terça-feira, 30 de junho de 2020

Saudades



CG



Sinto saudades de tudo que marcou a minha vida.
Quando vejo retratos, quando sinto cheiros,
quando escuto uma voz, quando me lembro do passado,
eu sinto saudades…
Sinto saudades de amigos que nunca mais vi,
de pessoas com quem não mais falei ou cruzei…
(…)
Sinto saudades do presente,
que não aproveitei de todo,
lembrando do passado
e apostando no futuro…
Sinto saudades do futuro,
que se idealizado,
provavelmente não será do jeito que eu penso que vai ser…
Sinto saudades de quem me deixou e de quem eu deixei!
De quem disse que viria
e nem apareceu;
de quem apareceu correndo,
sem me conhecer direito,
de quem nunca vou ter a oportunidade de conhecer.
Sinto saudades dos que se foram e de quem não me despedi direito!
Daqueles que não tiveram
como me dizer adeus;
de gente que passou na calçada contrária da minha vida
e que só enxerguei de vislumbre!
Sinto saudades de coisas que tive
e de outras que não tive
mas quis muito ter!
(…)
Sinto saudades dos livros que li e que me fizeram viajar!
Sinto saudades dos discos que ouvi e que me fizeram sonhar,
Sinto saudades das coisas que vivi
e das que deixei passar,
sem curtir na totalidade.
Quantas vezes tenho vontade de encontrar não sei o que…
não sei onde…
para resgatar alguma coisa que nem sei o que é e nem onde perdi…
(…)
E é por isso que eu tenho mais saudades…
Porque encontrei uma palavra
para usar todas as vezes
em que sinto este aperto no peito,
meio nostálgico, meio gostoso,
mas que funciona melhor
do que um sinal vital
quando se quer falar de vida
e de sentimentos.
Ela é a prova inequívoca
de que somos sensíveis!
De que amamos muito
o que tivemos 
e lamentamos as coisas boas que perdemos
ao longo da nossa existência… 

                                                                                         Clarice Lispector



terça-feira, 14 de março de 2017

O esmorecer da esperança ...







Leio o Torga nos seus Diários XV. Tem quase oitenta anos e expressa-se numa invejável vitalidade literária. 
No entanto, as suas letras e versos caminham paulatinamente de encontro à finitude, que antevê muito próxima. Sente-se o cansaço duma vida de braço dado com a inquietude.
Torga vestiu sempre uma fisionomia austera. No entanto, à medida que se aproxima do fim, como com quase todos os idosos da nossa praça, acrescenta severidade e rigidez ao semblante.
Sempre me interroguei da razão dos velhos exibirem, quase sempre, rostos tristes e melancólicos. 
Parece que a luz da vida desaparece com a idade, cedendo lugar à penumbra. O pensamento rápido e a memória prodigiosa vão dando lugar ao esquecimento. A solidão substitui a algazarra festiva doutros tempos, o olhar fica mais fixo em horizontes esvaziados de sonhos e a chama da vida vai-se apagando lentamente.
Há um tempo para tudo. E a velhice é o tempo do fim. Do esmorecer da esperança e da certeza de que a vida não é perene. E disso damos conta, sobretudo, após vermos partir os nossos afectos maiores. Pois é quando ficamos sem chão!

quinta-feira, 9 de março de 2017

A vida é uma lição






«Desde a primeira hora que adivinho a desilusão de hoje. Foi um pressentimento vago, mas teimoso. E, afinal, todas as minhas previsões se confirmaram. A razão tem-me enganado muitas vezes. A intuição, nunca.»

Miguel Torga, in Diários XV


Gosto de, uma vez por outra, rumar até junto das águas mansas do estuário do Cávado para elevar a memória aos confins da fantasia. É nesses momentos, de pura introspecção, ou de solidão acompanhada, que a vida se desfaz em vento dispersando a bruma de um passado que já não reconheço.
Perdi a ousadia de revisitar contextos em que me achava dono do tempo. Mais recentemente, a fotografia achou-se desfocada. Num instante sem retorno.
E só em pensamentos fugazes é que revivo alguns tomos de dias felizes do meu passado morto. Sabendo que o pior e o melhor de nós perdura quase sempre na memória dos outros.
E esse é o momento para tudo questionar e pôr à prova. Do que se passou em décadas distantes, resta, tão só, o que é nuclear em presenças, ternura e afectos. 
Porque a vida é uma lição que só se aprende, definitivamente, quando já não sobra mais tempo.