Mostrar mensagens com a etiqueta Vida. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Vida. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

«O essencial é invisível aos olhos»!






Há dias, assisti ao filme «O Impossível» que conta a história verídica de uma família espanhola que sobrevive ao Tsunami de 2004, que devastou o Sudeste Asiático atingindo fortemente a Indonésia e a Tailândia. É um filme que, de princípio ao fim, capta a atenção do espectador, com certas cenas a transportar-nos para o turbilhão de emoções que as ondas gigantes fizeram emergir.

Acabei de ler uma entrevista de Maria Bélon, uma das protagonistas daquela tragédia que, na altura, passava as férias de Natal, num dos resorts de Phuket, na companhia do marido e dos três filhos, todos eles igualmente sobreviventes daquela tragédia.
Para além da descrição da traumática experiência, o que me impressiona na entrevista é a forma de como esta mulher passou a encarar a vida. O seu desabafo de que «agora sei o que é importante e para o que devo viver» é um sinal de que a vida passou a ter um sentido completamente diferente do que era antes do Tsunami.

Esta médica, que abandonou a profissão, assumindo o papel de porta-voz das vitimas da tragédia, acreditava que tanto ela, como a sua família, tinha uma grande beleza e enorme importância social. Após esta experiência, diz, com impressionante convicção: «Sou a mulher mais bonita do mundo. A minha beleza está nas minhas cicatrizes, nas minhas rugas, nos meus cabelos brancos».

É frequente este fenómeno de se sentir a vida com outro olhar após uma experiência de quase-morte ou da vivência de um drama pessoal ou familiar muito traumatizante. 
Vivemos apressados os dias e os anos, numa correria sem destino e sem alma. Só damos conta da direcção que levamos quando somos sacudidos por algo que nos perturba profundamente e que nos permite reavaliar diversas coisas extremamente relevantes, que o nosso dia-a-dia teima em passar por cima e, mesmo, desprezar. Pois, como escreveu  o escritor francês, Saint-Exupéry, no seu livro "O Pequeno Príncipe", «O essencial é invisível aos olhos».

Histórias, como a de Maria Bélon, obrigam-nos a reflectir no que realmente somos e para onde vamos. E de não ter medo de passar a ouvir as palavras que sempre desejamos ouvir, de pronunciar as frases que um dia gostamos de repetir, de sentir a emoção que sempre esperamos sentir, de caminhar pelos trilhos que um dia ansiamos seguir, de dividir o carinho com quem sempre ambicionamos repartir e de viver a vida que sempre sonhamos existir.

Imagem: Google

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Momento de ternura

Há dias, assisti a um documentário na televisão sobre a origem do mundo numa visão científica que deixa com frágil suporte as teorias teístas sobre a criação do universo.
Depois da epopeia de quinhentos, em que os portugueses foram dos maiores paladinos, e de civilizações ancestrais que desapareceram em cataclismos vários, o homem ousou sonhar com a exploração do universo.
Primeiramente foi a investigação que nos ofereceu teorias sobre a constituição do espaço celeste. Seguiram-se a conquista da Lua que um dos seus paladinos justificou como sendo «Um pequeno passo para o homem, um grande salto para a humanidade».
Joana Carvalho

Com a aceitação científica de coexistência de milhões de galáxias no universo, sobra-nos a convicção de que o nosso planeta tem a relativa dimensão de um pequeno grão de areia quando comparado com os astros que serão representados pelos restantes grãos de areia de todas as praias existentes no planeta Terra.
Perante esta vastidão, de quase infinito, valerá a pena reflectir sobre o pequeno mundo de cada um de nós. Pois estamos perante uma realidade que nos esmaga pela grandiosidade e nos deixa com a certeza de que de pouco valem as preocupações sobre a nossa existência mais sentida.
Valerá a pena, talvez, reaprender a viver perante este estado de coisas, relativizando cada acontecimento mais amargurado. Pois, de que adianta o ensimesmamento pela emergência de um problema que tem a dimensão de caber num grão de areia?
Esta reflexão traz-me à memória o slogan latino «carpem diem», tantas vezes lembrado pelo meu primogénito! Talvez influência do filme «O Clube dos Poetas Mortos» em que o personagem principal, dirigindo-se aos seus alunos, lhes inspira: «Colham o dia, garotos, tornem extraordinárias as vossas vidas».
Pois, como muito bem escreveu o escritor português, Raul Brandão, «A que se reduz afinal a vida? A um momento de ternura e mais nada...».

domingo, 10 de junho de 2012

Regresso ao mar!







