Mostrar mensagens com a etiqueta Familia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Familia. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Afectos de proximidade!


Um passeio pela praia, ao entardecer, é sempre um exercício de reflexão solitária. Os pensamentos voam como o vento que acaricia o rosto quente por um sol de estio. 
Pousamos o olhar no mar, até ao horizonte, e uma sensação de liberdade entra por nós adentro impelida por um desejo de correr de braços abertos para que a magia do momento se eternize.
Sentimos o mundo artificial bem afastado e esquecido e reconfortamo-nos em paisagens singulares, longe do quotidiano rotineiro. 
São momentos propícios a evocar episódios vividos com intensidade, há mais ou menos tempo. 
Sobretudo, quando o inesperado nos toma por inteiro e imprime marcas profundas e perenes na alma, fazendo a vida ganhar novo sentido.
Ora, o desaparecimento de um dos nossos familiares mais queridos, apesar de expectável pelo tempo vivido, é sempre um momento único de dor e angústia onde a racionalidade se perde num emaranhado de emoções difíceis de controlar.
Os primeiros tempos são de incompreensão sofrida pelo desenlace a que se segue uma contida raiva contra o destino comum, a começar pelos nossos maiores. Depois, o tempo encarrega-se de nivelar emoções e injectar doses de resignação, muitas vezes alojada em crenças num reencontro futuro.
Ruminava tudo isto, há momentos, durante a caminhada junto ao mar de Porto Covo, na companhia de um pôr-do-sol de cores quentes. Mas era a forma como cada um de nós se confronta e reage, perante a adversidade, que mais puxava a minha reflexão.
Diz-se, e eu acredito, que não há maior dor que o desaparecimento de um filho. Mas também asseguro que não há menos dor quando a nossa mãe decide partir em direcção ao infinito. Porque é a ela que lhe devemos a vida e a aprendizagem da ternura e dos afectos que nos qualificam como seres humanos.
Por isso, e não só, sempre pensei que um imprevisto desses funcionaria como cimento, ainda mais agregador, dos filhos, sobretudo quando, até aí, os humores de alguns nem sempre foram consequentes. 
Seria impensável, para mim, que uma tragédia daquelas originasse uma maior separação dos que, até então, estavam unidos, quer na amizade fraterna, quer na atenção com o ser que nos gerou.
A ser assim, quero acreditar tratar-se de um paradoxo do destino, de um absurdo, de uma nova provação, de um equívoco ou seja lá o que for. 
Não se compreende, de todo, a postura de negação que se sobrepõe à continuidade do espírito gregário que, indiscutivelmente, sempre foi o anseio do maravilhoso ser humano que nos deixou.

Ao longo da minha vida, aprendi que se leva anos para se construir confiança e apenas segundos para a destruir. 
Ainda assim, acredito que o tempo faz sempre o seu caminho, qualquer que seja a distância e a circunstância. Sobretudo quando estão em causa afectos de proximidade. Oxalá!

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Um refúgio de ternura!

Foi agradável o pequeno-grande convívio. Tinham passado vinte anos desde que se comemoraram as bodas de ouro sobre a união dos nossos afectos maiores, verdadeiras árvores da vida. 
Neste momento, de revivalismo emocional, já não estavam todos entre os conviventes. Alguns tinham partido sem alarido. O último a caminhar em direcção ao infinito foi o protagonista masculino desta história de vidas.
A árvore-mãe tinha requerido este momento para reviver emoções na companhia dos seus rebentos de maior proximidade. 
O filme da cerimónia, ali revisitado, despertou sentimentos fortes, revelados em silêncios cúmplices ou exaltações mais ou menos acaloradas. Mas tudo convergia na visão comparativa de contextos passados e dos jovens de hoje que, ao tempo, eram ainda meninos, quase todos prenhes de uma saudável rebeldia traquina.
Vinte anos passaram num ápice. Porém, as suas rotinas deixaram visíveis marcas nos convivas. 
Alguns, mais velhos, conseguem ainda disfarçar as rugas da inquietação ou a visão mais ou menos grisalha dos anos apressados. Outros vão acompanhando, sem qualquer melancolia, as mudanças que a natureza impõe. Porque é inexorável este triplo destino do nascer, permanecer e desaparecer. Um pensamento, mais elaborado, acrescentaria a essa trilogia o … «renascer»!
Estavam ali alguns dos ramos mais jovens de uma robusta árvore que, aos poucos, foi minguando nos convívios e dispersando os afectos por outras paragens. A vida de cada um, mais ou menos generosa, encarregou-se de traçar outros percursos com diferentes cruzamentos de emoções.
Mas, mais próximo das raízes, alguns rebentos teimam em permanecer em redor da árvore de ternura que foi, e continua a ser, a razão da existência de todos os ramos a que deu vida. E procuram rodeá-la dos carinhos necessários a contrariar a mancha de aridez que tem crescido ao seu redor.
Ainda bem que existem momentos assim: de um breve olhar, com matizes serenas, sobre o passado. Sem a intenção de acrescentar nostalgia a esta coexistência de vidas! Mas, quando estamos a reviver sensações, quer queiramos, quer não, faz-se presente uma mais que querida nostalgia. Sobretudo quando a árvore-mãe, apesar das andanças do tempo, continua a ser, ainda e sempre, um refúgio de ternura!

