segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Canção para a Minha Mãe



















E sem um gesto, sem um não, partias!
Assim a luz eterna se extinguia!
Sem um adeus, sequer, te despedias,
Atraiçoando a fé que nos unia!

Terra lavrada e quente,
Regaço de um poeta criador,
Ias-te embora antes do sol poente,
Triste como semente sem calor!

Ias, resignada, apodrecer
À sombra das roseiras outonais!
Cor da alegria, cântico a nascer,
Trocavas por ciprestes pinheirais!

                                    Miguel Torga, in 'Diário (1946)

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Novembro





(CG - Porto Covo.2014)






Este mês de cara triste
De despida natureza
É rio que não resiste
À torrente de tristeza

É uma fase de ruptura
E de basta melancolia
Pesar e mágoa à mistura
Vazio d’alma, nostalgia!

Neste mês de cores baças
Nem o céu tem cor azul
É tempo de ganhar asas
Rumo a falésias do sul

Cismar olhares passados
Moer angústias e dores
Largar dramas e fados
Cuidar de nossos amores

Que foram e que cá estão
E dar um rumo à dinastia
Mais próxima do coração
Numa constante vigília!                               

                                                                              Carlos da Gama (Nov. 2014)