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terça-feira, 21 de julho de 2015

Semear emoções

Já faz algum tempo que deixei de semear emoções por aqui. Vicissitudes desta vida, cheia de mistérios, acomodaram-me a um canto da saudade no propósito de cicatrizar feridas abertas pela ausência do ser que me inspirou toda a vida.
Optei pela quietude dos dias, viajando para lugares longínquos como que procurando respostas que, apesar da obstinação, não consegui descortinar. Hoje, mais que nunca, questiono o sentido da vida quando, de repente, me deparo com a ausência definitiva do rosto, da voz, do olhar, do aconchego e da ternura do ser humano mais presente em todas as fases da minha existência.
São estranhos e insondáveis os caminhos da perda e do luto. Mas chegou o tempo de seguir em frente e de regressar a uma atmosfera mais livre de nostalgias e menos fixado em melancolias estéreis. Na certeza de que viver a vida é preservar o que de melhor nos foi legado e abrigar as recordações dos que nos precederam na caminhada de afectos de que se faz o dia-a-dia. 
Ou seja: honrar a memória dos que partilharam ou continuam a partilhar a história de cada um de nós. Por isso, retorno a este meu repositório de emoções!

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Eusébio




Um nome grande do meu país. 
Uma referência de humildade, de disciplina, de abnegação e de heroísmo.
Lembro que despertei para a vida com o nome de Eusébio na boca do mundo. 
Não sendo um especial aficionado do futebol, a primeira vez que entrei num estádio (da Académica) foi, propositadamente, para o ver.
Portugal foi maior com este homem que hoje nos deixa. 
Que descanse em paz!

quarta-feira, 6 de junho de 2012


 
"Com esta escrita descobri uma coisa em que nunca tinha pensado, é que o bem mais precioso do homem é a memória."
 José Cardoso Pires

sexta-feira, 18 de maio de 2012

«Há fogo em Laúndos!»



O percurso matinal de hoje pela marginal, num esforço saudável do lento pedalar, foi aquecido pelo sol que mantém um verão teimosamente acolhedor.
A descoberta da parte mais antiga de Aver-o-Mar é surpreendente. As praias desertas de veraneantes são vigiadas pelos velhos que parecem olhar o mar com a nostalgia e saudade. Enquanto que as gaivotas se juntam numa irmandade aguardando o momento certo para se fazerem ao mar. 

O monte de Laúndos lá continua sobranceiro sobre toda esta rica região da Póvoa. É um local ermo de romaria, onde um filho da terra, que fez fortuna no Brasil, investiu a sua fé no embelezamento do santuário.

Mas é, também, uma das mais temerosas memórias de infância da minha companheira de afetos: o avistamento de fumo no monte de Laúndos.
Recordações de medo que o fogo de longe pudesse percorrer a distância de mais de vinte léguas e atingir a terra da Senhora do Lago, onde residira até à idade adulta.

Como ícone de memórias de infância, pelo ateamento de fogo que se anunciava ao longe, é também o local de memórias de picnics familiares e de esperanças de novos rebentos que dariam continuidade ao ADN coletivo.
A partir dessas felizes memórias de afetos, deixou de haver «fogo em Laúndos»!
Carlos da Gama

 Imagem do Google

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Por sobre as águas!

