domingo, 12 de fevereiro de 2017

Todas as palavras!



CG


Começou, bem cedo, a perceber a vida como um rio que deve caber nas margens que o limita e embala até à foz. Mas, tinha consciência que, pelo caminho, deixaria os afectos grávidos da sua memória e perturbados pelo futuro que já não o povoa.

Da retina do passado, costumava revisitar um dos quadros mais fagueiros da sua infância: a visão de um rapaz a trepar a encosta do monte, até à caseta, para avistar a cidade grande lá do alto. Ali punha o seu pensamento a voar pela vertigem do imenso verde, debaixo de um céu azul onde a coragem conquistava asas de sonhos encantados. Era a liberdade inundada pela frescura da paisagem e pela maresia que se adivinhava mais ao longe. 

Respirava mais fundo para absorver aquela fantástica sensação onde depositava frases de poemas que há muito guardava no pensamento.

Por vezes, sentia-se perdido nas palavras que habitavam os seus versos. Doía-lhe qualquer sentimento que desconhecia. Mas sabia que há ciclos da vida em que começamos a aprender a esperar o tempo. E o que mais precisamos são palavras cheias de memórias vivas. Todas as palavras!


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

O olhar e a esfinge

CG



Há momentos que gostamos de surfar na vertigem do mistério. De sentir a voz do silêncio que nos inquieta como vento em seara cheia.

Quando a alma procura abrigo da ambiguidade dos tempos de chumbo, é junto do mar que se concentra. É lá que se despe do corpo e esvoaça suavemente pelo areal molhado, colada ao algodão balançado da rebentação. E sente-se o seu olhar desassossegado quando a vista se alonga na lonjura. Só a brisa fresca da ousadia a prende como uma nau no coração da quietude.

Ali, ouvindo a voz do mar, bem-humorada ou impetuosa, sente-se bem e esquece tudo o que foi o seu fado intranquilo. Apenas assimila o olhar e a esfinge daquele momento.


sábado, 4 de fevereiro de 2017

Lagoa de Óbidos





Esta é uma instância que sempre procuramos quando rumamos a sul. 

A visão da Lagoa de Óbidos emerge sempre como uma novidade, por muitas vezes que visitemos o local.
 
Está muito frio mas os raios solares amaciam o ambiente e permitem um acolhimento mais aprazível neste cantinho do Oeste do meu país.

Amo especialmente os silêncios que se ouvem, só perturbados pelo bruaá de alguns pescadores que se afoitam no lançamento do anzol e trocam mansos diálogos com os companheiros de faina.

Um passeio ao longo da Lagoa, debaixo de um sol de fraca intensidade e de um céu azul, é um cenário sublime e sugere o alongamento do pensamento para estágios da memória revivida.

É fácil, nesta caminhada, rememorar a vida no que tem de melhor, sobretudo, no que passou e deixou saudades.

O final da tarde na Foz do Arelho é mágico quando o pôr-do-sol se espreguiça num horizonte de cores soalheiras e se reflecte no imenso espelho de água que temos pela frente. É um deleite contemplar as luzes das moradias a anunciar o final do dia e as mansas águas da Lagoa numa tranquilidade que impressiona.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Zona põe «cobro» à viagem!



A noite foi a mais fria de sempre que passamos no Algarve. Só, mesmo, a cama quente de mantas fofinhas ajudou a suportar o ar gélido que ambientava a Micha.
De manhã, para nosso espanto, começaram a cair farrapos brancos de uma chuva espaçada que, lamentavelmente, não conseguiram pintar o chão. 

O céu estava encoberto por nuvens baixas e escuras e as previsões anunciavam borrasca para todo o dia. Daí que abreviasse-mos o regresso, passando por Mértola e Beja e pernoitando em Évora. 
Apesar da brisa fresca que se fez sentir em todo o país, o Alentejo apresentou-se de céu limpo e com um sol que, sendo tímido, tornava mais acolhedor o ambiente.
No entanto, hoje, fui surpreendido com o surgimento de borbulhas, espalhadas pela região do abdómen e do dorso lombar. A noite tinha sido de vigília porque as dores não permitiram descanso. Há já cerca de três dias que o corpo emitia sinais de alarme sem que imaginasse a causa de um mal-estar crescente.
Em Évora procurei um Centro de Saúde para colher um diagnóstico clínico e, eventualmente, obter a prescrição dos fármacos necessários à debelação do problema.
- «É a Zona que você tem!» -, foi a sentença do médico imediatamente após eu ter ficado de tronco nu. 

Confidenciou-me que no Alentejo esta doença é popularmente conhecida por «cobro» e declarou que tinha pela frente várias semanas de dores intensas, apesar dos fármacos para atenuar as dores e de um antivírus para resolver o problema.
Na «Unidade Saúde Familiar Planície (Sede)», a que recorri como utente «esporádico», obtive um atendimento personalizado muito eficiente e o médico que me consultou demonstrou qualidades humanas e relacionais acima da média. Fica aqui o registo do meu agradecimento a todos!
Mas, após o veredicto clínico, sabia que uma outra decisão haveria de ser tomada: a Zona põe «cobro» à viagem!
Imagens: Google