas durante milênios. Até onde nos levará?

CG