                                                                                                                                                                                                                                                      Foto: Carlos Carvalho        



Já tinha uns dez anos quando olhei o mar pela primeira vez. Não o tinha, até então, ainda gravado na memória de afetos. Talvez pelo facto de nesses tempos recuados o mar não possuir o fascínio que à época me inspirou.
Lembro bem, foi para os lados de Vila do Conde, mais precisamente, na praia de Azurara, junto à foz do Ave, que o mar se recolheu na minha alma.
Retenho, bem presente, o intenso cheiro da maresia que, então, o oceano exalava. E a magia dos sons das ondas que se espraiavam em abundante espuma branca. Esse deslumbramento permanece em mim, apesar da fluidez do tempo.
Eram felizes os dias passados no colégio em época de veraneio. A noite era dominada pela ansiedade da espera da partida para Azurara. Ali chegados, era um «ver se te avias» para mais rapidamente chegar junto do mar. E para ali ficava deslumbrado pela grandeza do oceano e fascinado pela gigantesca energia que exibia. Gostava de permanecer junto dos pescadores e admirava a facilidade com que os peixes eram enganados com os iscos atirados para as águas inquietas pelo encontro do rio com o mar.
Foi na foz do Rio Ave que nadei pela primeira vez num inusitado atrevimento de passagem para a outra margem. Ainda hoje sinto a vertigem do terror que se apoderou de mim quando tive que batalhar com pés e mãos para me aproximar de terra firme. Esta leviana aventura, que poderia ter desaguado num destino fatal, acabou por se transformar numa conquista de futuro. Porque foi a partir daí que passei a fruir de um dos meus maiores prazeres: a liberdade de andar por sobre as águas!

   Carlos da Gama

sábado, 17 de dezembro de 2011

Magia do pão-trigo

 
A Cáritas é uma organização não governamental, pertencente à Igreja, criada com objectivos eminentemente pastorais em meados da década de cinquenta do século XX. 
As suas primeiras actividades centraram-se, fundamentalmente, na distribuição de géneros alimentares pela população portuguesa naquele tempo de penúria que se seguiu à segunda guerra mundial.
Nos nossos dias, as Cáritas Diocesanas têm plena autonomia e personalidade jurídica própria com exclusiva dependência do bispo da respectiva diocese. 
E a Caritas Portuguesa é membro da Caritas Internacional, que é a confederação de 165 organizações católicas de ajuda, de desenvolvimento e de serviço social de todo o mundo.
Foto: Google Imagens 

Nos tempos recuados da minha infância, lembro bem da acção da Caritas nas aldeias do meu país, um dos mais pobres da Europa Ocidental.
Ainda hoje delicio-me a cheirar o pão-trigo, com retardo de um ou dois dias, num ritual que me inspira essa época de sonhos e afetos.
Recordo bem que, todas as manhãs, antes da abertura da escola primária, as crianças dirigiam-se à Quinta do Sr. Faria para ali beber leite em cocas de latão, acompanhado com um pão com queijo ou marmelada. 
Todos aqueles produtos eram fornecidos pela Caritas a uma das famílias mais abastadas da minha aldeia com a responsabilidade de os redistribuir pelas crianças em idade escolar.
Aquele cheiro do pão já recesso ficou impregnado na minha memória de afetos. A ponto de, ainda hoje, sentir prazer em abrir o pão trigo e aspirar aquele mágico odor que me conduz, de imediato, àquele tempo feliz que foi a minha infância.
Este hábito de abrir o pão-trigo e de aspirar o odor que exala, tem sido demasiado notado pelos meus mais próximos conviventes que sempre me questionam a razão daquele ritual. 
Mas é um impulso irresistível esta forma de reviver uma época que, apesar de difícil, evoca emoções que ficaram impregnadas na parte mais feliz da minha memória de vida.

Sempre gostamos de regressar às origens, mesmo que seja através da memória dos sentidos. Mas não gostaria que este meu país voltasse a precisar da ajuda desta Organização na alimentação saudável das crianças com a abrangência que tinha à época. 
Porque isso representaria um regresso ao indesejável limiar da pobreza.
Apesar de tudo, sinto prazer na descoberta de memórias da minha infância quando o sentido do olfacto desperta na magia do pão-trigo.

  Carlos da Gama

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

O lenho do Natal!

  
Foto: Google Imagens 



Nestes dias, frios de Dezembro, respira-se um perfume de festa da ternura, que é o Natal. 
Apesar dos tempos de crise económica, financeira e social, os rostos brilham um pouco mais e sempre se procura ter por perto os afetos de proximidade.
Este é, também, um tempo de memórias. 
Em que gosto de recordar o Natal da minha infância, envolto numa aura mágica que, ainda hoje, me incute saudades.
Cinquenta anos constituem um espaço temporal que faz toda a diferença. Nesses tempos recuados da nossa memória, a televisão era um luxo de poucos, a rádio constituía um acesso de alguns e o telefone resumia-se em ser uma miragem para a grande maioria. Coisas tão vulgarizadas no mundo dos nossos dias!

