quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

«E tudo o vento levou!»




 Sim, minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem das grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite.
Clarice Lispector


Estava em baixa forma física e psíquica. Doía-lhe o corpo em tempo de frio e arrastava um estado de alma ocioso e apático. O sol de inverno, que se impôs nos últimos dias, tem sido insuficiente para lhe levantar o ânimo. 
Há meses que exibe o semblante mais sombrio e melancólico, como se tivesse desaguado numa qualquer rua da inquietude. O seu espírito, esse enigma maior do ser humano, parece perdido num turbilhão de emoções que não consegue decifrar.
As memórias doutro tempo, que lhe assolam o pensamento, pressagiam um furacão de marés cheias de soturnidade. E acha que já não lhe sobra tempo para regressar aos afectos perdidos.
Anda tão absorto e tristonho que parece ter perdido o rumo à navegação. E já não reage às quimeras que lhe moldavam o carácter e às utopias que sugeriam o destino. Presume ser chegado o tempo de ir de contra o vento e pressentir o rosto fresco e salgado pelos sons do mar. E busca conforto nesses eternos silêncios.
Durante os dias de chumbo, não almeja guarida segura. Persegue, solitário, os horizontes de cores quentes na demanda de afeições que já não vislumbra. E acompanha, com nostalgia, os absurdos diálogos que tecem a manta de retalhos da sua vivência em comunidade. Que lhe parece resumir-se ao nobre título «E tudo o vento levou!».

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

maresia alentejana



Chegamos à Batalha já o dia se tinha despedido, dando lugar a uma noite fresca de inverno polar. Mesmo assim, a Vila recebeu-nos bem iluminada pelo comércio ainda aberto. 
No estádio, e em seu redor, são muitos os cidadãos que se exercitam, quer na modalidade do futebol, quer do atletismo, quer, mesmo, nas caminhadas de desentorpecimento dos corpos após mais uma jornada de trabalho. 
O monumento, com a memória do Condestável na sua frente, é de uma beleza extraordinária, quase que justificando a peleja outrora ocorrida com o vizinho Reino de Castela.
Logo pela manhã, saímos em direcção à Costa Vicentina, com Porto Covo como ponto de chegada. 
O tempo está aberto e sem nuvens, permitindo admirar, do alto das arribas, o oceano cor de esmeralda que se estende a perder de vista. 
Lá em baixo, as areias douradas da Praia Grande, da Praia dos Buizinhos e da Praia Pequena dão um encanto especial àquela marginal. 
Não por acaso, durante todo o ano, Porto Covo atrai um crescente turismo de proximidade que muito tem ajudado à valorização da economia local.
 Fora do período estival é o autocaravanismo que anima o comércio daquela pequena aldeia da costa alentejana.
Apesar do vento gélido que se faz sentir, os momentos passados nas arribas de Porto Covo são de assombro na admiração do marulhar das águas resultantes do contínuo vaivém deste largo oceano. E na contemplação do pôr-do-sol que, com os seus raios multicolores, preenchem o nosso espírito de melancólica maresia e arrastam o pensamento para patamares de acrescida felicidade.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

A briga

 CG


Afirmas que brigámos. Que foi grave.
Que o que dissemos já não tem perdão.
Que vais deixar aí a tua chave
E vais à cave içar o teu malão.

Mas como destrinçar os nossos bens?
Que livro? Que lembranças? Que papel?
Os meus olhos, bem vês, és tu que os tens.
Não te devolvo – é minha – a tua pele.

Achei ali um sonho muito velho,
Não sei se o queres levar, já está no fio.
E o teu casaco roto, aquele vermelho
Que eu costumo vestir quando está frio?

E a planta que eu comprei e tu regavas?
E o sol que dá no quarto de manhã?
É meu o teu cachorro que eu tratava?
É teu o meu canteiro de hortelã?

A qual de nós pertence este destino?
Este beijo era meu? Ou já não era?
E o que faço das praias que não vimos?
Das marés que estão lá à nossa espera?

Dividimos ao meio as madrugadas?
E a falésia das tardes de Novembro?
E as sonatas que ouvimos de mãos dadas?
De quem é esta briga? Não me lembro.
                                                           Rosa Lobato de Faria