terça-feira, 10 de junho de 2014

Auschwitz-Birkenau: a infâmia morou aqui!





 
 Era um dos principais objectivos da viagem: a visita aos campos de extermínio humano de Auschwitz-Birkenau. Um local que, seguramente, não deixa ninguém indiferente!

Desde Carcóvia – onde pernoitamos – até Auschwitz, fizemos cerca de 60 kms. 
Na aproximação a esta pequena localidade da Polónia (Oswiecim) choveu ligeiramente e o céu apresentou-se carregado de nuvens primaveris.

As florestas que ladeiam a estrada, bem verdejantes, pareciam tristes: O nevoeiro que se formou e os pensamentos que me assaltaram naquele percurso tornaram o ambiente bem mais carregado e soturno.

Começamos por visitar o Campo de Concentração de Auschwitz, onde pudemos compreender melhor a máquina de morte, montada pelos nazis, numa dimensão de terror inimaginável. 
Um holocausto pensado ao pormenor por um regime déspota e hediondo.


É impossível esquecer os espaços envidraçados onde se acumulam milhares de sapatos das crianças que as SS gaseavam, e os cabelos de mulheres cortados minutos antes de serem introduzidas nas câmaras de morte.

Arrepia imaginar as sub-humanas condições de higiene, quer na acomodação dos prisioneiros nos barracões em espécies de beliches colados uns aos outros numa sequência que retirava qualquer ilusão de privacidade. 

Mas também os espaços destinados à satisfação das necessidades fisiológicas eram aviltantes para seres humanos: várias filas de buracos e uma vala colectora de dejectos por debaixo deles, o que tornaria o ambiente fétido e nauseabundo.

Arrepia saber que milhões de pessoas foram mantidas em condições terríveis, passando fome e frio, cheias de doenças, submetidas a regimes duríssimos de trabalho e tratados como animais até que chegasse a sua vez de morrer.


Arrepia toda a máquina de morte que diariamente se alimentava dos indesejados pelo regime. 

Arrepia, sobretudo, fazer um exercício de retrospectiva e não encontrar razões para toda esta barbárie, que foi cometida, anos a fio, sem que o mundo se apercebesse.



 A entrada dos comboios de deportados bem dentro do Campo de Concentração, o arame farpado que o cercava e as torres de vigia em cada cem metros, esmorecia qualquer pretensão de fuga. 

Uma vez ali chegados, a maioria dos idosos, mulheres e crianças era conduzida para a secção de morte por gás e, posteriormente, cremados em fornos que funcionavam continuamente. 

Aqui foram assassinados cerca de um milhão e cem mil judeus, juntamente com mais algumas centenas de milhares de outras minorias étnico-religiosas, deficientes, homossexuais e opositores políticos do regime.

Ao longo da minha vida, vi filmes e li muito sobre a II Guerra Mundial e sobre os crimes cometidos pela Alemanha nazi. 

Mas estar aqui, ver objectos que pertenceram a prisioneiros assassinados, ver os barracões com aquelas espécies de camas, num ambiente sufocante e imundo, ver as condições de higiene sub-humanas, ver tudo isto e muito mais, é constrangedor e opressivo. 


É medonha a sensação que sinto de «presenças» desse tempo, avivada pelos milhares de fotos de prisioneiros exterminados.

A crueldade, aqui cometida, foi desumana porque nos choca compreendê-la como fenómeno humano. 

 Como foi possível que Hitler tomasse o poder na Alemanha, instaurasse um regime de terror e desencadeasse a mais mortífera guerra da História? 

E, se atentarmos na tese religiosa, como se poderá sustentar que, como reza a Bíblia, «o homem foi feito à imagem e semelhança de Deus»?

Edgar Morin, escreveu, numa das suas obras, que nós, seres humanos, «somos "homo sapiens", porque somos racionais, produtores de conhecimentos  e de muitas outras coisas, mas somos também "homo demens", porque somos capazes das maiores loucuras». 

De facto, só a demência pode estar no centro deste comportamento cruel e hediondo do nazismo.

 Da visita a Auschwitz-Birkenau guardo a lembrança inapagável das horas de angústia que ali passei naqueles campos medonhos, hoje transformados em museus.

 Não será por acaso esta dificuldade que sinto em encontrar palavras para expressar emoções e ideias. 
Porque Auschwitz, museu que ilumina facetas obscuras da degradação humana, coloca-nos perante a quase impossibilidade de transmitir o que se sente ao descobrir o que ali aconteceu.

Impressionou-me a presença de muitos jovens, de várias nacionalidades, em visitas de estudo, o que contribui para que a memória da barbárie perdure nas consciências e no tempo. 

Comoveu-me, particularmente, a postura de um grupo de jovens israelitas, cada um empunhando garbosamente a bandeira do seu país, entoando cânticos de fé, num recolhimento de respeito pelos seus antepassados que ali foram barbaramente assassinados.