Fotografia:          Google Imagens

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Esperança

Gostei do último fim-de-semana. Foi agradável o convívio em Esposende, num dia com um típico clima equatorial. 
As conversas entre os convivas, alguns matando saudades de uma década de ausência física, fez com que o tempo passasse a correr. Sentia-se no ar uma alegria breve, feita de afectos e saudade. As luzes nocturnas da piscina, e toda a envolvência daquele lugar de sonho, emprestaram um ambiente de bem-estar e magia ao entardecer.
 
Uma vez mais se constata que, quando estamos predispostos, as emoções de proximidade ganham a importância merecida. 
E entrelaçam-se num convívio de palavras, memórias e afectos que ajudam a camuflar as incertezas do futuro.
Após um ano de rotinas e canseiras, o abraço de solidária familiaridade aproxima as pessoas e cria um clima cativo de emoções e de valorização do conceito de família. O resultado deste fim-de-semana traduz-se, precisamente, nisso: na constatação de que a família ganha importância quando os afectos se libertam de quaisquer preconceitos e mal-entendidos. E surge-nos como um dos refúgios mais sedutores nesta vivência colectiva feita de ausências e de inúteis querelas e canseiras.
A semana começa com uma chuva de verão. Um cenário equatorial, de chuva sacudida por ruidosas trovoadas, arrefece o calor dos últimos dias. Aos poucos, as pessoas iniciam o regresso das férias, com o terminar de um curto período de tempo em que são esquecidos os problemas da vida.
Daí que a aproximação do final deste período de descanso deixe, à alma de muitos, um leve sabor amargo de solitária inquietação, em face das incertezas dos tempos que se anunciam.
Mas, quase sempre, são estes os momentos em que se devem aproveitar os ventos favoráveis que surgem na vida de cada um. Na mesma onda a que referia Platão: "O que faz andar o barco não é a vela enfunada, mas o vento que não se vê".
Mais do que deixar que a sorte siga o seu caminho, há que enfrentar o regresso com aquele sentimento de que, por mais inquietantes que sejam os cenários, teremos sempre que alimentar a esperança em melhores dias. E, como reza o ditado, a esperança é o último sentimento a morrer!

                  Fotos: Google Imagens     

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Mulher-monumento !



Foto: Joana Carvalho


Lá estava ela, como sempre, caminhando devagar, cada vez mais curvada pelo destino, pelo passar dos anos e, sobretudo, pela canseira de toda uma vida. Se, até há pouco tempo, se esforçava por se endireitar, hoje já não justifica qualquer vontade de o fazer.
O seu olhar continua transparente e extremamente meigo. Mas parecia pedir desculpa ao mundo por estar naquele convívio que também lhe pertencia, por direito próprio. Era a festa de baptismo do seu bisneto Tiago, filho da Martinha, como, afectuosamente, gosta de a chamar.
Sempre prefere a companhia dos filhos de maior proximidade e afectos: a Tina e o Rui. E quando tal não é possível, já nada lhe corre de feição. É a este filho que dedica o maior carinho e deposita a esperança de resolução dos problemas que vão surgindo.
Se, por razões do destino, este lhe faltasse, nem que fosse por um breve tempo, a sua vida minguaria, por certo! Porque é no Rui que suporta a sua existência e partilha as alegrias e angústias.

