sábado, 20 de dezembro de 2014

A casa da mãe!





 
Num silêncio envolto em saudade, tenho visitado, nos últimos tempos, a casa que foi o berço onde nasci, o canto de afectos partilhados e onde encontrava a mãe sempre de gesto meigo e acolhedor.
Logo que chegávamos, manifestava preocupação com pormenores que acrescessem aconchego à nossa presença. Por exemplo, na época do frio, fazia questão de atiçar um pouco mais o fogão, acrescentando-lhe lenha para que o ambiente exibisse maior conforto. Depois, seguia-se um convívio feito de diálogos, quase sempre repletos de memórias vivas do passado da família e que, fatalmente, desaguavam nos afectos que tinham precocemente partido. 
Era nesse espólio de memórias que o tio Hilário e o tio Armindo emergiam como figuras de cartaz das lembranças de saudade. Tinham sido os irmãos mais queridos com quem partilhara uma vida feita de sacrifícios, penúria económica, incertezas e inquietações, aqui e ali, salpicada com intervalos de felicidade fraterna.
A mãe revelava tanta preocupação pelo bem-estar dos filhos que, por vezes, roçava a obsessão. Mas era o seu jeito protector e de desvelo, sempre vigilante, para que os seus rebentos fruíssem de uma vida feliz.
Até que chegou a sua vez de partir. A dor da sua ausência acantonou-se no quotidiano dos afectos mais próximos e que agora partilham uma saudade feita de desgosto e de mágoa. Mas permanece a memória de um sorriso sempre embrulhado em ternura e numa suave inquietação que só sossegava quando conferia que a vida dos seus filhos seguia o curso normal. Subsiste, também, a casa que habitava que, ao longo dos anos, transformou num aprazível ponto de encontro e num refúgio de maternal afeição.
A nossa mãe era o cimento que agregava as contradições que emergiam na variedade de temperamentos da sua prole. Era o mar onde desaguava o turbilhão de alegrias e tristezas, de insucessos e conquistas ou de derrotas e vitórias de toda a sua familia. Dela obtinha-se sempre uma palavra de incentivo, de apoio, de solidariedade e de ternura. Nunca de admoestação.
Hoje, a casa da mãe está vazia. Já lá não mora a rainha de afectos e a conselheira de todos os momentos. Quando lá entro, comove-me a solidão da cadeira onde sempre a encontrava. O próprio fogão parece estranhar o ambiente gélido a que não estava habituado. Perturba-me não ouvir a sua voz meiga a relembrar as histórias, mais alegres ou soturnas, que a sua longa vida partilhou. E o arrebatamento, misto de orgulho e ternura, quando falava da sua neta mais presente, a Ana Maria. Torturo-me por já não lhe poder responder que o Carlitos e a Joaninha são netos felizes e que muito a admiram. E por já não lhe ouvir as novidades dos meus irmãos de França.

E invade-me uma imensa tristeza por já não lhe perceber a ternura, forrada em desejo, que colocava no desabafo, tantas vezes repetido: «- a Leonor deve estar a chegar!».
Uma das preocupações que comigo partilhou foi sobre o destino da casa onde sempre vivera, evidenciando o desejo que a mesma não fosse alienada. Esse seu anseio será concretizado, pois, a casa não será negligenciada ou abandonada. Continuará a ser um ponto de encontro e um repositório de emoções. Ali nos reuniremos num abraço fraterno e na partilha de afectos dos que mais contam nas nossas vidas. Continuará a ser a casa da mãe!

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Companheiro de eleição!






Este rio é de águas cristalinas e serpenteia sem esforço até à foz. 
Âncora, de seu nome, a doce transparência do veio de água dá a conhecer o deslumbre das tainhas ou negrões que saltam efusivamente reflectindo ao sol a parte do seu dorso mais prateado.
Ladeando o rio até perto da foz, estende-se uma espécie de capim ou de campo de trigo doirado, emprestando-lhe um bucolismo que impressiona.
Um passeio pela ponte, já meio vandalizada por forasteiros do alheio, embrenha-nos para uma quase ilha verde que se percorre por cimo da levada de madeira. 