Percebia-se inquietação no olhar. 
Já há um bom tempo que magicava ao redor dos segredos da vida, desde o nascer ao perecer. 
Achava que tinha já cumprido a missão que garantia a continuidade do genes para além da sua existência.
Por momentos, deixou que a memória lhe relembrasse alguns dos quadros mais impressivos que tinha pintado ao longo dos anos:   do nascimento, em ambiente de economia modesta, aos afetos maternos da infância;   da adolescência, meio submersa por contextos de regras e liturgias de fé, à juventude, traída por uma iníqua guerra ultramarina;   da formação universitária, que lhe abriria portas de liderança, à escolha da companheira de toda a vida;   dos rebentos, que foram emergindo dos afetos partilhados, ao agreste, mas conseguido, percurso profissional;  do acompanhamento presente na formação do cardume à descoberta do mundo com o iglô na bagageira;   do início do alargamento da família nuclear, pelas escolhas do cardume, ao (...)
Foram tantos momentos doces que iludiram a passagem do tempo!
Foto: Joana Carvalho

Até que chegou o momento de outras decisões que a natureza humana não consegue controlar. 
Ele sabe bem o quão difícil é falar, ao seu cardume, do fim dos tempos em cada ser humano.
 Mas é imprescindível que aconteça, mais cedo que tarde.
Daí que não se inibia de chamar esse assunto para o seio das conversas familiares, procurando sublinhar o inexorável ciclo da natureza.
Sem dramas, nem pieguices ou piedosas intenções, queria deixar bem claro que, após esta passagem, preferia o seu corpo purificado pelo fogo, seguido do espalhamento das cinzas pelo único lugar que lhe garante acolhedor refúgio: o mar! 
Com a certeza de que o seu espírito permanecerá desperto na estrela avistada pelo cardume em cada dia que passa.
Será, de certo, uma vigília de afectos após o merecido regresso ao mar!

Carlos da Gama

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Chegar, estar e partir!


                                                                                                                                                                              Foto: Google Imagens        
                                                                 


Ao alongar o olhar, no conforto da vidraça do meu gabinete, concentro-me nas árvores despidas no frio invernoso que confirma o mês de Dezembro.
E interrogo-me da razão deste aparente paradoxo. Então, não seria mais óbvio que, tal como fazem os humanos, as plantas reforçassem a sua protecção com mais pétalas e ramagens?
Esta contradição, que mais parece um sacrifício oferecido aos deuses, deixa-me perplexo.
Uns alvitram que, dessa forma, a natureza evita o Inverno partindo para uma hibernação de três meses. Ou seja, viaja para um contexto de penumbra e esquecimento de forma a não sentir os rigores gélidos dos dias longos de escassa luz. Desaparece, dizem, por uns tempos, para emergir em apoteose logo que os primeiros afagos da Primavera se fizerem pressentir.

Vivi, durante alguns anos da minha adolescência, num colégio religioso que ficava para os lados do Porto. Defronte ao Colégio situava-se um lar de idosos de pessoas abastadas, quase todas ligadas à área do comércio. Gostava de o visitar amiúde, pela exuberância da flora que aquele enorme recinto exibia e pelo contexto acolhedor que a casa de repouso oferecia.
Lembro bem da mobilidade fácil e dos sorrisos dos velhos, que ali passavam o resto da sua vida, quando o tempo estava de feição. Mas, também, retenho, na inquieta memória, que o Inverno tinha o condão de aproximar a morte dos mais frágeis. Quase diariamente testemunhava a partida de mais um residente daquele paraíso. O número de partidas era tremendo nos meses em que a natureza se lançava nos braços da hibernação.

É fácil conformarmo-nos com a tese de que está a ser cumprida a lei da vida, que se manifesta no ciclo de chegar, estar e partir! O corpo lá se vai resignando com a perda de vigor pela passagem dos anos. E o espírito acomoda-se, de igual forma, a este ciclo da vida humana que muito se assemelha às estações do ano.
Uma das teses de promoção da saúde mais propaladas nos últimos tempos é a de que importa dar mais vida aos anos do que mais anos à vida. Ou seja, o importante é a forma como vivemos e não o tempo que vivemos. Na certeza de que este intervalo da nossa existência, que chamamos de vida, resume-se a este fantástico ciclo de chegar, estar e partir!

  Carlos da Gama

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Rotinas de sempre!



