quinta-feira, 9 de março de 2017

A vida é uma lição






«Desde a primeira hora que adivinho a desilusão de hoje. Foi um pressentimento vago, mas teimoso. E, afinal, todas as minhas previsões se confirmaram. A razão tem-me enganado muitas vezes. A intuição, nunca.»

Miguel Torga, in Diários XV


Gosto de, uma vez por outra, rumar até junto das águas mansas do estuário do Cávado para elevar a memória aos confins da fantasia. É nesses momentos, de pura introspecção, ou de solidão acompanhada, que a vida se desfaz em vento dispersando a bruma de um passado que já não reconheço.
Perdi a ousadia de revisitar contextos em que me achava dono do tempo. Mais recentemente, a fotografia achou-se desfocada. Num instante sem retorno.
E só em pensamentos fugazes é que revivo alguns tomos de dias felizes do meu passado morto. Sabendo que o pior e o melhor de nós perdura quase sempre na memória dos outros.
E esse é o momento para tudo questionar e pôr à prova. Do que se passou em décadas distantes, resta, tão só, o que é nuclear em presenças, ternura e afectos. 
Porque a vida é uma lição que só se aprende, definitivamente, quando já não sobra mais tempo.


terça-feira, 7 de março de 2017

Vigilia






Altas horas da noite.
Acordado,
Rememoro o passado,
Analiso o presente
E adivinho o futuro.
Procuro,
Humanamente,
Dar sentido
Ao que fui,
Ao que sou
E ao que serei.
Mas a minha verdade
Não tem a claridade
Da razão.
É esta aflição
     Continuada
     Que no meu coração
     Bate descompassada.
                 
 
                            Miguel Torga (Diários XV)




segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

É assim que me sinto hoje!



CG

 Que bela melodia vem deste dia ensolarado de Fevereiro. Que vontade de ir para junto do mar e caminhar perto dele numa solidão de fragrâncias festivas. 
Que ânsia de correr pelos prados verdes de um destino previsível. Que desejo de levar a saudade a tiracolo e correr paisagens e linguajares de outras latitudes.

Quando o inverno nos surge morno e fresco, vestido a luz do sol, saberemos que não tardam os dias longos de florida primavera. E, se os sons épicos de um piano próximo nos faz sonhar, sentimos na alma o que um dia Winston Churchill escreveu: «Somos donos do nosso destino, somos os capitães da nossa alma». 
É assim que me sinto hoje!

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Um destes dias tive um sonho

CG



«A única coisa que leva da vida é a vida que você leva»
Davi Calvacanti

O sonho é «uma constante da vida», tal como canta Manuel Freire. E a utopia que lhe enche a alma persegue-nos desde que tomamos conta de nós.

Mas é na adolescente-juventude que o mundo se revela uma conquista deslumbrante. Tudo é descoberta. Sonhamos com contextos platónicos e projectamos neles a força do destino.

Há o sonho da feliz união a dois, a que se segue o sonho de gerar os filhos mais predilectos do mundo, o da carreira profissional sustentada, o da longevidade dos nossos maiores, o das viagens adiadas e muitos mais sonhos que nos empolgam e dão força ao equilíbrio emocional perante as adversidades da vida.

Mais lá ao longe emergem desencantos, impensáveis desenganos, oportunidades perdidas e contrariedades imprevistas. E tudo isto, porque a vida vai-se transformando numa contínua despedida das pessoas e coisas que amamos desde o nascimento. E aí, sentimo-nos mais sós numa caminhada de ilusões de que se avista o epílogo.

Chegamos à idade madura e sentimo-nos algo cansados pela espera interminável da ambição de uma felicidade total, apesar do mundo seguro que fomos construindo. Mas o sonho continua a iludir-nos com um amanhã «de sonho». E a vida habitua-se.

Um destes dias tive um sonho. Porém, não me lembro de me ter encontrado nele.