Virgínia é o seu nome e eu tenho muito orgulho em tê-la como sogra. O seu fantástico exemplo de vida cedo despertou em mim um grande apreço, respeito e admiração. 

Um dia, já muito distante, chamei-lhe mulher-monumento! Talvez porque, já nessa altura, a considerasse merecedora de uma distinção douradora no tempo.
O termo «sogra» tem sido fortemente diabolizado nas sociedades ocidentais. Porque, normalmente, é associado a mulher rezinga, fofoqueira, inconveniente, inoportuna, demasiado omnipresente e interessada na vida privada dos filhos.
A mãe da minha companheira é, literalmente, o contrário de tudo isto. É meiga e afável, cautelosa na abordagem da vida dos filhos, preocupada com eventuais problemas, generosa quanto baste, feliz quando visitada, apesar de nostálgica pelo tempo que passa. Ao longo de quase três décadas de ligação à família, nunca lhe ouvi qualquer trejeito ou dissimulada crítica. Antes pelo contrário: a sua bonomia e serenidade denunciam e valorizam o prazer de nos ter junto dela.

Toda a sua vida foi uma constante luta pela garantia da sobrevivência do seu núcleo de afectos. A curvatura da sua coluna vertebral testemunha uma vida de sacrifício e de trabalho rude nos campos de Gemeses. Em terra de leiras generosas, pela proximidade do rio, a vida desta mulher foi de trabalho árduo de sol-a-sol e de afectos conquistados e distribuídos com o suor do seu esforço.
Após o seu casamento, favorecido pelos ares dos campos de Gemeses, foi percebendo que o companheiro, com quem escolheu partilhar a vida, apresentava uma crescente fragilidade física que o fazia mais de casa do que do mundo. Daí o ter-se convencido que teria de assumir o papel de timoneira do destino da prole que, ao longo dos anos, ambos foram gerando.
Por vezes, fico a pensar que mistério é este que leva as pessoas a optar por uma vida de extremo labor e sacrifício para que nada falte aos seus mais queridos. Que força é esta que não se extingue, qualquer que seja o esforço ou o tempo decorrido!
Numa sociedade que, cada vez com maior ênfase, baseia os seus valores no individualismo e egoísmo, este exemplo de vida é um farol de esperança em favor da humanidade. Mas, cada vez mais me convenço que as gentes do passado exibiam uma envergadura de maior entrega e generosidade pelos outros.

A minha sogra tem 86 anos. Vive numa casa confortável, com uma das melhores vistas de Gemeses. Da varanda, de generosas paisagens, o olhar estende-se pelo imenso descampado, que muda de cor à medida que as estações do ano se sucedem. Dali avista-se o serpentear do Rio Cávado, que empresta àquele local um bucolismo de sonho. 
Também ali se respira um ar puro de maresia pois o oceano, todos os dias, entra pelo rio dentro engrossando as suas águas para cumprir o ciclo das marés.
Desde há uns anos que a Senhora Virgínia foi reduzindo a actividade campestre, na exacta proporção do aumento da idade e da fragilidade do seu corpo.
O meu desejo é que o destino acrescente muitos mais anos à vida e, fundamentalmente, conceda mais vida aos anos daquela que um dia ousei chamar, com propriedade, «Mulher-monumento»!

Carlos da Gama
                           Fotos: Carlos da Gama

domingo, 3 de julho de 2011

Parabéns, Tiago!



Ontem foi dia de festa. Dia de se entrar na igreja e de ouvir as sábias palavras do padre ao receber o Tiago no templo de Deus.
Dia em que foi bom perceber as emoções dos pais do Tiago quando o padre referiu que ele estava ali para nascer de novo, tornando-se num membro da igreja cristã.
Mas, também, o dia de ontem foi um tempo de encontros, sorrisos e convívio. De início, o encontro foi concentrado na principal razão do mesmo: o baptismo do Tiago.
Mas, rapidamente, o olhar e a atenção fixam-se nos convivadados e nos contextos em que se apresentam. Reparamos, por vezes, se a cor da pele dos convivas denuncia a estada mais próxima do mar ou o pálido das rotinas de sempre. Comentamos se o tempo deixa, ou não, marcas nos amigos que não vemos há mais tempo. Falamos dos assuntos do dia, das mudanças deste ou daquele protagonista social ou político, das medidas do governo para fazer face à crise, da situação do país … onde sempre um desabafo é atirado para o meio das palavras: «na Grécia as coisas estão bem piores!».
Nós, portugueses, temos esta fantástica tendência para aliviar as dores dos dramas que nos esmagam a vida: sempre nos refugiamos num eterno «podia ser pior!».
É, talvez, este pendão fatalista do destino lusitano, ou a eterna esperança sebastianista de que estamos impregnados, que nos deixa conformados com tudo e todos. Sempre acreditamos que, mais tarde que cedo, surgirá um «salvador», nem que seja por entre as brumas de uma manhã de nevoeiro.