Estamos a avançar, a passos largos, para o final do mês de Agosto. A vida começa, aos poucos, a regressar a uma indesejada normalidade, porque composta de rotinas de que as férias constituem um breve intervalo.
A véspera do regresso deixa-nos sempre levemente apreensivos. Porque voltam as angústias rotineiras de casa-trabalho-casa. 

Voltam as canseiras e as surpresas que nos deixam mais cativos da nostalgia. 
Voltam os dias cada vez mais curtos e com uma luz mais difusa. 
Em suma, após se reviverem alegrias e abraços, regressam as rotinas e os cansaços. 
E volta a saudade dos sonhos impossíveis. 
 Talvez tudo isso aconteça apenas porque as origens mais remotas, de que somos protagonistas, sejam um misto de liberdade e natureza. Seremos do tempo em que se acham alguns resquícios tribais, ainda a salvo da civilização. E essas origens, que marcam o nosso ADN colectivo, criam a nostalgia de um tempo onde inexistem embaraços de qualquer espécie.

A civilização roubou-nos a autêntica noção de liberdade, sentida no contacto permanente com a terra e a natureza. Apesar de ganharmos algum controlo com o bem-estar e criarmos contextos onde o conhecimento do ser humano e do universo se alcança cada vez com maior desassombro. Mas esse é a parte positiva da civilização: a constante procura do conhecimento.
Era este também o pensamento do mestre do surrealismo, Salvador Dali que, no final da sua vida, à saída de mais um internamento hospitalar, gritou o seguinte lamento: "... Eu sou um génio e os génios não podem morrer, pois deles dependem o destino do mundo...".
Lembro que fiquei enternecido em frente da televisão ao ouvir a exteriorização magoada por parte daquele pintor que eu tanto admirava. E não me custou aceitar o seu argumento, apesar do pânico que revelava perante a inexorabilidade da morte.

Para além da ciência e do desenvolvimento social, o ideal maior é o retorno às origens mais remotas da nossa existência. 
Por isso, amo reviver a alquimia dos sonhos por concretizar e habitar inspirados desejos de aventura para incógnitas latitudes e emoções. 
Nessa dimensão, acho-me composto de vento e sombras. Porque gosto de voar pela aventura e beber a solidão de um espraiado sofrido.
Hoje, vejo muitos regressados à rotina dos dias e à voragem dos anos. Sinto a sua alma inquieta pelo precoce abandono de um tempo sem obrigações forçadas. Pressinto-os mais melancólicos por darem conta de que continuam escravos de uma incolor existência colectiva. 
É este o estado emotivo do difícil regresso às rotinas de sempre!

Fotografia:          Google Imagens

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Sonhos perdidos!

Sou de uma geração que encarava o casamento como uma das etapas mais importantes da vida. Um compromisso que condicionava todo o futuro. E uma incógnita que o namoro, tantas vezes fugidio, não denunciava na plenitude.
Se o companheiro se revelava um ser com dimensão ética, cívica e humana, a vida tornava-se num sonho por que se lutava diariamente. 
Se, pelo contrário, da rifa emergia um camafeu insuportável, vivia-se num pesadelo sofrido, sem direito a ser interrompido.

Lembro bem das histórias, que a minha mãe contava, sobre casais desavindos, muitas vezes, desde o primeiro dia de vida de casados.
A violência doméstica, hoje vigiada e criminalizada, estava muito presente e era encarada com normalidade. 
Aceitava-se a ideia de que um homem poderia ser maldisposto e usar, se necessário, de coação verbal ou física para obter respeito e subserviência.

Minha mãe relembra histórias terríveis de suas amigas que viveram em constantes desavenças com os companheiros. Quase todas escondiam, por vergonha, sinais de violência de que eram vitimas.
Nesse tempo a pobreza grassava e as carências económicas tolhiam os afectos de sã convivência. Enquanto as mulheres permaneciam nas lides domésticas, os homens acantonavam-se nas tascas da aldeia onde procuravam afogar no álcool as agruras da vida. O que beneficiava as condições para o eclodir da violência doméstica.

Com a entrada da mulher no mercado de trabalho, a sociedade passou a olhar para o casamento com maior flexibilidade e tolerância. E ainda bem que assim foi, porque a convivência com alguém que deixamos de amar facilmente se transforma num tormento difícil de suportar.
Um casamento em que os afectos são esquecidos, em que o carinho e o erotismo deixam de fazer sonhar, é um casamento sem futuro. Um matrimónio que se transforma em parceria amigável, sem qualquer envolvência afectiva, caminhará, a passos largos, para o insucesso. 
Uma união que não desperte os sentidos, nem permite emergir a ilusão e a alquimia do amor, não oferece condições de continuidade.