Passados que estão cerca de 70 anos deste crime contra a humanidade, é importante que estes campos de extermínio, como tantos outros semeados pela Europa central, sejam visitados pelas gerações do presente e do futuro, para que nunca seja esquecido o que o homem foi capaz de fazer ao seu semelhante. 

 E para que a memória desta imensa barbárie perdure!









domingo, 8 de junho de 2014

Varsóvia




 Uma boa surpresa, a capital da Polónia. Uma cidade moderna nas margens do Rio Vístula. 


A visita a Varsóvia iniciou-se no Monumento às Vítimas e aos Executados do Leste e ao que resta do muro e dos terrenos do antigo «Ghetto de Varsóvia», bem como, os monumentos que comemoram os locais onde aconteceu o martírio dos judeus ao tempo da II Guerra Mundial, como o «Monumento dos Heroís do Ghetto».

 
Depois, passeamos pela «Cidade Velha», um dos mais belos conjuntos arquitectónicos de Varsóvia, completamente destruída na II Guerra Mundial e rigorosamente reconstruída pelo povo polaco.


 
Parece-me, no entanto, que os horrores que a cidade sofreu sob o jugo nazi e os milhões de mortos, em condições miseráveis, mereceriam uma mais ousada exibição dessa memória.


Não podemos esquecer que a principal resistência armada judaica frente ao genocídio nazi, ocorreu em Varsóvia, a cidade com a maior população judaica no período que antecedeu a guerra e cujo gueto chegou a abrigar mãos de 300 mil habitantes.


A revolta, que ficou conhecida como o «Levante do Gueto de Varsóvia», teve inicio em Abril de 1943 quando o Gueto já contava com somente 15% da sua população original e tendo sido a maioria deportada para o extermínio no campo de morte de Treblinka.
A parte antiga da cidade, que visitamos demoradamente, situa-se ao redor da medieval Praça do Mercado. É uma praça próxima do rio e repleta de casas renascentistas e barrocas.  
Com quase 2 milhões de habitantes, Varsóvia surpreende pelas largas avenidas, pelos parques verdes bem tratados e pela beleza e monumentalidade dos edifícios da cidade nova. 

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Mielno, Gdánsk e Malbork









Entramos na Polónia no dia anterior à santificação do Papa João Paulo II.
 E, por isso mesmo, o país manifestava-se feliz pelo acontecimento. 
Em todos os locais por onde passamos, as bandeiras da Polónia e do Vaticano enfeitavam as Igrejas e outros locais de fé. 
E deu para perceber que neste país o cristianismo tem muita força!
Fizemos a entrada pela costa do Báltico e foi em Mielno que passamos a primeira noite. É uma linda Vila de pescadores que tem o turismo à flor da pele. 

No dia seguinte, partimos em direcção a Gdánsk, moderna cidade, de cerca de 500 mil habitantes. 
Foi ali que, no ano de 1980, nasceu o «Solidariedade», o único sindicato independente da antiga Europa de Leste (comunista). 
Este sindicato polaco e o seu dirigente Lech Walesa tornaram-se muito conhecidos não só na Europa como no mundo inteiro na sequência do movimento grevista (inédito no mundo comunista) dos trabalhadores do estaleiro de Gdánsk durante o Verão de 1980.
Mas foi em Malbork, a cerca de 50 kms de Gdánsk, que decidimos terminar o dia. 
Aqui, admiramos o castelo, exemplo clássico de uma fortaleza medieval, considerada a maior muralha da Europa.
Em Dezembro de 1997, a UNESCO designou o «Castelo da Ordem Teutónica em Malbork», e o seu museu, como Património Mundial da Humanidade.


quarta-feira, 4 de junho de 2014

Berlim





Berlim constituía uma das expectativas elevadas nesta viagem aos locais mais simbólicos da II Guerra Mundial. Para além da monumentalidade arquitectónica, espalhada por toda a cidade, pretendíamos visitar os locais de memória das atrocidades cometidas pelo regime nazi.

Iniciamos o périplo pelo «Check-Point» americano do tempo da guerra fria. 
Era ali que se situava uma das fronteiras de Berlim do pós-guerra, quando a cidade foi territorialmente dividida pelas potências vendedoras do conflito: Estados Unidos da América, França, Inglaterra e União Soviética.

O «Check-Point», ainda está povoado com militares dos EUA que, assim, fazem perdurar a lembrança do tempo em que o mundo ficou suspenso pelo ódio, medo e desconfiança entre os povos.
Seguiu-se, depois, a obrigatória passagem pela «Topografia dos Terrores», uma exposição de testemunhos fotográficos e históricos da barbárie nazi e de um pedaço do «Muro de Berlim» com cerca de 100 metros de cumprimento.