Mas …, regressemos ao início da viagem. Falava sobre as festas familiares que se consubstanciam em encontros dos que um dia se decidiram por um percurso comum. No entanto, seja qual for a razão subjacente ao encontro de famílias e amigos, as festas são sempre dos convivas e quase nunca dos protagonistas.
Desta vez foi o Tiago, o primeiro rebento da Marta e do Carlos, a promover este convívio. A festa foi linda. Coube-me o privilégio de fazer uma leitura dos livros sagrados, a pedido do padre. O que fiz com muito gosto.
Mas a impressão mais viva, que retenho, é a do contentamento dos dois jovens pais, por terem gerado um belo rapaz, de sorriso iluminado, sossegado o suficiente quando satisfeitas as suas reivindicações e promotor de uma felicidade sem fim, denunciada pelos sorrisos dos avós e familiares mais próximos.

Por natureza, ou por razões de destino, não sou adepto de encontros festivos em grande escala. No entanto, foi com prazer que participei nesta cerimónia festiva de grande cariz familiar. Porque, por um lado, estava acompanhado do meu núcleo de afectos e, por outro, ela cruza-se com o meu percurso de vida e desperta emoções de profunda saudade.
Olho para trás e vejo que o tempo passou por mim, apressado! Acho que foi apenas há momentos que acompanhei os avós do Tiago ao baptistério de Gemeses, para assumir o papel de principal testemunha do baptismo da recém-nascida, Marta Susana. Lembro bem que essa cerimónia religiosa contou com gente dos nossos afectos que, entretanto, partiram, fixando-se na mais viva memória das nossas vidas.

O tempo, esta perturbadora inquietação, é como a água de uma fonte que jorra, dia e noite, sem parar. Só quando a sede nos obriga a aproximarmo-nos dela é que percebemos, por instantes, que aquelas águas que sorvemos são apenas um resquício do imenso lago onde se encontram os nossos mais queridos.
Durante a vida, só por instantes damos conta do tempo que passa. Vivemos comprimidos pelas margens das rotinas do dia-a-dia sem repararmos que o rio cumpre o seu inexorável destino de conduzir as águas para o mar. Daí que necessitemos, de quando em vez, de despertar os afectos de proximidade. Como ontem aconteceu!
Parabéns Tiago, pelo teu baptismo e por fazeres parte de nós. Desejo que a tua vida tenha um percurso feliz!