Recordo uma história real, de que tenho breves reminiscências, lembrada por minha mãe: a do casal «Pedreiro», nosso vizinho d’outrora, desaparecido há décadas. O chefe de família, feio por natureza e rezinga por devoção, constantemente libertava os seus maus humores contra a mulher que escolheu para viver. Era raro o dia em que não se fizesse sentir, no lugar onde habitava, a sua voz de trovão, misturada com a gritaria aflitiva dos filhos e a espalhafatosa fuga da esposa. A irascibilidade era o estado de espírito mais comum no diário daquela família. 

O Pedreiro tinha hábitos massacradores: tecia durante a noite, obrigando todos, lá em casa, a fazer o mesmo. Durante o dia, acantonava-se nas tascas da aldeia e por ali permanecia até ficar totalmente ébrio. 
Com o vinho a fermentar no bucho e as ideias em incontroláveis ziguezagues etílicos, sempre chegava a casa com propósitos de vingar as frustrações da alma. Criando aos seus um constante desassossego e uma tragédia diária ao longo de toda uma vida!
Mas não era caso isolado na aldeia da minha infância. O alcoolismo era o antídoto de muitos para fazer face à penúria económica e social em que viviam. E as mulheres, sempre procurando esconder a realidade, eram as suas principais vítimas.
Em nome das aparências, quanta angústia sofrida, quanta violência dissimulada e quanta coragem reprimida. Em nome do sagrado sacramento do matrimónio, quantas vidas interrompidas e quantos sonhos perdidos!

                  Fotos: Google Imagens     

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Desassossego

Não o larga aquele desespero miudinho que lentamente lhe corrói a alma. Tenta afastar as tempestades d’outrora, mas esse esforço é inglório. De vez em quando, a sombra do tempo, ou qualquer inútil informação, desperta-lhe um desassossego larvar. 
Que, apesar de rejeitado e espalhado pela espuma dos dias, emudece-o por incontroláveis períodos de tempo!

Esta cisma rouba-lhe o melhor que tem. A alma permanece desnudada. Apetece-lhe gritar os sufocos que a comprimem.
Sente a vida presa por um fio de emoções. Como um pássaro guardado numa entediante reserva, procura a liberdade que lhe permita sonhar até ao limite. E, no encalço da ousadia perdida, vê-se, lá longe, de olhar fixo, num horizonte feito de inquietude.
Apetece-lhe correr pelas falésias da vida já vivida. Desprezar a audição dos apelos medíocres feitos de vileza interesseira. E abrir os braços em concha, pressentindo o vento a saudar com eufórica determinação.
Mas sente-se perdido entre a gente e só se acha livre quando ganha a companhia do mar. 
É ali que repousa a alma e troca o desassossego pela serenidade.
Sabe que voltará a iludir esta vertigem feita saudade de um tempo feliz. Mas, mesmo assim, prefere perder-se entre as brumas do destino que o empurra para um espraiado mais distante. Esforça-se, mas não consegue libertar-se definitivamente do emaranhado das teias que o sepultam ainda vivo. E, vezes sem conta, ousa afastar a maldição dos pastores que lhe marcaram a vida. 
E que o impedem de gritar com a alma plena de liberdade. Daí a ventania de medos que há muito lhe arrastam incertezas e canseiras.
Acha-se sem forças para chamegar as emoções que lhe são próximas. Por isso, conclui que chegou a um destino sem retorno. A um limite de forças cada vez mais difíceis de controlar.
Mas não duvida que o futuro tem a maresia à sua espera. E, sabe bem, esse tempo está a chegar. E permanecerá por aqui … apesar deste constante desassossego!
                  Fotos: Google Imagens     

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Conversas de mar!


