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domingo, 1 de janeiro de 2012

Sonhos e expetativas!

                                                                                                     Foto: Carlos da Gama       



Por vezes, sinto medo de escrever. Porque ao juntar as letras sinto que tenho que me responsabilizar por elas.
Quando junto as letras elas formam palavras que podem ser belas, soltas, livres e …  o seu contrário.
Quando escrevo nostalgia, por exemplo, receio que essa palavra sofra desse sentimento de quase felicidade, sem o ser.
Quando escrevo maldade, sinto que esse conceito fica encerrado na palavra que construí e que dela nunca mais se afasta. Quando penso em amor, receio vulgarizar a emoção mais nobre à face da terra.
Um dia, tropecei com a palavra «sonho». E apaixonei-me de imediato. Acho que foi amor à primeira vista. Porque senti a alma elevar-se para uma dimensão diáfana, com horizontes de liberdade e de expectativa positiva. Sempre soube que ele comanda a vida, tornando-se extremamente importante para todos os seres pensantes.
O sonho multiplica-se por vários contextos. Quem o desconhece não vive. Quem não ousa enfrentar os sonhos, não vence. É perseguindo-os que se constrói o futuro. Dizem, até, que quando o homem sonha, a obra nasce! É pura verdade!
Por vezes, pensamos que o sonho está mesmo ali ao nosso lado. E é o tempo que nos corrige a direcção. Só damos conta que nos enganamos quando o pretenso sonho se transforma em pesadelo.
Hoje é o primeiro dia do ano. De certo que todos sonhamos com um tempo novo, apesar dos presságios que nos cercam a nível da performance do país.
Mas devemos teimar em sonhar para que o mundo avance na direcção certa. E a vida de cada um de nós seja como a aragem de água fresca, de que se veste o sonho! 
Que 2012 cumpra todos os vossos sonhos e expetativas!

 Carlos da Gama

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Sonhar!


Um dia destes, encontrei o sonho, chegado de longe e carregando a saudade colada ao corpo. Disse-me, na hora, que morava num local encantador, donde partia o vento norte a percorrer mundo por dispersas aragens e paragens. 
Sentia-se bem acolhido por ali. Confessou-me que gostava de avistar as estrelas, sobretudo quando elas brilhavam deslumbrantes e algumas desapareciam em rastos de magia. E que voava para longe à conquista de amores fugazes, esvoaçando pela maresia da aventura e pelas palavras espalhadas em desejos proibidos.
Achava-se o centro do mundo. Na inocência de uma criança, ou na alma de um adulto, era sempre chamado a comandar as operações. Assumia-se como o sal da vida, porque sem ele tudo permanecia pasmado e numa sensaboria aborrecida.
O sonho tinha alguns amigos que estimava: o vento, o sol e o mar. 
De todos, o vento era o mais airoso, embora, por vezes, se mostrasse apressado e ruidoso, assustando tudo e todos por onde deambulava. 
Tinha momentos sem norte em que redemoinhava numa espécie de tontaria e assombro. 
Outras vezes, juntava-se com a chuva e exibia um comportamento irascível, levando o pânico à natureza confusa e derrubando tudo o que lhe surgisse pela frente.
Quando mais sereno, levava saudades em brisas de ternura para outras latitudes onde a emoção se espraiava. Era cúmplice de segredos guardados pela maresia. Sempre se soube que ajudava o sonho a concretizar secretas aventuras e encontros de amor.

O sol era, por temperamento, mais carinhoso e meigo. Nutria pelo sonho um calor especial. Sempre que surgia, mesmo após as noites frias de solidão, estendia os seus raios e pegava o sonho no seu colo. Apenas permitia ao vento a ousadia de soprar uma suave aragem quando o seu calor era em demasia.
Se a chuva chegava e o vento se lhe juntava, o sol desaparecia de mansinho e só regressava após os dois partirem para outras latitudes.
O sonho adorava o sol. Por este seu companheiro pintar a natureza com belas cores de primavera, que o faziam sonhar com maior intensidade. Quando permanecia mais tempo por ali, o sol espalhava ouro pelas searas de trigo e centeio, atraindo as aves para voos de liberdade, em pradarias sem fim.

