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sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

É assim a vida!


Não aconteceu o anunciado fim do mundo. Tudo vai continuar na mesmice do costume.
Hoje o dia está húmido. Quase triste. A natureza desnudada só se remexe quando o vento corre ousado no seu encalço.

Joana Carvalho
Entramos no inverno. Uma estação plena de ironias.
Passou já tanto tempo desde os dias longos de frio e chuva vestidos de um viver pobre e de alegria breve. 
Um tempo em que se esperava por esta quadra com a alma em sobressalto. Algo de novo despontava numa satisfação que não se materializava em coisa alguma. Mas existia uma magia que animava esta época de afagos.

Passadas que foram muitas existências e o afloramento do núcleo de afectos de proximidade, parece que a  vida perde sentido a  cada dia que passa. Olhamos em frente e vemos um espaço de sobressaltos, apesar da esperança. A ponto de emergir a inquietante interrogação sobre se terá valido a pena todo este percurso.

Um dia destes, li um escrito acerca do génio da arte da criação, Óscar Niemayer, que, num desabafo tardio, terá concluído que a vida era um minuto. Tinha vivido mais de cem anos. Mas, estou certo, se tivesse o dobro do tempo, a vida ter-se-ia igualmente definido como um sopro. Porque, quando olhamos para trás, não vislumbramos a largura dos afectos, nem a intensidade dos momentos vividos. É assim a vida!

domingo, 10 de julho de 2011

Preciso de silêncio …





Preciso de silêncio … para me ver por dentro. Para poder voar sem destino que nos castigue. Para te imaginar por aí deambulando pelas sombras do que fomos.

Preciso de silêncio … para caminhar em paz pelo espraiado do sul quente da magia. Para esvoaçar meus sonhos e fugir na aventura do infinito.

Preciso de silêncio para estar só. Para que a nostalgia me faça a companhia que os deuses sempre recusam.
Preciso de silêncio … para olhar os horizontes em que estamos mergulhados. Para caminhar lado a lado com as palavras por dizer. Para te ouvir nesse marulhar das águas em plena luz do luar.

Preciso de silêncio … para te ler a alma. Para navegar por entre brumas de saudade. Para te olhar o sorriso de luz e encanto. Para sonhar devagar …devagar!

Preciso de silêncio … como um louco ama a loucura de se sentir protegido. Para ouvir os sons que me enchem a alma de saudade. Para estar só na tua companhia.

Preciso de silêncio … para me sentir dono de ti nesta aventura dos sentidos. Para verter vontades de te dar as mãos por esse imenso areal da tua vida. Para olhar o céu e sentir o azul do mar. Para perscrutar dimensões que não domino.

Preciso de silêncio … Preciso de ti !


 Carlos da Gama
                   Fotos: Google Imagens         

terça-feira, 28 de junho de 2011

Silêncio …

Sinto a comoção ao rubro quando uma melodia atinge-me o coração, aprisiona-me a alma e inspira-me intensamente. Quando uma cantiga tem o condão de me fazer sonhar, de imaginar outros contextos e de sentir outras vertigens, … fico com uma gratificante sensação de tranquilidade.
Depois, … bem, depois, segue-se um sem número de audições até que permaneça a vontade de a saborear durante muito, muito tempo!

A balada de Maria Guinot – «Silêncio e tanta gente» –, levada ao festival da Eurovisão no ano, já longínquo, de 1984, faz parte das melodias que não me canso, jamais, de ouvir. A letra cativa e inquieta. A música enche-me de nostalgia e saudade.
Nostalgia, porque ela contém uma sonoridade melódica que arrepia a alma. E a voz de Guinot empresta-lhe uma suave harmonia à mensagem. Depois, a estrofe «E troco a minha vida por um dia de ilusão» é um fantástico hino ao amor e à primazia da ternura no contexto da vida de cada um de nós.
Estou em crer que Maria Guinot quis solidarizar-se com o grande escritor português, Raul Brandão, que, magistralmente, deixou escrito: «compreendi que a nossa vida é, principalmente, a vida dos outros... Melhor: compreendi que a ternura era o melhor da vida. O resto não vale nada!».

Para além disso, considero o «Silêncio e tanta gente» uma ode ao silêncio, tão necessário nos tempos que correm. É no silêncio que conseguimos sentir a alma e olhar mais longe a razão da nossa existência. É no silêncio que percebemos melhor o sentido da vida e perscrutamos, com maior nitidez, os horizontes que ambicionamos alcançar.
O silêncio é a minha praia favorita. E é lá que também «descubro as palavras por dizer» com um prazer que me preenche a vida.
Pode ser um silêncio acompanhado pelo resmungar do mar, quando enfrento o vento para o encarar de frente. Pode ser um silêncio feito de som e espuma das águas revoltas que castigam o espraiado onde o mar teimosamente se extingue.
Pode ser um silêncio com horizontes de cores tardias que se revelam para melhor se compreender a lonjura do que se quer mais perto. Pode ser um silêncio feito de maresia, onde se respira a saudade e se enchem os pulmões de outros ventos e marés. Pode ser um silêncio …

«Silêncio e tanta gente», da Maria Guinot, tem o condão de me levar para estádios de alma em que me esforço, em vão, por compreender os destinos desta existência tão breve. Mas é também uma cantiga prenhe de esperança que me enternece e faz sonhar.
São raras as mensagens musicais que nos transportam sonho, luz e magia. E quando uma balada desperta o sonho, como esta da Maria Guinot, ela atinge, em pleno, o objectivo mais nobre de uma cantiga. Pois, somos resultado de um sonho e percorremos a vida perseguindo vários sonhos. Tal como escreveu António Gedeão: «o sonho comanda a vida». Quando assim não for, a vida deixa de ter sentido, não sendo mais preciso o silêncio!

Carlos da Gama
                                      Foto: Google Imagens