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Começou, bem cedo,
a perceber a vida como um rio que deve caber nas margens que o limita e embala
até à foz. Mas, tinha consciência que, pelo caminho, deixaria os afectos
grávidos da sua memória e perturbados pelo futuro que já não o povoa.
Da retina do
passado, costumava revisitar um dos quadros mais fagueiros da sua infância: a
visão de um rapaz a trepar a encosta do monte, até à caseta, para avistar a cidade grande lá do alto. Ali punha o seu pensamento a voar pela vertigem do imenso verde,
debaixo de um céu azul onde a coragem conquistava asas de sonhos encantados. Era
a liberdade inundada pela frescura da paisagem e pela maresia que se adivinhava
mais ao longe.
Respirava mais
fundo para absorver aquela fantástica sensação onde depositava frases de poemas
que há muito guardava no pensamento.
Por vezes, sentia-se
perdido nas palavras que habitavam os seus versos. Doía-lhe qualquer sentimento
que desconhecia. Mas sabia que há ciclos da vida em que começamos a aprender a esperar
o tempo. E o que mais precisamos são palavras cheias de memórias vivas. Todas
as palavras!