Ali estava, com o olhar estendido pelo mar. A sua postura rígida, apesar dos seus quase oitenta anos, emprestava-lhe um aspecto de velho marinheiro com saudades do mar. Refugiava-se naquelas rochas altaneiras donde se ouvia o marulhar das águas em eterna inquietação. A visão do mar e os rugidos libertados contra os rochedos pareciam transmitir-lhe a serenidade e os silêncios de que carecia.
Não prestava a mínima atenção aos cenários que o rodeavam, tamanha era a fixação do mar. Nem as conversas dos mais próximos veraneantes, nem os mirones da nudez dos jovens casais, que se julgam protegidos pelas díspares volumetrias das rochas, nem o rumor mais longínquo da multidão, a banhos no espraiado da orla costeira, nada o fazia acordar do torpor em que se achava. Parecia querer embrenhar-se no mar!
Ao vê-lo ali, imperturbável e ausente do bulício natural da época, tive uma incontrolável vontade de entender o rumo que tinha tomado o destino daquele homem, de pose dura e interrogativa. Absorto de tudo e de todos, apenas lhe interessava sentir a inquietação do mar. Por isso, não deu conta da minha tímida, mas ousada, aproximação.
Ao abeirar-me, dei-lhe sinais de que era de paz. Daí que tenha iniciado a minha prosa com a bonomia do estado do tempo, fazendo justiça àquela tarde de intenso calor, só amansado pela aragem suave e pelas gotículas que o vento roubava à transpiração do mar.
Olhou-me de soslaio e acedeu ao cumprimento. Não sem antes me percorrer, com desconfiada atenção, dos pés à cabeça. À pergunta se era dali, de Vila do Conde, respondeu-me afirmativamente com um enfadado aceno da cabeça. Para dissipar quaisquer dúvidas sobre o meu arrojo em lhe dirigir a palavra, confessei-lhe que estava de passagem e que era de Braga.
Ainda bem que o fiz. Porque notei, de imediato, que gostou saber das minhas origens geográficas. Questionando-me, de seguida, o preciso local de minha residência. Após poucos minutos, confirmou-me que tinha nascido ali por perto, mais concretamente, em frente da Sé de Braga e que na adolescência tinha frequentado o Patronato de Nossa Senhora da Torre. Daí que se me dirigisse, com um sorriso triunfalista mas, ainda, um pouco cauteloso: «Sou mais bracarense que o senhor!».
Soube, depois, que a sua vida teve inícios de grande penúria económica e que, pelos vinte anos de idade, fora obrigado a rumar a Vila do Conde para conseguir um emprego. Mais tarde, como tantos outros compatriotas, emigrou para a França e para a Alemanha no encalço de melhores condições de vida.
Ficamos um bom tempo numa agradável conversa, fazendo o contraponto de vidas passadas e presentes. Gostei de conhecer aquele velho que deambulava, ora com os amigos pescadores, ora sentado numa rocha, de olhar fixo no mar. Bastou perceber que estava perante um conterrâneo de confiança para abrir as portas da sua vida. Esse seu gesto confirmou a tese de que nos podemos perder pela vida que sempre chegará o tempo em que as nossas raízes falam mais alto à emoção. E ainda bem que assim é!

                  Fotos: Google Imagens     

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Oxalá!








Por vezes, dou comigo a pensar sobre os caminhos que a vida de cada um percorre.
É de há muito este vício de olhar o rosto de quem passa para perscrutar a turbulência das águas em que navegam. 
Para procurar perceber as angústias e frustrações ou os sonhos e ilusões de que se faz a existência humana.
Porque cada ser humano tem a sua própria idiossincrasia e convive com o seu passado mais ou menos … futuro! Mas, como assim?
Foi Platão, filósofo da antiguidade clássica, que professou que «buscar e aprender, na realidade, não são mais do que recordar …». Esta tese defende que quando nascemos trazemos o conhecimento adquirido em vidas passadas. Platão acreditava que a alma, após a morte, reencarnava em outro corpo.
E por que não aceitar esta tese?
Sou dos que acreditam que, desde o nascimento, teimosamente caminhamos em busca da felicidade. Só dessa forma a vida ganha sentido. Embora o conceito de felicidade não seja igual para cada cidadão. No entanto, sempre nos extinguimos sem a alcançar.
Será por isso que regressamos à «vida» para procurar cumprir o sonho: o de atingir a felicidade plena. Mas, como ela é inalcançável, a vida torna-se numa rotina de existências terrenas, apesar de cada vez mais próximas do objectivo. 