Mas este curso é interrompido bruscamente por uma falésia de areia donde se avista, à esquerda, a curvatura do Âncora.
À direita é o largo mar que se desfaz em resmungada espuma.
Em vez de percorrer a praia, decido subir o morro para tomar um outro passadiço, sobranceiro ao oceano, que vai desaguar no parque de estacionamento da praia da Gelfa. 
Apeteceu-me correr, na liberdade da brisa fresca da manhã, sorvendo os odores da flora que, pela abundância e ausência de uso, começa a invadir a estreita estrada de madeira.
Vejo-me por entre uma multiplicidade de cores, desde o azul do mar e o céu pontilhado de pequenas nuvens brancas, ao verde forte dos arbustos que ladeiam o passadiço. 
E aí, o meu pensamento voa em liberdade por marcantes memórias recentes da minha vida.

A Tonicha preferiu permanecer na margem do Âncora, não só, a apreciar o bailado das tainhas nas águas transparentes, mas também, acordando memórias do tempo de infância dos nossos afectos, quando por cá veraneávamos, por uma boa quinzena, e povoávamos este paradisíaco local.
É neste remanso que leio a poesia de Miguel Torga, escritor que me acompanha há bastante tempo numa luminosidade literária que me deslumbra. Tem sido um companheiro de eleição!

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Dono do tempo!






Manhã primaveril, em Vila Praia de Âncora. 
O sol emergiu bem cedo convidando-nos a um passeio marginal até à praia da Gelfa. Apesar da amenidade do tempo, o mar mostra-se inquieto, desdobrando-se de alva espuma ao longo do espraiado.
É retemperador este sol de fim do Outono, a contrastar com os longos dias de chumbo em que a chuva e o frio transformaram as últimas semanas.
Connosco estão alguns autocaravanistas franceses que fugiram aos rigores do tempo do seu país. Ao nosso lado, logo pela manhã, o ringue de futsal estava animado por um grupo de jovens barulhentos. 
Mais à frente, algumas crianças exercitam o corpo no parque cheio de diversificadas modalidades lúdicas. 
Na margem direita do Âncora, um pescador solitário exibe a cana com um excelente negrão acabado de pescar.
Atravessamos a ponte e percorremos a longa praia sob um sol morno e com o oceano em contínuo bulício. 
Apenas a Tonicha e o Kiko fazem-me companhia neste fim de Outono de cara feliz. Também eu me sinto feliz por ter o ensejo de ser dono do tempo!

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Mãe



«Mãe:
Que desgraça na vida aconteceu,
Que ficaste insensível e gelada?
Que todo o teu perfil se endureceu
Numa linha severa e desenhada?

Como as estátuas, que são gente nossa
Cansada de palavras e ternura,
Assim tu me pareces no teu leito.
Presença cinzelada em pedra dura,
Que não tem coração dentro do peito.

Chamo aos gritos por ti — não me respondes.
Beijo-te as mãos e o rosto — sinto frio.
Ou és outra, ou me enganas, ou te escondes
Por detrás do terror deste vazio.

Mãe:
Abre os olhos ao menos, diz que sim!
Diz que me vês ainda, que me queres.
Que és a eterna mulher entre as mulheres.
Que nem a morte te afastou de mim!»
            Miguel Torga, in «Diário IV»

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Mágoas de orfandade!


(CG)

           
Olho este mar demasiado inquieto
Vem fustigado por um vento veloz
O seu assombro eu quero por perto
Nunca me canso de ouvir a sua voz!

Observo o horizonte além da bruma
Meu pensamento distrai-se por lá
Parece que a neblina já se acostuma
À imensa tristeza que não findará!

Perseguindo a custo o areal deserto
Não almejo vivalma, tão-só solidão
Indago às musas pelo céu encoberto
Onde andam os afectos do coração!

Meu sonho de espuma foi remexido
Pela nostálgica e taciturna saudade
Escrevo na areia um sofrer sentido
Por soturnas mágoas de orfandade!

                     Carlos da Gama (Dez. 2014)