Aí podemos observar e reconstituir o hediondo regime e os horrores de que foram capazes os seguidores de Adolf Hitler.
As palavras, uma vez mais, soçobram perante a crueza das imagens que observamos. 
Faz bem a Alemanha expor ao mundo as atrocidades cometidas em seu nome por seguidores de um regime demoníaco e infame.
Custa a suportar ver muitos dos testemunhos aí expostos. 


Fica a perplexidade e sobram as questões sobre a verdadeira natureza do ser humano: Como foi possível aquela barbárie contra milhões de indefesos e inocentes? 
Como foi possível suportar a tese racista de que, pelo nascimento, uns são superiores a outros? 
Como é possível que pessoas comuns tenham abraçado a ideologia nazi e se transformado em senhores da vida e da morte sobre outros seres humanos? 
Onde foi recolhido tanto ódio e tamanha indiferença perante o sofrimento de milhões de inocentes? Como foi possível acontecer tudo isto?
Ao abandonar aquela magna exposição de horrores, retomei o caminho com os pensamentos em contra-ciclo e com a convicção, cada vez mais arreigada, de que o homem é um ser vivo labiríntico e complexo e que o mundo é um local perigoso. A história das civilizações confirma perfeitamente esta tese.
Passamos, em seguida, pelo «Memorial do Holocausto», localizado na região do Portão de Brandemburgo e que foi construído em memória dos milhões de judeus assassinados pelos nazis.

Mas Berlim tem mais, muito mais a mostrar ao visitante: magníficos parques verdes (como o Tiergarten), monumentos incontornáveis e que se transformaram em ex-libris da capital da Alemanha (como o Reichtag e a Porta de Brandenburg). 
A imponência e beleza dos prédios modernos da Potsdamerplatz, totalmente reconstruída após a queda do Muro de Berlim, e da Alexanderplatz, grande praça aberta e terminal de transportes públicos no centro da cidade, próxima do rio Spree, são testemunhos de modernidade da capital da Alemanha. 
É por este rio (Spree), que decorre pelo centro da cidade e passa pelos principais pontos turísticos, como a ilha dos museus, o parlamento e a catedral, que os barcos se passeiam sempre apinhados de turistas.
Nas proximidades da Alexanderplatz, encontram-se a Torre de Televisão, com 368 metros de altura e o centro comercial Alexa, um dos maiores de Berlim.
Berlim não cansa e é uma das mais fascinantes capitais do mundo, onde a riqueza do passado se conjuga com as linhas vanguardistas do presente. 
Fica uma certeza: não será a última vez que visitarei esta magnífica cidade europeia.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Potsdam





- «Fecha os olhos e ouve os pássaros!» - foram as palavras embevecidas da Tonicha, há momentos. 

Estamos no início do descanso de uma caminhada, de cerca de 3 horas, pelo Park Sanssouci, de Potsdam, composto 

por palácios, estruturas arquitectónicas e complexos jardins de variadas épocas. 

O sol ainda nos faz companhia e, lá fora, os pássaros deleitam-nos com um chilreio de magia.

Na cidade de Potsdam, que dista menos de 40 kms de Berlim, ocorreu a célebre «Conferência de Potsdam», entre 17 de Julho e 2 de Agosto de 1945, após a rendição alemã, em 8 de Maio de 1945, na Segunda Guerra Mundial.

Participaram neste evento os representantes dos países vitoriosos (Aliados) – Estaline (União Soviética), Churchill (Inglaterra), Truman (Estados Unidos). 

O principal objectivo era o de dividir a administração da Alemanha entre eles e de estabelecer a ordem pós-guerra na Europa.

Entre outras resoluções, o Acordo de Potsdam resultou na divisão da Alemanha e da Áustria, e a similar divisão de Berlim e Viena, em quatro zonas de ocupação (americana, britânica, francesa e soviética).
 
Potsdam possui um rico legado histórico, como a residência dos reis da Prússia, bem como um grande número de belos parques e palácios.

O parque Sanssouci, com uma área de mais de 287 hectares, é um dos mais bonitos complexos palacianos da Europa. 

Os vastos jardins contam com esculturas, fontes, terraços, templos, capelas, um jardim botânico e vários outros palácios que foram sendo acrescentados durante vários anos.

Sanssouci é à medida de Frederico da Prússia que, não por acaso, teve o cognome de «O Grande». 

O parque, onde ele tinha a residência de verão, é esmagador, tanto a nível da arquitectura dos vários palácios que povoam o imenso recinto, como a nível da flora que mandou plantar, com uma predilecção especial por árvores de fruto a rodear alguns palacetes.

O Parque de Sanssouci é, sem dúvida, uma rica herança do Império Prussiano que transformou a cidade de Potsdam numa importante referência turística da Alemanha. 

Daí que se compreenda o facto de, em 1990, os palácios e jardins tenham sido considerados pela Unesco como património da humanidade.