Só assim se compreendem as injustiças que a natureza parece querer ser protagonista. É que sempre me impressionou a injustiça que existe em nascer-se numa família pobre ou numa família rica. Que culpa carregam os que têm o azar de nascer num meio social, económico e politico de má sorte, enquanto outros são beneficiados pela abundância?
Sempre me impressionou o facto de alguns serem dispensados ou rejeitados pela fealdade que exibem, enquanto que a beleza de outros cativa a bonomia e simpatia de todos. Que culpa têm as crianças que nascem em contextos de penúria extrema e com doenças malditas que os castigam desde a nascença, enquanto que outras fruem de uma natureza pródiga em qualidade de vida?
Mais do que as teses religiosas, sobre os desígnios de Deus, acredito no princípio da conservação da massa defendido pelo Químico francês, Antoine Lavoisier, de que «na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma». Que vai no encalço do que defende Platão: de que a vida não acaba na morte provocada por qualquer doença, acontecimento ou velhice. ou seja, «Tudo quanto vive provém daquilo que morreu».
Oxalá!
.
                  Fotos: Google Imagens     

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Instantâneos …


Chegou cedo, como de costume. Sempre antes das oito horas!
Gostava de iniciar o dia quando a maioria ainda rolava pelas estradas ou geria um maior atraso nos seus compromissos. Ainda antes de ligar o computador, admirou o verde jardim que lhe acenava mesmo em frente do gabinete.

A oliveira é a árvore de maior proximidade.
Uma planta bela, apesar de vestida de uma cor de melancolia. Parece não ter pressa de se fazer à vida de adulto. Faz bem.
E, ao pensar assim, veio-lhe à memória que, um dia, alguém lhe tinha confessado que começamos a morrer quando nos tornamos adultos. Enquanto olhava aquele magnifico cenário matinal, gostava de relembrar que, por ali, passarão várias gerações de trabalhadores até que a oliveira atinja esse estado de maturidade.
Naquela manhã, os raios de sol, que lhe iluminavam as folhas, pareciam querer preenchê-la de carinhos. E até o vento, que costumava deambular por ali, sempre apressado, hoje não a quis perturbar. Está ausente … acho que de férias!
Aos poucos, avista a chegada dos carros que transportam mais trabalhadores. Mas o único ruído que perturba aquele momento de contemplação é o som monótono e fundo das máquinas que mantêm a empresa ligada à vida.
O principal objectivo da empresa é o atendimento de doentes. Um local que alimenta de esperança quase todos os que cá vêm. Ele confirmava tratar-se mais de esperança do que de certezas. Por aqui, nasce-se, vive-se e morre-se. Mas é a esperança que está mais presente na alma da gente.
De seguida, a sua vista fixa-se, mais ao longe, nos passos lentos das pessoas que caminham pelo empedrado azul da calçada. Sabe-se lá o que lhes vai na alma. Que direcção tomam as inquietações que carregam os seus rostos. Que angústias envolvem os corações que demandam estas paragens. A vida é sempre uma incógnita, a maioria das vezes, indecifrável!
O dia está lindo. Iluminado por um sol claro e acolhedor. Um sol que, aos poucos, aquece a madrugada fria deste Agosto meio solitário. Deste tempo de silêncios inquietantes. Um tempo que parece interminável, porque feito de esperas. Um tempo de sonhos que vão desvanecendo numa perturbadora melancolia com sabor a saudade!
Está uma manhã calma e serena. Um início de semana que não dá nas vistas. Talvez porque os sons do verão preferem outros contextos e sabores.
A ausência de vento agiganta a inquietude que toma conta dele. Porque há silêncios que magoam. Mas ele tem a certeza que, como este é um local de esperança, o sol vai aquecer… vai aquecer!

                  Fotos: Google Imagens      

domingo, 7 de agosto de 2011

O que mais me intriga ...

                                                                                                                                                               






"(...) O que mais me intriga e dói na nossa morte, como vemos na dos outros, é que nada se perturba com ela na vida normal do mundo. Mesmo que sejas uma personagem histórica, tudo entra de novo na rotina como se nem tivesses existido.

O que mais podem fazer-te é tomar nota do acontecimento e recomeçar. Quando morre um teu amigo ou conhecido, a vida continua natural como se quem existisse para morrer fosses só tu.
Porque tudo converge para ti, em quem tudo existe, e assim te inquieta a certeza de que o universo morrerá contigo. Mas não morre.

Repara no que acontece com a morte dos outros e ficas a saber que o universo se está nas tintas para que morras ou não. E isso é que é incompreensível - morrer tudo com a tua morte e tudo ficar perfeitamente na mesma. Tudo isto tem significado para o teu presente. Mas recua duzentos anos e verás que nada disto tem já significado. "
                                                                                                                       Vergílio Ferreira, in 'Escrever'
(Porque hoje o pensamento voa longe....)

