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domingo, 7 de agosto de 2011

O que mais me intriga ...

                                                                                                                                                               






"(...) O que mais me intriga e dói na nossa morte, como vemos na dos outros, é que nada se perturba com ela na vida normal do mundo. Mesmo que sejas uma personagem histórica, tudo entra de novo na rotina como se nem tivesses existido.

O que mais podem fazer-te é tomar nota do acontecimento e recomeçar. Quando morre um teu amigo ou conhecido, a vida continua natural como se quem existisse para morrer fosses só tu.
Porque tudo converge para ti, em quem tudo existe, e assim te inquieta a certeza de que o universo morrerá contigo. Mas não morre.

Repara no que acontece com a morte dos outros e ficas a saber que o universo se está nas tintas para que morras ou não. E isso é que é incompreensível - morrer tudo com a tua morte e tudo ficar perfeitamente na mesma. Tudo isto tem significado para o teu presente. Mas recua duzentos anos e verás que nada disto tem já significado. "
                                                                                                                       Vergílio Ferreira, in 'Escrever'
(Porque hoje o pensamento voa longe....)

                  Fotos: Google Imagens      

terça-feira, 2 de agosto de 2011

No céu das estrelas …



A notícia parecia querer rebentar-lhe o pensamento.
Um familiar próximo de uma pessoa que estimava tinha decidido partir, deixando um irreparável vazio de alma.
A notícia chegou-lhe gélida e apressada, deixando-o aturdido num emaranhado de emoções.
Por momentos, a perplexidade levou-o o olhar mais longe, como que na procura de respostas num qualquer infinito imaginado.
São momentos em que as palavras faltam à emergência de manifestação de conforto aos que dele carecem. Sabia, de experiência sofrida, que nada, mesmo nada, consegue aliviar a dor de um sentimento de perda. Porque só se perde o que nos pertence por inteiro.
Restava-lhe ficar por ali, mudo e quedo, imaginando vagamente o pungente cenário, ouvindo o murmúrio dos afetos perdidos e procurando partilhar sentimentos solidários.

Quando pensava na morte, procurava entrar em transe bucólico de leve magia. Buscava a fugaz liberdade que emerge do tempo em que a alma ruma ao infinito.
Quando pensava na morte, sentia medo de que ela preferisse os afectos de proximidade. Aos que partiam, via-os donos de uma viagem, caminhando de costas voltadas para o passado. Imaginava-os, olhando de frente, carregando a serenidade a tiracolo como se o destino fosse a eternidade.
Quando pensava na morte, quase sempre questionava a importância de partir aos vinte e sete ou aos noventa e sete anos. Habituara-se a olhar o tempo como um breve instante despido de dimensão. Se os anos se alongam, o tempo passa num ápice. Quando se parte jovem, o instante é vivido intensamente.

Sempre se deu bem com o termo «partir». Porque aquele vocábulo produzia-lhe sensações de liberdade ao seu inquieto viver. Partir à aventura, à descoberta ou, simplesmente, partir rumo ao desconhecido ou para outras dimensões.
Orgulhava-se de pertencer à plêiade dos desassombrados conquistadores quinhentistas que rumaram, sem medo, à descoberta do mundo desconhecido. Ou da mais recente errância de muitos compatriotas pelos cinco continentes em busca de melhor qualidade de vida.
Para afugentar a melancolia, relembrou a estrofe de um verso, que a alma exigia para aquele momento, despertado pelas emoções de liberdade:
                               
                                A morte não é mais que uma serena partida
Para o céu de estrelas donde se avista o mar
Ali aguardamos, com uma ânsia desmedida,
Que os afetos deixados nos dirijam o olhar!

Vai acontecer, sem dúvida!

                  Fotos: Google Imagens      

quarta-feira, 27 de julho de 2011

prenúncios de morte ...



No passado fim-de-semana houve prenúncios de mortes violentas, inesperadas ou nem tanto assim: Amy Winehouse, dezenas de jovens noruegueses e alguns americanos.
Sinais de que o mundo mostra-se cada vez mais cansado da vida e prefere os caminhos da morte.
Amy era uma estrela que ameaçava desprender-se do firmamento a qualquer instante. Nos escassos anos de vida comportou-se como se estivesse só no mundo! Apesar das multidões que a idolatravam, sentia-se só! E foi a vivência dessa solidão que a fez pensar no sentido da vida e na libertação de todos os seus fantasmas pela morte. Merece respeito, por essa manifestação de lúcida dignidade. Gostei de a ver na loucura breve em que se detinha. Admirei a sua voz de sonho. Não admira, pois, que tenha preferido novas dimensões para se manifestar em todo o esplendor.
Na Noruega, um demónio à solta calou os rumores de uma ilha de maresia e fez estremecer o centro de Oslo. A vida debateu-se, por momentos, num breve confronto com a bestialidade humana. Fruto de uma doentia visão do mundo. Imperdoável o gesto premeditado de se sentir dono da vida de alguém. Na América, repetiu-se o pesadelo do costume. Nada mais do que já não estejamos acostumados.

Carlos da Gama
                   Fotos: Google Imagens