segunda-feira, 7 de abril de 2014

O sonho maior




CG- pôr do sol em Souiria Kdima (Marrocos)

Esta jornada que por aqui mora
Afastou de vez os biltres banais
E os primatas que alojei outrora
Desfeitos em vento e vendavais!

Essa memória custa a passar
E a solidão não esmorece
Há demasiada tinta a divagar
Em saudades que a vida tece!

Restam sons de mágoas frias
E brisas breves a esvoaçar
Há silêncios de luas macias
E serenas águas de cismar!

Desfruto devaneios sulcados
Em paisagens de pasmar
Rostos quentes, encantados
E linguajares de sol e mar!

Esta quimera de ser peregrino
Deixou de ser apenas miragem
O que demando não é o destino
O sonho maior é toda a viagem!

quinta-feira, 27 de março de 2014

O sítio das ondas gigantes



Tarde quente, de quase verão, na cidade da Nazaré. 
O mar está alterado e arrasta muitos curiosos, de máquinas fotográficas a tiracolo, na admiração das ondas de 4-5 metros de hoje. 

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Esta praia, mundialmente conhecida por albergar o «canhão da Nazaré», cresceu em celebridade após o norte-americano Mcnamara aí ter surfado uma onda de mais de trinta metros. 
O chamado «canhão da Nazaré» é um dos maiores vales submarinos do mundo, que se prolonga por cerca de 200 kms e atinge uma profundidade superior a 5 mil metros. 
Google
 
É este grandioso acidente geomorfológico que provoca alterações a nível dos sedimentos. 
Tal fenómeno faz com que as ondas consigam viajar pela falha geológica a uma maior velocidade, oferecendo um espectáculo de dimensões gigantescas na Praia do Norte da cidade da Nazaré.

Também desta bela praia se avista o lendário «sítio» de onde D. Fuas Roupinho interrompeu bruscamente o seu cavalo, ao aperceber-se estar junto ao precipício, segundo dizem, por milagre da Senhora da Nazaré. 

Não por acaso, as excursões, para o sul do país, que se faziam na minha infância, tinham como ponto de paragem obrigatório a Igreja da Senhora dos Navegantes, da cidade da Nazaré.

terça-feira, 25 de março de 2014

Azul de mar



 
Chegamos, já a tarde tinha feito caminho. Mas deu ainda para um passeio pela marginal da Lagoa de Óbidos. 
Este é um dos locais a que regresso sempre que a saudade puxa pelas emoções. 
Por cá andei, pelos meus verdes anos, quando me preparava para a guerra colonial. 
Há momentos passei pelo aquartelamento onde permaneci durante os três primeiros meses do ano de 1973. 
Ao rever aquela instituição militar, um vulcão de emoções sacudiu-me a memória.

Já passou tanto tempo … e a sensação que me invade é de que tudo aconteceu há escassos dias!
O tempo, essa incógnita da vida, é como um rio que corre inexoravelmente para a foz. 
Só damos conta da sua passagem quando o espelho reflecte a imagem que custa a aceitar.
A Foz do Arelho é também memória de afectos. Para aqui trazia a minha gente, de tenra idade, na busca de brisa fresca de verão e de dias felizes.
O longo passeio em torno da Lagoa continua a ser de pura maresia e liberdade. 
Apetece aspirar o ar morno do entardecer enquanto perpassam pela memória alguns dos mais belos postais esquecidos na poeira do tempo.
S. Martinho do Porto, ali ao lado, que conheci ainda como o «penico dos burgueses», é hoje um recanto de multidões. 
Apesar de algumas elegantes moradias, da burguesia lisboeta do passado, que resistem ao tempo, proliferam construções em altura que lhe desfiguram a sua beleza primitiva. 
Mesmo assim, é retemperador alargar a vista pelo areal da concha e mirar o oceano a autoflagelar-se contra as arribas da entrada na baía.
Lembro bem: S. Martinho do Porto ganhou importância em mim por via do Frederico Manuel, meu companheiro de armas na Guiné-Bissau. 
Foi lá longe, nas conversas quentes regadas a whisky e cerveja, que o Frederico falava da sua terra com paixão e saudade.
S. Martinho do Porto em dia luminoso, como o de hoje, é um encanto. A porta que permite a entrada do atlântico para a concha lá está de ombreiras graníticas e águas agitadas de azul de mar.

sexta-feira, 21 de março de 2014

Sonhos de areia




Gosto de retornar a este enorme recinto, junto da marina da Praia da Rocha. O areal está quase deserto de gente. Existe sol em abundância, mas a brisa fresca e a agitação das águas afasta as pessoas. Daí que o passeio, por entre as rochas douradas, seja de maior liberdade e maresia.

Durante a caminhada, um ou outro casal mais aconchegado às falésias fazem-me compreender que não estamos sós. 
De repente, surge pela frente um homem idoso, munido de uma geringonça de detectar metais e com uma pequena enxada ao ombro. 
Caminhava cabisbaixo, a sondar as areias, sempre na expectativa de que o aparelho emitisse algum sinal para, de seguida, cavar a área e encontrar qualquer «tesouro» perdido por turista mais incauto.
Aquela figura franzina trouxe-me à memória as «picadas» na Guiné, quando sondavamos qualquer mina assassina, ao tempo de guerra colonial. 
Mas, de igual forma, a expectativa, estampada naquele rosto enrugado e de tez morena, pareceu-me com a dos garimpeiros da selva amazónica que dedicam a vida ao sonho de um «tesouro» saído das areias removidas pelo suor da ilusão. 
Foi o esvoaçar de um bando de gaivotas que desviou o meu cismar para outras latitudes e a fruir o momento.
No passeio pela marginal, vimos pessoas a caminhar lentamente e outras com um ritmo mais ousado. 
As conversas que passam por nós têm o sabor de diversos idiomas europeus. 
De quando em vez, o vento é mais forte. Mas o sol, luminoso e quente, não o deixa incomodar. 
Está uma manhã que faz esquecer o inverno do nosso descontentamento.
O autocaravanismo é isto: percorrer territórios, admirar paisagens, buscar afagos do sol, caminhar por praças e avenidas, apreciar a gastronomia local e registar instantâneos para memória futura.