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quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Tempo de espera…





Foto: Carlos da Gama






O final do Verão aproxima-se a passos largos. 
Em breve, a chuva, o frio e o vento regressarão ao meu quotidiano, empastando os dias e alongando os meses do meu descontentamento.
 Será o tempo de adormecimento da natureza e das noites aquecidas pelas lareiras de cada destino. Será, também, o tempo de algumas despedidas, de mudança de ares, de novos horizontes de lua cheia, de esperança de concretização de um sonho que semeará quimeras pelas falésias da ilusão. Porque os sonhos maduros florescem, mesmo em tempos de vertigens frescas, nos rios da liberdade!
Será, ainda, um tempo de baladas secretas em nome de paixões suspensas por cativos voos de maresia que teimam permanecer com luz desperta. Pois, dentro do peito coexistem rosas vermelhas desfolhadas em afectos e uma ternura afagada pela corrente que dá sentido a cada sonho.
Este ciclo da vida -, de nascer, crescer e morrer -, desaguará num novo renascimento da voz da terra donde emergimos e que é a nossa casa comum. Apesar da alma se abrigar nas estrelas que olham este planeta duma forma meiga e sedutora.
Toda a nossa vida é um tempo de espera ... 

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Chegou o Outono!




Chegou, apressado, o Outono do próximo Inverno. 
Empurrado pelo vento norte e aparentando estar zangado com tudo e todos. Mas, certamente, este ar de revolucionário se justifica por ter chegado um pouco atrasado à vida.
A natureza já tinha dado falta dele. Principalmente, os campos que continuavam sem o verde que reconforta a fome dos animais e das pessoas.
Chegados quase a Novembro, já se fazia sentir a ausência de água. E, também, os olhos mantinham-se ansiosos pelos caminhos de pétalas mortas, de orgias multicolores, em que os ocres, mais ou menos retintos, assumem a primazia.
Não foi, pois, surpresa a chuva forte, até porque já, há alguns dias, era anunciada. Mas surgiu, em ferozes bátegas, empurrada por um vento encrespado e fugidio.
Água e vento surgiram de rompante, entrando nos aconchegos, despertando alguns incautos e derrubando muitas árvores de mais frágil exposição.

Os anos habituaram-nos a sentir mais cedo o Outono frio e com alguma chuva espaçada no tempo. E a admirar os quadros bucólicos, de grande beleza, que sempre nos oferece esta estação de extraordinárias cores e matizes.
Apesar de nos preparar para um Inverno temido pela aspereza do frio e ausência de luz, o Outono é uma estação de que se gosta. 
É com ele que as castanhas ficam «quentes e boas», o vinho dá a conhecer o seu picão e sabor e o calor das lareiras junta as pessoas.
O Outono da minha infância era assim: frio de neve, casas aquecidas com a lenha recolhida no estio, longas conversas pela noite dentro e aconchego dos afectos familiares.
Apesar das carências, sentidas em muitos aspectos do quotidiano (quando comparado com os de hoje), sinto saudades do Outono da minha infância.
Talvez, porque esse foi o tempo em que me senti livre de compromissos, cativo da ternura da progenitora e fruindo da liberdade da inocência.
Lá fora, as fortes bátegas da chuva continuam a anunciar que chegou o Outono!

                  Fotos: Google Imagens     

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Bom dia, Verão!









Está uma manhã calma e iluminada por um sol ainda tímido e ensonado. O céu oferece-se de azul. Apenas alguns dispersos farrapos brancos emprestam-lhe um ar de maturidade.
Ao atravessar os jardins, que me levam até ao posto de trabalho, olhei a lua e admirei a sua beleza pálida.
Está num crescendo, como que grávida de magia.
Em breve, mostrar-se-á cheia de esperança na renovação de um novo ciclo de vida.
Fixei-a, por momentos, e o futuro do passado surgiu, de imediato, na minha memória. Aliás, sempre que a avisto no céu, um murmúrio de sonhos envolve-me a alma e uma nostalgia de saudade senta-se a meu lado!

Dizem que a lua influencia o nosso destino colectivo. Que ela comanda as marés que regulam os oceanos naturais ou as que o nosso imaginário faz desaguar na alma. É bom que assim seja!
Pressinto-a em afloramentos de desejos quando, por exemplo, a maresia oferece-se misturada com o prateado das águas do imenso oceano, pela acção grata da sua luz. É ali que ela se veste de sabores salgados de mar e consegue que aqueles se transformem em momentos únicos.

Ao desviar o olhar do firmamento, regresso à vida acompanhado de uma manhã submersa num verde de azul distante. A natureza expõe-se em todo o esplendor ao sentir os macios ventos desaparecidos pelo calor. E ouço os monótonos bulícios da cidade que confirmam que a vida retoma a normalidade diária.

Esta é mais uma bela manhã de Agosto. O dia vai, de certo, espreguiçar-se pela mornice de um estio que, em breve, se extinguirá. Mas, ainda é tempo de despertar todos os desejos, que não sejam de silêncios contidos.
 Bom dia, Verão!
                  Fotos: Google Imagens     

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Até ao novo estio …





Hoje, poderia falar do clima deste meu país, quentinho de verão! Ou de «Que fazer quando tudo arde?» do António Lobo Antunes. Ou falar de metamorfoses... naturais e humanas.
Falar, ainda, de que não tenho avistado a lua... talvez por ela se sentir em fase nova e a timidez seja o seu refúgio de mocidade. Esperemos que fique mais cheiinha e aí surgirá em todo o seu esplendor!
Gosto de a ver nas manhãs quentes do verão, ainda com o céu sonâmbulo, pintado de azul anil. Acho que, assim, o dia inicia-se mais iluminado e cresce a vontade em me distender pelas estradas largas das rotinas de sempre. Fica mais leve esta vida de encontros e desencontros. Em que, como geme a cantiga: «ninguém é de ninguém!».

Mas, falar em metamorfoses traz-me à memória alguns sons da minha infância. Mais concretamente, a lembrança das melodias saídas, nas tardes longas e quentes do estio, de uma generosa poça de água existente, à época, junto da casa da família.
Pela calada da noite, ouvia-se um trilhar de sons de milhares de rãs e girinos, como que a confirmar uma vivência feliz, apesar de servirem de alimento aos galináceos que, pelo entardecer, se dirigiam àquela terra prometida onde se banqueteavam, a modos de uma orgia romana. Dali, só regressavam de papo cheio.
Mas, à medida que a seca ia avançando, aquela fonte iniciava um percurso de redução de água... e os sons ficavam cada vez menos estridentes. Até que o mutismo denunciava que a vida se extinguia de vez. Até ao novo estio!

                  Fotos: Google Imagens