Porque vivia na idade da infância, a noite de Natal tinha outra ternura. O centro do convívio era a lareira, alimentada com os melhores cabeços das velhas oliveiras ou possantes carvalhos, previamente cortados para a ocasião. 
Após o repasto das batatas e do bacalhau, regados com o vinho dos pipos, abertos no momento, a conversa alongava-se pela noite dentro, enquanto se assavam as «maçãs da porta da loja» que alguns, mais audazes, introduziam nas aquecidas malgas de tinto.
Lembro bem que os mais novos jogavam ao «rapa, tira, põe e deixa» com os pinhões, recolhidos das pinhas mansas que o braseiro tinha já desflorado com a força do calor.
Todos aguardavam a chegada da meia-noite, hora a que, supostamente, o Pai Natal desceria pela chaminé para deixar as prendas nas botas cuidadosamente arrumadas por ali. A confiança era tanta que, numa noite de Natal, um dos meus irmãos teimou, convictamente, que tinha visto a perna do Pai Natal a subir pela chaminé acima.
Recordo, também, a minha perplexidade perante o critério daquele velho de barbas brancas na distribuição das prendas. Porque não conseguia entender o facto de, ano após ano, serem beneficiados os meninos pertencentes às famílias mais abastadas. 

Apesar da extraordinária mudança, nas últimas décadas, a nível das condições económicas e sociais, nada é comparável ao fogo de emoções que me incutia o lenho do Natal!
  Carlos da Gama

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Chegar, estar e partir!


                                                                                                                                                                              Foto: Google Imagens        
                                                                 


Ao alongar o olhar, no conforto da vidraça do meu gabinete, concentro-me nas árvores despidas no frio invernoso que confirma o mês de Dezembro.
E interrogo-me da razão deste aparente paradoxo. Então, não seria mais óbvio que, tal como fazem os humanos, as plantas reforçassem a sua protecção com mais pétalas e ramagens?
Esta contradição, que mais parece um sacrifício oferecido aos deuses, deixa-me perplexo.
Uns alvitram que, dessa forma, a natureza evita o Inverno partindo para uma hibernação de três meses. Ou seja, viaja para um contexto de penumbra e esquecimento de forma a não sentir os rigores gélidos dos dias longos de escassa luz. Desaparece, dizem, por uns tempos, para emergir em apoteose logo que os primeiros afagos da Primavera se fizerem pressentir.

Vivi, durante alguns anos da minha adolescência, num colégio religioso que ficava para os lados do Porto. Defronte ao Colégio situava-se um lar de idosos de pessoas abastadas, quase todas ligadas à área do comércio. Gostava de o visitar amiúde, pela exuberância da flora que aquele enorme recinto exibia e pelo contexto acolhedor que a casa de repouso oferecia.
Lembro bem da mobilidade fácil e dos sorrisos dos velhos, que ali passavam o resto da sua vida, quando o tempo estava de feição. Mas, também, retenho, na inquieta memória, que o Inverno tinha o condão de aproximar a morte dos mais frágeis. Quase diariamente testemunhava a partida de mais um residente daquele paraíso. O número de partidas era tremendo nos meses em que a natureza se lançava nos braços da hibernação.

É fácil conformarmo-nos com a tese de que está a ser cumprida a lei da vida, que se manifesta no ciclo de chegar, estar e partir! O corpo lá se vai resignando com a perda de vigor pela passagem dos anos. E o espírito acomoda-se, de igual forma, a este ciclo da vida humana que muito se assemelha às estações do ano.
Uma das teses de promoção da saúde mais propaladas nos últimos tempos é a de que importa dar mais vida aos anos do que mais anos à vida. Ou seja, o importante é a forma como vivemos e não o tempo que vivemos. Na certeza de que este intervalo da nossa existência, que chamamos de vida, resume-se a este fantástico ciclo de chegar, estar e partir!