                  Fotos: Google Imagens      

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Teias que a marginalidade tece

Frequentava, na época, a Universidade do Porto. Não fui aluno residente. Beneficiava da simpatia de algumas amiguinhas que me disponibilizavam os «apontamentos» das aulas que não podia participar. Só dessa forma conseguia frequentar a Universidade e, em simultâneo, desenvolver uma actividade profissional.
Um dia, pelo entardecer, seguia, solitário, por uma das ruas da zona dos Clérigos. Em certo momento, deparo com três jovens adultos que, ainda distantes, caminhavam na direcção contrária à minha. Um deles, abandonando o grupo, dirigiu-se-me, de braços abertos. Parei, surpreso, enquanto sentia o abraço inusitado do inesperado cavalheiro. Fiz um esforço de memória para o procurar nas minhas andanças de vida, mas nenhum estímulo despertou qualquer sinal.
O indivíduo, com uma conversa sedutora, determinada e afirmativa, foi-me confundindo com uma catadupa de questões sobre por onde tinha deambulado a minha vida. E, de quando em vez, intervalava a conversa com a repetida questão «Então, não me conhece, pá?».
Ora, a vivência dos meus 22 anos não permitia sonegar, àquela criatura, um diálogo que permitisse estabelecer o elo de ligação que me era sugerido. Pelo que caí na armadilha de antecipar os contextos por onde se fez o meu percurso de vida, a que o meu interlocutor sempre reafirmava ter estado, também, por ali. Acreditei, assim, que tinha sido meu colega no liceu e na vida militar, daí ter-me reconhecido.

Para comemorar o «reencontro», convidou-me, logo de seguida, a tomar «um copo» numa tasca que ficava no fim da rua. A taberna, velha de décadas, estava povoada por um pequeno grupo de enrugados velhinhos que saboreavam umas «malguinhas» de tinto, acompanhado de uns cigarros baratos e catarreiros. O meu «amigo» de ocasião requereu duas malgas, imediatamente após se ter dirigido à pequena e curiosa plateia com um afectuoso: «- são servidos?».
A conversa foi-se desenrolando à volta da vida daquele auto intitulado «futebolista do Penafiel» que gostava de ajudar os amigos, quer fosse mediante a disponibilidade do seu apartamento (sempre que, por razões académicas, necessitasse de ficar no Porto!), quer com dinheiro que, «graças a Deus, tinha de sobra».

Essa pequena nuance do discurso despertou-me uma crescente curiosidade sobre aquela patética figura e, aos poucos, fui-me apercebendo de que estava perante um farsante à caça de incautos. O sinal mais forte da minha desconfiança, foi a insolente insistência em emprestar-me dinheiro e a mal disfarçada tentativa em «segurar» a minha carteira, momentos antes de a tirar do bolso para pagar a conta.

Mas todas as dúvidas se dissiparam perante a inusitada e rápida alteração do discurso, revelada pelo insólito e descarado pedido para que lhe emprestasse «quinhentos escudos».
Foi ali mesmo que desmascarei aquele velhaco, provocando olhares curiosos e atónitos por parte dos presentes. Para além de lhe reafirmar, com arrojo, que ainda não tinha conseguido divisá-lo na minha vida, berrei-lhe que a conversa palavrosa em que me tentava enrolar já me cansava e que tudo terminaria por ali.

Quer a visível irritação daquele farsante, quer a repentina memória dos seus restantes companheiros, turvou a coragem de enfrentá-lo com maior ousadia, pelo que corri, apressado, rua acima, naquele entardecer já iluminado pelas noturnas luzes da cidade.
Temi, no momento, que os três meliantes me alcançassem. Porém, rapidamente cheguei a uma praça mais movimentada, pelo que considerei que o perigo tinha passado. Respirei de alívio quando entrei no transporte de regresso a casa e repousei o pensamento na análise do sucedido.
Aquela experiência de vida despertou-me para um outro lado da sociedade e fez-me compreender melhor as razões porque tantos são apanhados nas teias que a marginalidade tece.

                  Fotos: Google Imagens      

quarta-feira, 27 de julho de 2011

prenúncios de morte ...



