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terça-feira, 14 de março de 2017

O esmorecer da esperança ...







Leio o Torga nos seus Diários XV. Tem quase oitenta anos e expressa-se numa invejável vitalidade literária. 
No entanto, as suas letras e versos caminham paulatinamente de encontro à finitude, que antevê muito próxima. Sente-se o cansaço duma vida de braço dado com a inquietude.
Torga vestiu sempre uma fisionomia austera. No entanto, à medida que se aproxima do fim, como com quase todos os idosos da nossa praça, acrescenta severidade e rigidez ao semblante.
Sempre me interroguei da razão dos velhos exibirem, quase sempre, rostos tristes e melancólicos. 
Parece que a luz da vida desaparece com a idade, cedendo lugar à penumbra. O pensamento rápido e a memória prodigiosa vão dando lugar ao esquecimento. A solidão substitui a algazarra festiva doutros tempos, o olhar fica mais fixo em horizontes esvaziados de sonhos e a chama da vida vai-se apagando lentamente.
Há um tempo para tudo. E a velhice é o tempo do fim. Do esmorecer da esperança e da certeza de que a vida não é perene. E disso damos conta, sobretudo, após vermos partir os nossos afectos maiores. Pois é quando ficamos sem chão!

terça-feira, 7 de março de 2017

Vigilia






Altas horas da noite.
Acordado,
Rememoro o passado,
Analiso o presente
E adivinho o futuro.
Procuro,
Humanamente,
Dar sentido
Ao que fui,
Ao que sou
E ao que serei.
Mas a minha verdade
Não tem a claridade
Da razão.
É esta aflição
     Continuada
     Que no meu coração
     Bate descompassada.
                 
 
                            Miguel Torga (Diários XV)




terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Um poema





«Não tenhas medo, ouve:
É um poema
Um misto de oração e de feitiço…
Sem qualquer compromisso,
Ouve-o atentamente,
De coração lavado.
Poderás decorá-lo
E rezá-lo
Ao deitar
Ao levantar,
Ou nas restantes horas de tristeza.
Na segura certeza
De que mal não te faz.
E pode acontecer que te dê paz
»
            Miguel Torga, Diário XIII

A paz entra pela alma dentro quando lemos este poema de um dos mais importantes poetas do século XX...


sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Negrura



(Carlos da Gama. Marrocos2013)

 “Neste dia sem luz que me anoitece,
Que me sepulta inteiro,
Até de mim a minha dor se esquece
Para que eu seja um morto verdadeiro.

Chove tristeza fria no telhado
Do castelo do sonho; nua, nua
A calçada que subo, já cansado
De tanto andar perdido nesta rua.

Duma olaia caiu, morta, amarela,
Qualquer coisa que foi princípio e fim;
E bem olhada, bem pensada, é ela
Aquela folha que lutou por mim…

Sozinho e morto ouço cantar alguém,
Mas é longe de mais a melodia…
E o ouvido que vai nunca mais vem
Trazer-me a luz que falta no meu dia.”
                                                               Miguel Torga, in «Diários I a IV»