  Carlos da Gama

domingo, 11 de dezembro de 2011

É aqui!


 
Lamas de Mouro, outrora uma freguesia cheia de gente, está quase deserta. Soube que permanecem, por ali, cerca de vinte residentes. 
Grande parte dos nascidos naquelas terras de montanha, ou partiram para outras paragens, ou preferiram abraçar o sono da eternidade. 
A montanha é de uma beleza sem par. Mas só com muito esforço se consegue obter o sustento. Por isso, no passado, algumas famílias mudaram-se para Braga, onde passaram a residir e, quase todos, a prosperar. A maioria abalou para o Canadá, EUA ou o centro da Europa.

Estive aqui, pela primeira vez, há cerca de 31 anos, na semana fatídica da tentativa de resgate dos reféns norte-americanos no Irão, pela fracassada Operação «Eagle Claw» no dia 24 de Abril de 1980.
Foi, também esse, um tempo de incerteza para o mundo e de profundas alterações estratégicas na geopolítica dos Estados Unidos da América. 
Foi uma semana de sonho que passei, com os meus principais afectos, acampado nas Veigas de Lamas de Mouro, junto da Casa Abrigo que ainda hoje repousa por ali.

Parece que foi apenas ontem que visitei esta parte nobre do Parque Nacional de Peneda-Gerês. O tempo, por aqui, é eterno e permanente!
Ainda ali está a relva onde colocamos a tenda, de feitio índio, tendo como cenário gigantescas árvores de cúpula verde azeitona. 
Ainda corre a água límpida e gélida no riacho que lhe está de frente. Continuam puros os ares desta montanha acolhedora. Apenas não podemos acender as fogueiras com a liberdade do passado.
Os cavalos selvagens continuam a anunciar-se pelas veigas. Passa uma viatura de longe a longe. O silêncio é perfeito, porque cheio de sons que a natureza acomoda. O paraíso existe, de facto: é aqui!

  Carlos da Gama

                  Fotos: Google Imagens     

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Ironias do destino!




Tive o prazer de falar, um destes dias, com um velho amigo.
Conheci o Francisco quando eu vivia ainda o tempo de infância, sendo ele já um jovem adulto. 
Nascido num contexto de extrema pobreza, como a maioria das pessoas da sua aldeia, cedo se iniciou, na labuta pelo sustento, no duro trabalho do amanho do granito das pedreiras que cercavam o povoado. Mas, já há alguns anos que vive duma generosa aposentação resultante do trabalho, de cerca de três décadas, na Alemanha, para onde se viu forçado a emigrar nos difíceis tempos da ditadura.
O nosso encontro escorregou para uma conversa de memórias sobre o seu percurso de vida, tendo-me confidenciado alguns trechos, uns, mais divertidos, outros, nem tanto assim. Mas o que mais me perturbou e enterneceu foi o relato de quando ousou, em tempo de penúria, realizar o sonho de ter uma casa, apesar de não dispor de quaisquer possibilidades financeiras.

Era o tempo em que quase todos dependiam do trabalho nas terras dos proprietários. Outros, como ele, trabalhavam de noite numa indústria têxtil e, na parte da manhã, acumulava o esforço de ganha-pão numa pedreira dos montes da aldeia. Após o casamento com a mulher da sua vida, ficou a viver no mísero casebre que era habitado pelos seus progenitores. 
Sonhando com uma casinha que lhe desse maior privacidade conjugal e conforto, encheu-se de coragem e abeirou-se de um dos detentores de terras da aldeia para lhe mendigar um pouco de terra.