No passado fim-de-semana houve prenúncios de mortes violentas, inesperadas ou nem tanto assim: Amy Winehouse, dezenas de jovens noruegueses e alguns americanos.
Sinais de que o mundo mostra-se cada vez mais cansado da vida e prefere os caminhos da morte.
Amy era uma estrela que ameaçava desprender-se do firmamento a qualquer instante. Nos escassos anos de vida comportou-se como se estivesse só no mundo! Apesar das multidões que a idolatravam, sentia-se só! E foi a vivência dessa solidão que a fez pensar no sentido da vida e na libertação de todos os seus fantasmas pela morte. Merece respeito, por essa manifestação de lúcida dignidade. Gostei de a ver na loucura breve em que se detinha. Admirei a sua voz de sonho. Não admira, pois, que tenha preferido novas dimensões para se manifestar em todo o esplendor.
Na Noruega, um demónio à solta calou os rumores de uma ilha de maresia e fez estremecer o centro de Oslo. A vida debateu-se, por momentos, num breve confronto com a bestialidade humana. Fruto de uma doentia visão do mundo. Imperdoável o gesto premeditado de se sentir dono da vida de alguém. Na América, repetiu-se o pesadelo do costume. Nada mais do que já não estejamos acostumados.

Carlos da Gama
                   Fotos: Google Imagens         

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Pressa de viver!

Muitos dos que visitam este espaço virtual, devem sentir-se um pouco defraudados pelo rumo que o mesmo tomou até ao momento.
Pressupostamente dedicado a repositório de viagens em autocaravana, «estrada fora» tem sido parco em textos de confirmação desse objectivo.
Mas, em minha opinião, esta tese não é totalmente verdadeira. Em primeiro lugar, porque todos os textos aqui publicados são pretensas viagens de vida, um repositório de encontros e desencontros, de experiências vividas e de sonhos por concretizar.
Deixar que a imaginação se estenda, em liberdade, por contextos de vida ou aventuras de maresia, é viajar pelo tempo … sem tempo!

Desde que nasce, até que parte para uma outra dimensão, o homem é um ser em permanente viagem. Mas, também, é pertença da natureza, portanto, eminentemente composto de matéria. E, a acreditarmos no princípio da conservação da matéria, enunciado pelo cientista francês, Antoine Lavoisier: "na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”, podemos almejar outras viagens para além das que experimentamos nesta curta existência.
Já deixei por aqui emoções de pequenas viagens efectuadas para o lado do mar. Porque é lá que me sinto mais em casa. É junto do mar que gosto de procurar perceber a razão desta passagem breve pela vida e, sobretudo, de sentir as emoções e as vertigens segregadas por um olhar mais longe ou descomprometido.

Adoro viver a monotonia do rumor do mar, admirar o pôr-do-sol em horizontes matizados, caminhar pelo espraiado contra o vento e sentir a serenidade a entranhar-se em mim quando a solidão se faz companheira. Sem dúvida, este imenso oceano transporta-me para horizontes de liberdade e de maresia. E aumenta a saudade de outras latitudes e de emoções guardadas em segredo, na cumplicidade do oceano e nas confidências da lua.
Mas há outras viagens vividas em frente da tela de um computador. Porque viajar é, acima de tudo, um estado de espírito e um espaço em que a imaginação veste-se de mágicos poderes.

Quase todos os dias viajo na companhia de autocaravanistas por vários continentes. Ultimamente, acompanho, com grande admiração, o casal «Estrela» nessa epopeia em que se tornou a sua «Rota da Seda». Serão oito meses de deslumbramento com os relatos da sua passagem por países quase impossíveis, convivendo com culturas ancestrais, por estradas sem condição, sujeitos a perigos vários como que a lembrar os nossos heróis quinhentistas na descoberta de «novos mundos ao mundo». Estou-lhes grato por me proporcionarem viver emoções fortes, quer despertadas por fantásticas paisagens de territórios inóspitos, quer por monumentos intemporais daquele extraordinário mundo desconhecido.

Sinto, também, uma especial predilecção pelas viagens que muitos autocaravanistas fazem pelo interior meu país. E é aí que constato que o «lá fora!» fica, tantas vezes, a uma enorme distância das excepcionais belezas do nosso território.
Viajar é, sem sombra de dúvidas, a minha praia favorita. Ao longo da vida, visitei vários países na companhia de uma pequena tenda de campismo. Mais tarde, os filhos ganharam novas preferências e foi o tempo de repousar, em instâncias de veraneio, o descanso de um ano de trabalho.
Muito recentemente, cumpri o sonho de juventude, com a aquisição de uma autocaravana. Tinha prometido a mim mesmo adquirir uma casa rolante quando se aproximasse o tempo de me desligar das rotinas laborais. Esse tempo está quase a bater à minha porta! Oxalá chegue logo em liberdade, porque tenho pressa de viver!
    
Carlos da Gama
                                      Fotos: Google Imagens