Hoje, apetece-me muito escrever. Um
turbilhão de emoções e de saudade perpassa a alma por uma viela da vida que chegou
ao fim. Hoje, desejo escrever sobre saudade. Saudade da mãe coragem que partiu suavemente.
Saudade de uma mulher que deu a vida pelos afectos que carregou durante a sua longa
existência. De uma mulher que foi apoio e conforto nas horas aflitas. Que foi mãe todo o
tempo e companheira dedicada e amantissima dos filhos. Uma mulher sofrida e de várias
angústias pelos reveses que a vida lhe pregou. Uma mãe que me deixa órfão de
carinhos e afectos de mãe.
Deixou-nos após uma caminhada
penosa pelos noventa anos que o seu frágil corpo carregava.
Doeu a notícia da
sua morte. Porque sempre pensamos que a nossa mãe nunca morre.Por isso, este é um dia de imensa saudade. O
dia da grande perda. Porque deixo de ter o ombro de afectos, a palavra amiga e de
incentivo, o encanto das histórias da família, a memória de tantos factos
passados, a alegria de estar junto dela. Resta-me a imensa saudade da mãe
coragem. E a dor da sua partida que nunca morrerá.
Mãe, deixaste-me um vazio que
nunca saberei preencher. Porque me falta o teu sorriso e o teu olhar meigo
quando te visitava em casa ou no hospital. Faz-me falta ouvir-te perguntar, com
o carinho maior do mundo, se estava tudo bem. Foi em silêncio de respeito e
angustia que caminhaste a meu lado quando os ventos da tristeza me empurraram
para um destino que não desejávamos. E aí, minha querida mãe, foi tanta a tristeza
que emudeci junto de ti.
Hoje, o meu coração está
comprimido numa força que se quer libertar para gritar, sem pudor algum, que te
amo. Que foste, sempre, a mulher da minha vida de afectos. E sei que a minha
companheira, que tu orgulhosamente gostavas de chamar de filha, compreende bem
esta distinção. Porque foste sempre um farol que alumiou o meu destino desde
que nasci.
Vi-te orgulhosa quando te diziam
que eu me portava bem na escola. E nunca esqueço aquele vermelho vivo da
camisola com que me vestiste quando fui à cidade grande fazer a passagem do
primeiro ciclo.
Sei que lutaste com dificuldades quando
me colocaste no colégio para que o futuro fosse diferente. Nunca encontrarei
palavras para te demonstrar a minha gratidão.
Sei que me viste partir para a
guerra em África com o coração a sangrar. Não esqueço aquele dia em que ambos
fomos ao Porto para comprar o fardamento e nos despedirmos numa jornada de afectos e
saudade. E, também, sempre recordo as cartas que eram portadoras de amor de mãe e
saudades de abraços.
Adorei ver-te o orgulho no olhar
quando consegui a formação universitária e entrei num outro estatuto
profissional. E a forma como te dirigias a mim nesse tempo, de um misto de
honra e conquista, é uma das tuas facetas que mais amo recordar.
Minha querida mãe: como adorava
hoje ter-te diante de mim para te falar de tudo isto. Acho que as nossas longas
tardes de conversas cúmplices não foram suficientes para te dar a entender o
quanto te admirava e te estava agradecido. Agora martirizo-me com esta dor que
a tua ausência provoca. Esta saudade sofrida de saber que nunca mais te posso
dirigir um olhar e de te ver sorrir, apesar da doença que te levou de nós.
Dizem, e eu acredito, que só
morremos quando deixamos de ser lembrados. Daí que eu tenha a certeza de que estás
no meio de nós e nos acompanhas com a tua protecção de mãe que nos fez crescer.
Mãe, obrigado por teres feito parte da minha vida. Permanecerás no cantinho
mais nobre do meu coração. Para sempre!