Perante o inusitado pedido, o latifundiário olhou-o de soslaio e retorquiu-lhe: - «Mas tu nem tens dinheiro para um saco de cimento, que fará para construir uma casa!». Ao que lhe respondeu que a família ajudaria no início da construção e que ele próprio se encarregaria de, a pouco e pouco, ir beneficiando a casa «de forma a não parecer mal!».
Com um sorriso sinistro, o Senhor do Souto, apontando para um morro, de sua propriedade, que ficava próximo, resmungou-lhe, sarcástico: - «Então, se assim é, pega em dois sacos e podes enchê-los com a terra que precisares!». 

Estas palavras, inundadas de hipocrisia e despidas de qualquer compaixão, doeram-lhe como se de um murro no estômago se tratasse. Sentiu o sabor amargo da impotência em poder, naquele preciso momento, responder àquela provocação. Mas a prudência falou mais forte e o meu velho amigo preferiu calar o insulto e afastar-se com a alma trespassada de raiva por aquele desprezível ser humano. 

Mas, como reza o ditado popular, «não há mal que sempre dure nem bem que não se acabe». 
E, passados uns anos, foi com pesar que assistiu ao declínio físico e psíquico do Senhor do Souto, que, no fim da vida, foi abandonado pelos filhos e por todos os que no passado lhe eram fiéis por obrigação. 
Enquanto que o Francisco emigrou para a Alemanha, onde nasceram os seus filhos. 
Na sua aldeia natal, adquiriu uma propriedade onde construiu a casa dos seus sonhos. Vive, hoje, respeitado pelos vizinhos e rodeado dos afectos de ternura que lhe chegam dos seus sete filhos.
Ironias do destino!

                  Fotos:         Carlos  da  Gama

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Um lugar tão especial!




Voltei, de novo, ao Baleal, pequena ilha situada ao norte de Peniche, para matar saudades de uns anos de ausência. Na última visita, efectuada àquele paraíso de abundantes ares marítimos, o meu cardume ainda pertencia ao infantado, fase da vida onde tudo é descomprometimento e descoberta.
Lembro bem as noites daquela instância de sonho onde, pelo entardecer, uns corpulentos insectos, de penugem loiro-avermelhada, nos visitavam em alvoroço. Ainda hoje lembramos a exuberância do Baleal naquela época e contexto, sempre recordando as aladas visitas.
É verdadeiramente surpreendente o sentimento de bem-estar que aquelas paragens incutem aos visitantes. Não admira, pois, que o escritor, Raul Brandão, tenha deixado, nos seus escritos, que aquela era «a mais linda praia de Portugal!».
Apesar de um pouco desleixada, pelo lixo que, aqui e ali, se espalha pelos cantos, a mistura dos cheiros de mar e da confecção de típicas iguarias gastronómicas nos seus inúmeros restaurantes, incutem ao visitante o sentimento ímpar de frugalidade e de acolhimento. 

A visão que ali se alcança, com o mar a preencher a paisagem, mais ao longe, bordada pelo casario de Peniche, prende-nos a alma por um tempo de pressas ausentes.
Apetece permanecer perdido na admiração dos rochedos que protegem a pacata «ilha», de ousada beleza e de finas areias brancas que fogem do alcance da nossa vista.
Na degustação de memórias vivas, vale a pena pedalar os cerca de 3500 metros de passeio, ladeado por generosas dunas, sentindo a brisa no rosto e os sonhos repousados na natureza em redor. 
E, ao final do dia, fruir de um pôr-do-sol de horizontes atlânticos, com as Berlengas, fundeadas ao longe, dando mais encanto ao sabor da maresia.
Ao partir do Baleal, somos invadidos por um sentimento de nostalgia e saudade. E pela certeza de, em breve, regressar a esta visão inspiradora de um lugar tão especial!