Carlos da Gama
                           Fotos: Google Imagens

terça-feira, 31 de maio de 2011

Memória viva …


Já lá vão alguns longos anos que o Tio Quico nos deixou. Partiu, como viveu: de mansinho, sem fazer alarido e com a humildade que sempre o caracterizou.
Ficou só a saudade pendurada na memória dos conviventes de afectos mais chegados.
E a imagem de um homem forte na estrutura física mas fragilizado pela chiadeira de uma bronquite crónica que lhe exigia um esforço acrescido na respiração de todos os momentos.
Mesmo assim, o prazer do tabaco acompanhou-o toda a vida!
O Tio Quico é um personagem importante nos primeiros anos da minha vida, mais concretamente, na infância, numa época em que faltava quase tudo a nível económico e social. Mas um tempo feliz!
Na altura, a sociedade não usufruía da tecnologia que os tempos modernos dispõem de sobra. A televisão não tinha, ainda, chegado à terra do meu nascimento e a radiotelefonia era um luxo só de alguns mais «abastados».
Aquele homem povoou a minha infância de sonhos, quando juntava os sobrinhos e os conduzia para brincadeiras infantis, contava-lhes histórias de encantar ou os fazia sentirem-se actores em cenas da vida do campo que, com bonomia, os incitava a teatralizar. Saudades do Tio Quico!
Lembro bem da satisfação que sentia quando o acompanhava na caça aos pássaros em que utilizava uma fisga que ele próprio manufacturava. E não esqueço a sua impressionante pontaria, qualquer que fosse a distância do alvo. O meu papel, nesse registo, era, tão só, o de colocar uma corda na cintura para poder pendurar a caça, à semelhança do que os caçadores profissionais faziam com coelhos ou perdizes. Sempre aquela corda beneficiou da excelente mira do Tio Quico!
Depois, rumávamos para uma fonte, de abundantes e cristalinas águas, para iniciar a liturgia de depenar os pássaros, de os abrir com mestria para os limpar por dentro e de os colocar, com um pouco de sal e azeite, numa folha de couve em cima dum generoso braseiro que, entretanto, a minha mãe tinha adiantado. Passados escassos minutos, saboreávamos um suculento pitéu cujo paladar perdura na minha mais viva memória da infância.
Tudo isto emprestava à vida um encanto que as novas gerações dificilmente conseguem valorizar. A ausência de televisão, por exemplo, enchia as noites e os serões de um convívio partilhado de emoções que cimentava fortemente as relações familiares.
Lembro bem de perceber, ainda de tenra idade, a animação que as novelas transmitidas pela rádio provocavam nas pessoas que se juntavam à volta de uma dessas novidades. E a satisfação como depois se comentava o enredo dos episódios ouvidos com respeitosa atenção.
Mais tarde, foram as telenovelas a juntar as pessoas em frente do pequeno ecrã da televisão com a mesma magia de descoberta. Porque, enquanto se assiste ao desenrolar de histórias, mais ou menos bem contadas, a vida esquece as rotinas do dia-a-dia e, não raras vezes, sente-se a ilusão de se fazer parte do enredo, como se aquela fosse também a nossa história de vida.
Tenho para mim que as telenovelas têm efeitos extraordinariamente benéficos para a saúde psíquica de muitos e atenua a dor de uma das principais pechas sociais da actualidade: a solidão.
Que seria da vida de grande parte dos idosos do nosso país se não fosse o entretenimento que as telenovelas proporcionam? Que sonhos de vida seriam necessários para completar de magia o espaço que uma história bem animada preenche na vida dos nossos mais velhos?
A vida, todas as vidas são feitas de encontros e desencontros. Mas o que fica é a memória do que fomos e somos nesta caminhada de ignorados destinos. E é à boleia dos afectos recebidos num tempo precioso do meu percurso que aqui deixo fragmentos da minha memória viva!

Carlos da Gama
                      Fotos: Google Imagens

terça-feira, 24 de maio de 2011

A quimera do Tio Quico

 
O poema que mais inspirou a minha juventude, e que me fascinou até aos dias de hoje, é da autoria de António Gedeão e tem o título de «Pedra Filosofal».

Sempre que a nostalgia toma conta de mim e sinto a alma mais aprisionada pelos casos da vida, a leitura dessa epopeia literária ou a audição da musicalidade que lhe emprestou Manuel Freire, deixa-me com maior serenidade e renova-me a vontade de viver.

É impressionante como umas simples palavras, quando estruturadas em pensamentos de sonho, conseguem fazer-nos viajar do passado ao presente, na direcção do futuro. Este belo poema incute-me força de aventura e conduz-me para novos estádios de alma de que tanto estou precisado. Porque, julgo saber, o conceito de sonho traz a magia aconchegada em horizontes de liberdade!

É da natureza humana esta procura incessante pela quimera do sonho. E a vida sem este espaço de liberdade acaba por não ter qualquer sentido. Porque é lá que se pode encontrar a felicidade tão procurada pelo cidadão comum.
A frase cimeira do poema de Gedeão – «Eles não sabem, nem sonham, que o sonho comanda a vida!» – condensa, a meu ver, toda a mensagem de utopia que justifica a existência humana.

