sábado, 16 de novembro de 2013

horizonte de púrpura


CG

















Quando a melancolia rompe pela alma
Deixa-nos sitiados no próprio destino,
Nem lá no horizonte se almeja vivalma
Apenas turbulência e fervor repentino

Quando a memória tropeça na vertigem
Do mar que se inquieta, sem desfalecer
A própria nostalgia mostra a sua origem
No abraço ferido que queima sem doer

É como a saudade que custa a revelar
Toda a ousadia segregada ao sentimento
Há no cimo da falésia emoções a ancorar
Em dia ensolarado ou, mesmo, ao relento

Nostalgia é quando a tristeza emerge
De memórias erráticas, sempre a avivar
E quando toda a mágoa se desvanece
No horizonte de púrpura postado no mar

Nostalgia é angústia que traz ansiedade
Um estado de alma que se foi colher
Como bússola com vida e cumplicidade
Socorre-se da escrita para poder viver!
 

CG



sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Cidade


CG


Cidade, rumor e vaivém sem paz das ruas,
Ó vida suja, hostil, inutilmente gasta,
Saber que existe o mar e as praias nuas,
Montanhas sem nome e planícies mais vastas
Que o mais vasto desejo,
E eu estou em ti fechada e apenas vejo
Os muros e as paredes, e não vejo
Nem o crescer do mar, nem o mudar das luas.

Saber que tomas em ti a minha vida
E que arrastas pela sombra das paredes
A minha alma que fora prometida
Às ondas brancas e às florestas verdes.
Sophia de Mello Breyner Andresen

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Viagem a Marrocos - tempo de balanço!






O tempo não passa quando é de expiação.

Mas quando a aventura veste meus dias e a liberdade tem asas de mar, o tempo corre em bolina. 

Foi assim que aconteceu nesta minha primeira viagem a Marrocos.

Foi um reviver de aventura e um novo olhar que se espraiou.

Foi viajar sem peso e medida e repousar na suave brisa da maresia.


Mas, como em tudo na vida, também esta viagem chegou ao fim. 

Foram cerca de 30 dias de fortes emoções pela aproximação a uma cultura diferente daquela em que formei a minha estrutura de valores, mental e psicológica.


O que mais me impressionou naquele país do Norte de África foi a força do islamismo na vida das pessoas. 

Todos os dias, nos mesmos horários (4 vezes ao dia), do minarete da mesquita jorram palavras a apelar à oração, sempre iniciada pela frase «Allahu Akbar» (Deus é Grande). 

E é comum vermos pessoas, em algumas horas do dia, em oração, de bruços e virados para Meca, quer nas praças das grandes cidades, quer nos souks (mercados), quer nas praias, para além das mesquitas que se encontram junto de cada povoado, por mais pequeno ou interiorizado que seja.

Impressionou-me, também, o carácter do povo de Marrocos. 
 
Nunca senti qualquer olhar mais comprometido nem, tão pouco, qualquer sensação de insegurança.
 
O povo berbere é de paz e recebe bem quem os visita.
 

Não esqueço a muita simpatia de que beneficiei em algumas situações mais complexas da viagem, quer a nível do trânsito, quer de informações sobre determinada região ou quaisquer outros assuntos.

Fui berbere na questão do regateio – um hábito enraizado na cultura marroquina - quando comprava qualquer produto, conseguindo que, quase sempre, o preço baixasse para cerca de metade.

Adorei Marraquexe, uma cidade de trânsito caótico mas genuína na conservação dos costumes ancestrais. 

Admirei Rabat, a capital de Marrocos, e vagueei pelas estreitas ruas da sua Medina em pleno dia da festa do carneiro.
 
Aí fiquei chocado pela quantidade de peles destes animais, todas ainda com sangue fresco e de forte odor característico, a serem comercializadas pela gente dos curtumes.
Impressionou-me ver as fogueiras acesas pelos mais pobres da sociedade para aí cozinharem as cabeças dos carneiros que eram desprezadas pelos donos dos mesmos. 


Marrocos é um país de belas paisagens, quer ao longo da costa atlântica, quer mais no interior montanhoso do Médio Atlas. 








Se o oceano é calmo e quente,onde as praias de areia finíssima se estendem a perder vista, as aldeias encaixadas nas montanhas são de uma beleza ímpar.

Apenas um senão: 

o grau de pobreza visível, quer nas grandes cidades, quer nas aldeias mais recônditas.

Apesar de tudo, estava à espera de pior.


Nota-se que Marrocos está a ter um desenvolvimento notável a nível das infra-estruturas e do ensino. Oxalá seja perene!