                  Fotos:         Carlos  da  Gama

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Teias que a marginalidade tece

Frequentava, na época, a Universidade do Porto. Não fui aluno residente. Beneficiava da simpatia de algumas amiguinhas que me disponibilizavam os «apontamentos» das aulas que não podia participar. Só dessa forma conseguia frequentar a Universidade e, em simultâneo, desenvolver uma actividade profissional.
Um dia, pelo entardecer, seguia, solitário, por uma das ruas da zona dos Clérigos. Em certo momento, deparo com três jovens adultos que, ainda distantes, caminhavam na direcção contrária à minha. Um deles, abandonando o grupo, dirigiu-se-me, de braços abertos. Parei, surpreso, enquanto sentia o abraço inusitado do inesperado cavalheiro. Fiz um esforço de memória para o procurar nas minhas andanças de vida, mas nenhum estímulo despertou qualquer sinal.
O indivíduo, com uma conversa sedutora, determinada e afirmativa, foi-me confundindo com uma catadupa de questões sobre por onde tinha deambulado a minha vida. E, de quando em vez, intervalava a conversa com a repetida questão «Então, não me conhece, pá?».
Ora, a vivência dos meus 22 anos não permitia sonegar, àquela criatura, um diálogo que permitisse estabelecer o elo de ligação que me era sugerido. Pelo que caí na armadilha de antecipar os contextos por onde se fez o meu percurso de vida, a que o meu interlocutor sempre reafirmava ter estado, também, por ali. Acreditei, assim, que tinha sido meu colega no liceu e na vida militar, daí ter-me reconhecido.

Para comemorar o «reencontro», convidou-me, logo de seguida, a tomar «um copo» numa tasca que ficava no fim da rua. A taberna, velha de décadas, estava povoada por um pequeno grupo de enrugados velhinhos que saboreavam umas «malguinhas» de tinto, acompanhado de uns cigarros baratos e catarreiros. O meu «amigo» de ocasião requereu duas malgas, imediatamente após se ter dirigido à pequena e curiosa plateia com um afectuoso: «- são servidos?».
A conversa foi-se desenrolando à volta da vida daquele auto intitulado «futebolista do Penafiel» que gostava de ajudar os amigos, quer fosse mediante a disponibilidade do seu apartamento (sempre que, por razões académicas, necessitasse de ficar no Porto!), quer com dinheiro que, «graças a Deus, tinha de sobra».

Essa pequena nuance do discurso despertou-me uma crescente curiosidade sobre aquela patética figura e, aos poucos, fui-me apercebendo de que estava perante um farsante à caça de incautos. O sinal mais forte da minha desconfiança, foi a insolente insistência em emprestar-me dinheiro e a mal disfarçada tentativa em «segurar» a minha carteira, momentos antes de a tirar do bolso para pagar a conta.

Mas todas as dúvidas se dissiparam perante a inusitada e rápida alteração do discurso, revelada pelo insólito e descarado pedido para que lhe emprestasse «quinhentos escudos».
Foi ali mesmo que desmascarei aquele velhaco, provocando olhares curiosos e atónitos por parte dos presentes. Para além de lhe reafirmar, com arrojo, que ainda não tinha conseguido divisá-lo na minha vida, berrei-lhe que a conversa palavrosa em que me tentava enrolar já me cansava e que tudo terminaria por ali.

Quer a visível irritação daquele farsante, quer a repentina memória dos seus restantes companheiros, turvou a coragem de enfrentá-lo com maior ousadia, pelo que corri, apressado, rua acima, naquele entardecer já iluminado pelas noturnas luzes da cidade.
Temi, no momento, que os três meliantes me alcançassem. Porém, rapidamente cheguei a uma praça mais movimentada, pelo que considerei que o perigo tinha passado. Respirei de alívio quando entrei no transporte de regresso a casa e repousei o pensamento na análise do sucedido.
Aquela experiência de vida despertou-me para um outro lado da sociedade e fez-me compreender melhor as razões porque tantos são apanhados nas teias que a marginalidade tece.

                  Fotos: Google Imagens      

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

A seiva das nossas raízes



Naquela semana, Lisboa oferecia-se quente e gaiata. Gostava de a visitar sempre que podia. Muitas vezes, aproveitando as reuniões nos departamentos centrais do Ministério em que trabalhava. Daquela vez, frequentava um curso na área do planeamento estratégico, lá para os lados da Rua 5 de Outubro.

