sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Prenúncios …



Como é belo este lugar onde misturo a natureza verdejante, o rio silencioso que se alarga até à foz e o casario onde regressam os obreiros desta vida vivida ao vento.
Um monótono ruído de motor, mais ao largo, esforça-se por levar a água do Cávado aos campos sedentos de seiva. Aqui perto, um bando de crianças, em pose colegial, recebe este sol de Outono junto do veio de água da Barca do Lago.
Na estrada lateral passa um tractor em ruidosos solavancos na demanda dos deveres agrícolas de que esta terra é pródiga.
Há, por aqui, um silêncio que se eleva por cima dos campos e do casario que dá pitoresco a esta terra de lavoura e gado. O rio exibe, lá em baixo, a sua levada silenciosa e quase triste pela ausência de companhia. As árvores, que embelezam esta margem, estão ainda cobertas de um verde de verão que se vai esvaindo aos poucos. Não faltará muito para que iniciem o avassalador percurso para um tempo de ausência de quase tudo. As chuvas que, por estes dias, inundaram os campos e ruas são o prenúncio precoce da aproximação da estação multicolor e decadente. Toda a natureza iniciará, a partir de então, um tempo de agonia lenta e de adormecimento gélido. Mas, no meio de toda esta nostalgia mora a esperança de um retorno à vida. Mais cedo, que tarde!


sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Viagem

Souiria Kdima (Marrocos - 2013)

Viagem  
É o vento que me leva.
O vento lusitano.
É este sopro humano
Universal
Que enfuna a inquietação de Portugal.
É esta fúria de loucura mansa
Que tudo alcança
Sem alcançar.
Que vai de céu em céu,
De mar em mar,
Até nunca chegar.
E esta tentação de me encontrar
Mais rico de amargura
Nas pausas da ventura
De me procurar...
                                                                                                                 Miguel Torga, in 'Diário XII'

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Seres errantes ...





 
Adoro este odor, feito cocktail de cheiros silvestres com maresia, que emerge do capim dos campos que ladeiam a caminhada matinal de Vila Praia de Âncora a Moledo do Minho.

Está uma manhã cálida, apesar do sol se ter refugiado por detrás das nuvens. 
A pista que percorro transporta vários veraneantes, quer em marcha, mais ou menos apressada, quer de bicicleta, quer em corridas esforçadas a suor.

O mar mostra-se ao lado entretido na labuta diária de empurrar, cadenciadamente, as águas contra as rochas deste recanto do meu país. 
É aqui que buscamos as saudades de outros momentos que fazem a melhor memória das nossas vidas. 
Era cá que, na juventude, exercíamos a liberdade selvagem em campismo postado mesmo junto ao Forte de Âncora. 
Mais tarde, quando os infantes careceram de maior conforto, o veraneio fez-se em casas alugadas à quinzena. 
Agora, a Micha acolhe-nos e transporta-nos para os locais que, a cada momento, mais desejamos.
 

Trata-se de uma modalidade de turismo de proximidade que permite viajar pelo mundo de forma apaixonante. Enquanto é tempo!

Vila Praia de Âncora encontra-se engalanada por força dos festejos gastronómicos, com o Espadarte a pontificar no cartaz, por alguns dias.
A tarde vai-se esvaindo lentamente. 
O sol pálido desce no horizonte até passar a fronteira de outras latitudes. Ainda aquece o ambiente, apesar do vento agreste que fustiga as águas deste mar de muitos rochedos.

Um bando de gaivotas pousa junto da rebentação, talvez à espera que as águas recuem para uma baixa maré que lhe descubra o sustento que carecem. 

Por estes dias, conhecemos o José, nosso vizinho no bairro de autocaravanas. 

Homem solitário, de idade avançada, todos os dias aguarda o recuo do mar para recolher o marisco que mais aprecia: os percebes. 

Conhecedor de meio mundo, o José passa mais de metade do ano na sua casa rolante, sempre colado à costa portuguesa. 

Em Novembro refugia-se no Algarve para aí passar o inverno, beneficiando de um clima mais ameno. 

A vida está cheia destes seres errantes que se habituaram a conviver bem com os silêncios que construíram durante a vida.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

viajar é preciso ...


«A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos não é o que vemos, senão o que somos.»

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Novas fronteiras …




De quando em vez, a nostalgia não o larga. Vem com uma saudade que o emudece e um devaneio que o atormenta. Ainda não conseguiu encerrar o capítulo que abandonou lá atrás.
Por vezes, a memória reprime-o quando faz emergir contextos dispensáveis. Como que a lembrar a necessidade de esquecer a inquietante nudez de cada momento. E de desprezar os olhares que o rondavam e que dissimulavam o veneno que havia de ser derramado algures.
Sempre recorda que, ao seu redor, gravitavam almas tristes, propensas ao desânimo e portadoras de uma coexistência ressentida. E que foi, em certos momentos, adulado por vidas sem luz que o iludiam com falsos afectos de submissão cobarde e oportunista. Mas, para si, isso já não constituía novidade. Há muito que confirmara que cada pessoa é um mistério e um abismo de incógnitas e incertezas.
Pressentia, naquele tempo, a ilusão do embuste. Aprendeu que o ser humano é um enigma difícil de decifrar. Compreendeu que a vida é uma brisa de vento breve. Descobriu que a luz só é perene no seio dos afectos nucleares. Decidiu não confiar a alma ao diabo, não abrir o peito às balas e ignorar a insidiosa poeira do tempo.
Passou a ser mais exigente com o carácter e a amizade, após um longo período de aprendizagem sofrida. Foi um caminho lento até ao cabo das tormentas, desafio maior de toda a vida. No percurso, deixou a pele espalhada pelas ásperas ramagens do desassossego.
A perspectiva a que se impunha era totalmente contrária ao que sempre tinha imaginado. Mas tudo se consumou. De repente, viu-se num horizonte mais brilhante, navegando por sobre águas tranquilas. A rota tinha sido alterada. Os sonhos eram de outra cor. A vida ganhara novas fronteiras ...