sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Carvoeiro



Foto: Tonicha

Lá, no Cabo fronteiriço
Das Berlengas solitárias
Fustigadas pelo assombro
Dos ventos em reboliço
Entre as pedras calcárias
Num sussurro tão medonho
Como se fosse feitiço!

O tempo está de feição
Nesta manhã de luz clara
Iluminando as arribas
Numa nobre ilusão rara
Apesar da fúria branca
Das águas sempre cativas
Num prodígio que encanta!

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Este meu cismar!



Foto: Carlos da Gama



A mesma marginal, o inalterado complexo do Inatel e, lá bem em baixo, o mesmo lago vestido de águas transparentes. 
O mesmo enlevo quando estendo o olhar admirado para o recorte montanhoso ali tão próximo. 
O mesmo impulso de calmaria nesta tarde que se segue a tantas outras. Hoje, apenas algumas negras nuvens e um vento geladinho retiram a sensação quente de outrora.  

O tempo, de cerca de quinze anos, voou num instante. Ainda lembro, com a nitidez do vivenciado, o som da gritaria emergindo da Lagoa, garantia de um recreio feliz às famílias que ali se espraiavam numa algazarra descomprometida. Hoje, apenas se atrevem alguns jovens surfando de «kitesurf's»  que os arrastam pelas águas ao sabor da força dos ventos.
Cá estou a saborear os mesmos cheiros e cores, misturados com um silêncio só interrompido com o breve chilreio da passarada que habita esta magnífica Lagoa de Óbidos. Este local faz-me bem à alma, sem dúvida!
Cai uma chuva copiosa e fria. Louis Armstrong canta «Cést si bon» ao som da trompete e demais orquestra, emprestando magia a este momento. 

Aproxima-se a noite. 
O tempo aprisiona-me na Micha, excepcional zona de conforto. É a natureza a anunciar as vestes do Outono e o início da sua hibernação. 
Daí que as árvores ainda não se tenham despido até à nudez completa. 
Algumas exibem pétalas mais persistentes numa orgia de amarelos e ocres, oferecendo um colorido deslumbrante à paisagem que nos rodeia.
Há algo de eterno neste lugar. 
É incontido o impulso para fruir desta bebedeira de cores, silêncios e transparentes linhas de água que rumorejam pelo espraiado. 
O céu triste chora uma chuva que aquece o ambiente deste meu cismar. Há instantes que valem a vida. Como este!

Foz do Arelho

Foto: Carlos da Gama





Magia deste lugar
Quando outrora
O tempo estava a passar
Por aqui

Rebentos ainda infantes
Destino quase sem hora
De saudade e maresia
Com sonhos equidistantes
Em reflexos de fantasia
No cardume de rebeldia



Passaram doces encantos
Que não voltaram a sorrir
Sobraram afectos errantes
Na lagoa do porvir
Que hoje trouxe à memória
A magia doutros recantos
De que se faz esta história

O tempo é uma incógnita
Que deixa a alma perdida
Num passado que não desiste
Sempre esta vontade indómita
Que teima em ter cativa
Esta ilusão que resiste!