Para além de cerca de uma dezena de representantes de empresas portuguesas, a turma acolhia dois jovens técnicos do Governo da Guiné-Bissau. Após uma breve e animada conversa exploratória, constatei que conheciam a zona leste daquele território africano, onde eu tinha passado doze longos meses na defesa do que, na época, se acreditava ser uma província portuguesa.
Simpatizei, na primeira abordagem, com aqueles dois negros que estavam em Lisboa sob o patrocínio do Governo Holandês recebendo uma choruda bolsa mensal de cerca de oitenta contos. Estávamos em plena década de oitenta do século XX, em que um técnico superior da administração pública portuguesa pouco mais auferia que 20 contos mensais.

Num dos dias do curso, teve lugar uma visita de estudo a uma empresa da cidade. Perante a afirmação constrangida de que não traziam dinheiro, prontifiquei-me a pagar-lhes o almoço. No dia seguinte, quiseram retribuir-me a gentileza com um almoço no restaurante onde diariamente faziam as refeições e que estava sedeado no rés-do-chão do prédio onde se alojavam.
No final do repasto, fizeram questão de me levar ao apartamento de sua residência para que eu visse umas fotografias da Guiné, nomeadamente dos locais donde tinha regressado há mais de uma década.
Aceitei, de bom grado, o amistoso convite. Mas, de imediato, fiquei perplexo perante o à-vontade daqueles dois amigos em face da imensa imundície em que viviam. Deserto de qualquer organização, o apartamento estava sujo de meses, com cadeiras escondidas de vergonha por diversas peças de roupa de duvidosa higiene e com camas desalinhadas, dificilmente percebidas como locais de dormir.
Os cheiros característicos de África, que bem recordava dos tempos de guerra, deram-me a nítida sensação de que tinha entrado numa qualquer cubata do interior da Guiné-Bissau.

Procurei dissimular o choque que senti perante aquele cenário despido de quaisquer regras de higiene. A custo, e com uma mal disfarçada inquietação, solicitei de um deles um espaço para me sentar. Um sorriso aberto, feliz e com a maior naturalidade, apontou para a berma de uma das camas. E, de seguida, colocaram nas minhas mãos dezenas de fotos de locais que eu bem conhecia.
Olhei as fotografias. No entanto, um cheiro perturbador, que julguei oriundo das escadas onde deambulavam alguns drogados em fase de rescaldo, não permitiu a necessária concentração para as comentar e, muito menos, para enriquecer a conversa com o meu passado de militar naquele território.

Durante aquele curto espaço de tempo não consegui adivinhar qualquer timidez, acanhamento ou embaraço pela exposição do despretensioso estilo de vida em que viviam. Pelo contrário: os seus iluminados sorrisos e a forma simpática e envolvente como me consideravam confirmavam como natural aquela peculiar forma de vida.
Daquele episódio, retive, apesar de tudo, a saudável convivência com dois homens de boa vontade que participavam, com determinação, na reconstrução de um novo país. E acredito ter sido a forma amigável como os acolhi que os levou a convidar-me a regressar ao seu país como cooperante na área da gestão e planeamento. Convite que o projecto de vida que tinha iniciado não permitiu aceitar.

Mas foi uma experiência de vida em que pude perceber que as questões culturais e de comportamento permanecem entranhados em nós, qualquer que seja o contexto social em que nos integremos. O que aqueles dois jovens consideravam um luxo de vida era, para mim, uma autêntica imundície. Mas tratava-se, tão só, do cenário que me tinha sido revelado nas cubatas da Guiné-Bissau.
Por muito que nos esforcemos na adaptação a outras culturas e civilizações, sempre somos a seiva das nossas raízes.

