segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Mãe

                  Mãe,
Como eu não sei rezar
Procuro enxergar o céu
Na ânsia de te encontrar
Na magia do luar
Numa colina sagrada
Onde a dor da tua ausência
É de tanta intensidade
Que queima em permanência
A alma triste, enlutada,
De nostalgia e saudade!

Não tem rumo nem remédio
Este incessante tormento
Melancolia de puro assédio
Que se cola ao pensamento
Mesmo que queira sorrir
Falta-me a luz do olhar
Que levaste ao partir
Para o grupo de ternura
Que, por certo, vai-te abraçar
Ao som duma partitura!
                                                 
                                       Carlos da Gama (Nov. 2014)




sábado, 8 de novembro de 2014

Aceno



Longe,
Seu coração bate por mim;
E a sua mão desenha aquele afago
Que me sossega inteiro …
Longe,
A verdade serena do seu rosto
É que faz este dia inteiro …
Miguel Torga, in ''Diário (1939)'



quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Mãe coragem





Hoje, apetece-me muito escrever. Um turbilhão de emoções e de saudade perpassa a alma por uma viela da vida que chegou ao fim. Hoje, desejo escrever sobre saudade. Saudade da mãe coragem que partiu suavemente. Saudade de uma mulher que deu a vida pelos afectos que carregou durante a sua longa existência. De uma mulher que foi apoio e conforto nas horas aflitas. Que foi mãe todo o tempo e companheira dedicada e amantissima dos filhos. Uma mulher sofrida e de várias angústias pelos reveses que a vida lhe pregou. Uma mãe que me deixa órfão de carinhos e afectos de mãe.
Deixou-nos após uma caminhada penosa pelos noventa anos que o seu frágil corpo carregava. 
Doeu a notícia da sua morte. Porque sempre pensamos que a nossa mãe nunca morre.Por isso, este é um dia de imensa saudade. O dia da grande perda. Porque deixo de ter o ombro de afectos, a palavra amiga e de incentivo, o encanto das histórias da família, a memória de tantos factos passados, a alegria de estar junto dela. Resta-me a imensa saudade da mãe coragem. E a dor da sua partida que nunca morrerá. 

Mãe, deixaste-me um vazio que nunca saberei preencher. Porque me falta o teu sorriso e o teu olhar meigo quando te visitava em casa ou no hospital. Faz-me falta ouvir-te perguntar, com o carinho maior do mundo, se estava tudo bem. Foi em silêncio de respeito e angustia que caminhaste a meu lado quando os ventos da tristeza me empurraram para um destino que não desejávamos. E aí, minha querida mãe, foi tanta a tristeza que emudeci junto de ti.
Hoje, o meu coração está comprimido numa força que se quer libertar para gritar, sem pudor algum, que te amo. Que foste, sempre, a mulher da minha vida de afectos. E sei que a minha companheira, que tu orgulhosamente gostavas de chamar de filha, compreende bem esta distinção. Porque foste sempre um farol que alumiou o meu destino desde que nasci.
Vi-te orgulhosa quando te diziam que eu me portava bem na escola. E nunca esqueço aquele vermelho vivo da camisola com que me vestiste quando fui à cidade grande fazer a passagem do primeiro ciclo.
Sei que lutaste com dificuldades quando me colocaste no colégio para que o futuro fosse diferente. Nunca encontrarei palavras para te demonstrar a minha gratidão.
Sei que me viste partir para a guerra em África com o coração a sangrar. Não esqueço aquele dia em que ambos fomos ao Porto para comprar o fardamento e nos despedirmos numa jornada de afectos e saudade. E, também, sempre recordo as cartas que eram portadoras de amor de mãe e saudades de abraços.
Adorei ver-te o orgulho no olhar quando consegui a formação universitária e entrei num outro estatuto profissional. E a forma como te dirigias a mim nesse tempo, de um misto de honra e conquista, é uma das tuas facetas que mais amo recordar.
Minha querida mãe: como adorava hoje ter-te diante de mim para te falar de tudo isto. Acho que as nossas longas tardes de conversas cúmplices não foram suficientes para te dar a entender o quanto te admirava e te estava agradecido. Agora martirizo-me com esta dor que a tua ausência provoca. Esta saudade sofrida de saber que nunca mais te posso dirigir um olhar e de te ver sorrir, apesar da doença que te levou de nós.
Dizem, e eu acredito, que só morremos quando deixamos de ser lembrados. Daí que eu tenha a certeza de que estás no meio de nós e nos acompanhas com a tua protecção de mãe que nos fez crescer. 
Mãe, obrigado por teres feito parte da minha vida. Permanecerás no cantinho mais nobre do meu coração. Para sempre!