Ainda menino, assisti a um episódio fantástico que me encantou a ponto de o lembrar ao longo da vida. Após um dia de tempestade invernal, com chuva forte e abundante trovoada, uma descarga eléctrica atingiu um eucalipto de grande porte, deixando-lhe a ramagem completamente carbonizada.
Na época, acreditava-se que as faíscas ou relâmpagos eram compostos por um metal muito valioso e que quem o encontrasse ganharia um bom dinheiro. Nesse tempo era grande a escassez de recursos e inexistentes as oportunidades profissionais. As carências económicas manifestavam-se não só na precariedade das habitações como a nível da alimentação e vestuário. A pobreza extrema da grande maioria dos cidadãos era um terreno propício à fermentação de sonhos impossíveis.

O Tio Quico, homem simples e afável, que preencheu de afectos a minha infância, abeirou-se do local onde tinha caído o raio e começou a cavar um enorme buraco perseguido pela quimera do sonho. Cavou, cavou e cavou … até que a ausência de quaisquer vestígios, que lhe acrescentasse mais ânimo, o obrigou a desistir. Tanto esforço para nada! Foram muitas horas de expectativas sonhadas e de ilusões acalentadas.
A pouco e pouco, vi-lhe o brilho do olhar a apagar-se e a auto estima inicial a dar lugar a uma desilusão sofrida. Sei bem que, como diz o poeta, «o sonho comanda a vida!». E sei, também, que não existe dor maior que a de sentir os sonhos esboroarem-se.

Aquela jornada tinha sido levada a cabo com o mesmo espírito de aventura e de expectativas que veste o ânimo dos garimpeiros do nosso tempo. Pelo que deve ter sido muito duro para aquele homem ter desistido de concretizar as utopias. De qualquer modo, a vida do Tio Quico regressou à normalidade feita de pobreza conformada.
Mas tenho para mim que, apesar do resultado falhado, terá valido a pena o esforço. Porque foi construído num tempo de fermentação de expectativas sonhadas. E sonhar faz bem à alma. Nem que seja por tempo escasso e por causas impossíveis.

Carlos da Gama
                      Foto: Google Imagens

domingo, 15 de maio de 2011

Carta de navegação

Estava ali, de fato negro, camisa escura e gravata branca. As mesmas cores do curso que tinha escolhido frequentar na Universidade.
O cerimonial assim o exigia e ele tinha aceitado aquela indumentária. Que era contrária à que sempre usou. Talvez porque compreendeu que este seria o início de um novo ciclo da sua vida.
A festa foi bonita. Apesar de, aqui e ali, os discursos repetitivos ameaçarem de alguma monotonia a tarde alongada. Mas, no conjunto, esteve bem.
«Recebeis, hoje, a vossa carta de navegação!». Foi assim que a «Magnifica» Reitora da Universidade definiu o momento. Eram também para o Carlos Eduardo aquelas palavras. Ali estava, com garbo e visível orgulho, a receber a sua «carta de navegação», o diploma por que tanto se tinha esforçado!
Vi-lhe o rosto iluminado de felicidade no momento que foi chamado ao palco para receber o «canudo» de mestre em arquitectura. Aquela manifestação  de orgulho estampado na alma, pareceu-me ser a mesma sensação de um alpinista que atinge o cume da montanha e se prepara para olhar o horizonte a perder de vista. Num cenário difícil mas não impossível. O mais importante tinha sido a chegada ao cume.
Um turbilhão de emoções tomou conta de mim no preciso momento em que o meu filho recebeu o diploma. Que eu espero constitua a sua verdadeira «carta de alforria».

Senti um indisfarçável orgulho por ver ali o Carlos Eduardo que acompanhei, desde o nascimento, com muito amor. Um sentimento de enorme serenidade e conforto invadiu-me a alma. Fiquei feliz por lhe ver no olhar o brilho de felicidade. Porque, também para mim, aquele era um momento especial muito desejado. E ele sabe bem disso!
Por vezes, exteriorizamos mal as emoções que se soltam de nós. Sobretudo quando elas são feitas de nostalgia e de liberdade! Por vezes, falamos diferente do que sentimos. Por vezes… Mas é sempre no mar de afectos que recolhemos o melhor da vida e que nos encontramos. É no oceano de emoções que navegamos sempre. Sempre!
Parabéns Carlos Eduardo. Que a vida te abençoe. Que sejas feliz. Tu mereces!
  Carlos da Gama
                      Foto: Google Imagens