                  Fotos: Google Imagens      

terça-feira, 2 de agosto de 2011

No céu das estrelas …



A notícia parecia querer rebentar-lhe o pensamento.
Um familiar próximo de uma pessoa que estimava tinha decidido partir, deixando um irreparável vazio de alma.
A notícia chegou-lhe gélida e apressada, deixando-o aturdido num emaranhado de emoções.
Por momentos, a perplexidade levou-o o olhar mais longe, como que na procura de respostas num qualquer infinito imaginado.
São momentos em que as palavras faltam à emergência de manifestação de conforto aos que dele carecem. Sabia, de experiência sofrida, que nada, mesmo nada, consegue aliviar a dor de um sentimento de perda. Porque só se perde o que nos pertence por inteiro.
Restava-lhe ficar por ali, mudo e quedo, imaginando vagamente o pungente cenário, ouvindo o murmúrio dos afetos perdidos e procurando partilhar sentimentos solidários.

Quando pensava na morte, procurava entrar em transe bucólico de leve magia. Buscava a fugaz liberdade que emerge do tempo em que a alma ruma ao infinito.
Quando pensava na morte, sentia medo de que ela preferisse os afectos de proximidade. Aos que partiam, via-os donos de uma viagem, caminhando de costas voltadas para o passado. Imaginava-os, olhando de frente, carregando a serenidade a tiracolo como se o destino fosse a eternidade.
Quando pensava na morte, quase sempre questionava a importância de partir aos vinte e sete ou aos noventa e sete anos. Habituara-se a olhar o tempo como um breve instante despido de dimensão. Se os anos se alongam, o tempo passa num ápice. Quando se parte jovem, o instante é vivido intensamente.

Sempre se deu bem com o termo «partir». Porque aquele vocábulo produzia-lhe sensações de liberdade ao seu inquieto viver. Partir à aventura, à descoberta ou, simplesmente, partir rumo ao desconhecido ou para outras dimensões.
Orgulhava-se de pertencer à plêiade dos desassombrados conquistadores quinhentistas que rumaram, sem medo, à descoberta do mundo desconhecido. Ou da mais recente errância de muitos compatriotas pelos cinco continentes em busca de melhor qualidade de vida.
Para afugentar a melancolia, relembrou a estrofe de um verso, que a alma exigia para aquele momento, despertado pelas emoções de liberdade:
                               
                                A morte não é mais que uma serena partida
Para o céu de estrelas donde se avista o mar
Ali aguardamos, com uma ânsia desmedida,
Que os afetos deixados nos dirijam o olhar!

Vai acontecer, sem dúvida!

                  Fotos: Google Imagens      

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Até ao novo estio …





Hoje, poderia falar do clima deste meu país, quentinho de verão! Ou de «Que fazer quando tudo arde?» do António Lobo Antunes. Ou falar de metamorfoses... naturais e humanas.
Falar, ainda, de que não tenho avistado a lua... talvez por ela se sentir em fase nova e a timidez seja o seu refúgio de mocidade. Esperemos que fique mais cheiinha e aí surgirá em todo o seu esplendor!
Gosto de a ver nas manhãs quentes do verão, ainda com o céu sonâmbulo, pintado de azul anil. Acho que, assim, o dia inicia-se mais iluminado e cresce a vontade em me distender pelas estradas largas das rotinas de sempre. Fica mais leve esta vida de encontros e desencontros. Em que, como geme a cantiga: «ninguém é de ninguém!».

Mas, falar em metamorfoses traz-me à memória alguns sons da minha infância. Mais concretamente, a lembrança das melodias saídas, nas tardes longas e quentes do estio, de uma generosa poça de água existente, à época, junto da casa da família.
Pela calada da noite, ouvia-se um trilhar de sons de milhares de rãs e girinos, como que a confirmar uma vivência feliz, apesar de servirem de alimento aos galináceos que, pelo entardecer, se dirigiam àquela terra prometida onde se banqueteavam, a modos de uma orgia romana. Dali, só regressavam de papo cheio.
Mas, à medida que a seca ia avançando, aquela fonte iniciava um percurso de redução de água... e os sons ficavam cada vez menos estridentes. Até que o mutismo denunciava que a vida se extinguia de vez. Até ao novo estio!

                  Fotos: Google Imagens