Mas era o mar que o sonho mais procurava. Admirava-lhe a grandeza e o desassombro da vida que levava. Era o amigo mais corpulento e possante, por isso, abrigava-se nele sempre que podia. O sonho gostava de olhar o horizonte quando, pelo entardecer, o sol se preparava para se deitar nas águas do imenso lago.

Em momentos de maior cumplicidade, o sol observava o sonho a caminhar junto do espraiado, em silêncios perturbadores. Sabia que ele costumava andar por ali a dissecar a alma e a segregar as mágoas que as marés transportavam para longe. 
Pela calada da noite, o sonho refugiava-se na beira do mar, quer para desfrutar o seu cadenciado rugido, quer para apreciar a lua a vestir-se de águas de prata.
Aqueles eram os momentos em que se permitia fruir da sua vocação eterna: sonhar!

Fotografia:          Google Imagens

terça-feira, 24 de maio de 2011

A quimera do Tio Quico

 
O poema que mais inspirou a minha juventude, e que me fascinou até aos dias de hoje, é da autoria de António Gedeão e tem o título de «Pedra Filosofal».

Sempre que a nostalgia toma conta de mim e sinto a alma mais aprisionada pelos casos da vida, a leitura dessa epopeia literária ou a audição da musicalidade que lhe emprestou Manuel Freire, deixa-me com maior serenidade e renova-me a vontade de viver.

É impressionante como umas simples palavras, quando estruturadas em pensamentos de sonho, conseguem fazer-nos viajar do passado ao presente, na direcção do futuro. Este belo poema incute-me força de aventura e conduz-me para novos estádios de alma de que tanto estou precisado. Porque, julgo saber, o conceito de sonho traz a magia aconchegada em horizontes de liberdade!

É da natureza humana esta procura incessante pela quimera do sonho. E a vida sem este espaço de liberdade acaba por não ter qualquer sentido. Porque é lá que se pode encontrar a felicidade tão procurada pelo cidadão comum.
A frase cimeira do poema de Gedeão – «Eles não sabem, nem sonham, que o sonho comanda a vida!» – condensa, a meu ver, toda a mensagem de utopia que justifica a existência humana.

Ainda menino, assisti a um episódio fantástico que me encantou a ponto de o lembrar ao longo da vida. Após um dia de tempestade invernal, com chuva forte e abundante trovoada, uma descarga eléctrica atingiu um eucalipto de grande porte, deixando-lhe a ramagem completamente carbonizada.
Na época, acreditava-se que as faíscas ou relâmpagos eram compostos por um metal muito valioso e que quem o encontrasse ganharia um bom dinheiro. Nesse tempo era grande a escassez de recursos e inexistentes as oportunidades profissionais. As carências económicas manifestavam-se não só na precariedade das habitações como a nível da alimentação e vestuário. A pobreza extrema da grande maioria dos cidadãos era um terreno propício à fermentação de sonhos impossíveis.

O Tio Quico, homem simples e afável, que preencheu de afectos a minha infância, abeirou-se do local onde tinha caído o raio e começou a cavar um enorme buraco perseguido pela quimera do sonho. Cavou, cavou e cavou … até que a ausência de quaisquer vestígios, que lhe acrescentasse mais ânimo, o obrigou a desistir. Tanto esforço para nada! Foram muitas horas de expectativas sonhadas e de ilusões acalentadas.
A pouco e pouco, vi-lhe o brilho do olhar a apagar-se e a auto estima inicial a dar lugar a uma desilusão sofrida. Sei bem que, como diz o poeta, «o sonho comanda a vida!». E sei, também, que não existe dor maior que a de sentir os sonhos esboroarem-se.

Aquela jornada tinha sido levada a cabo com o mesmo espírito de aventura e de expectativas que veste o ânimo dos garimpeiros do nosso tempo. Pelo que deve ter sido muito duro para aquele homem ter desistido de concretizar as utopias. De qualquer modo, a vida do Tio Quico regressou à normalidade feita de pobreza conformada.
Mas tenho para mim que, apesar do resultado falhado, terá valido a pena o esforço. Porque foi construído num tempo de fermentação de expectativas sonhadas. E sonhar faz bem à alma. Nem que seja por tempo escasso e por causas impossíveis.

Carlos da Gama
                      Foto: Google Imagens