domingo, 16 de março de 2014

Passado de glória





Faltava-me visitar o Cabo de S. Vicente. Uma «jangada de pedra» com o comando a bombordo. 
Muito vento a impedir uma maior aproximação às falésias de grande elevação.
Tanto mar pela frente faz-me cismar com naus e caravelas de outros tempos.
O Promontório de Sagres, ali ao lado, é um memorial da história dos descobrimentos.
Há cerca de cinco séculos atrás, aquele local abrigava uma Escola que preparava os homens ilustres na arte de navegar. 
Foi dali, «donde a terra acaba e o mar começa» no dizer de Camões, que o pequeno rectângulo ocidental, chamado de Portugal, se tornou numa das maiores potências mundiais por via da heróica gesta dos descobrimentos.
Ao olhar o horizonte do cimo destas falésias graníticas, a memória do passado empolga-nos a acreditar que os genes de aventura que carregamos nas veias sempre serão uma garantia de renovado futuro. Um povo com o passado que estas pedras testemunham não pode «morrer na praia» de uma qualquer crise financeira, como a que estamos a viver.
Revisitar Sagres e os segredos imemoriais que a fortaleza encerra é ser inundado de uma injecção de auto estima e de patriotismo. E acreditar que este país virá, uma vez mais, a fazer jus ao passado de glória que carrega.

sexta-feira, 14 de março de 2014

Estender o olhar a perder de vista!

Zambujeira do Mar. Iniciamos a aproximação, avenida a baixo. Do lado esquerdo continua o velho parque de campismo, agora bastante melhorado. 
Depois, o casario amontoa-se na falésia com a magnifica visão da praia em concha e o mar lá ao fundo sempre na faina de construir castelos de espuma.
O sol brilha como já não via há alguns meses e obriga a retirar as peças de roupa que o vento frio e a chuva aconselhavam. 

As flores começam a mostrar-se em todo o seu esplendor, prenunciando a chegada da primavera e de um tempo mais ameno.

Ao chegar, a memória rapidamente desenrolou o tempo de ternura dos rebentos. 
Mas já passaram mais de uma vintena de anos em que, pela primeira vez, me deslumbrei com esta paisagem de beleza impar.   

Desde aí, o conceito «costa alentejana» significou, sobretudo, «Zambujeira do Mar».

Gostaria de, por cá, encontrar o meu amigo de tempos idos que por cá exercera a profissão de médico na área de saúde pública. 

Soube que, passados uns anos, terá enfrentado uma fase depressiva que lhe moldaria o resto da sua vida. 

Era exímio na arte de fotografar. Retenho em casa um quadro que, num gesto generoso, me ofertou com a foto, a preto e branco, de uma árvore frondosa e um pequeno opúsculo dos seus poemas de juventude. 

A espuma do tempo deixa no limbo do esquecimento algumas memórias de afectos que deveriam permanecer bem vivas em nós.

Zambujeira do mar continua igual à impressão que retive da primeira vez que a visitei.

A praia, ao fundo da escadaria, é aconchegada e serena.
O casario esbranquiçado estende-se por cima da falésia e, dali, pode-se seduzir o olhar a perder de vista!

quinta-feira, 13 de março de 2014

Na busca de um melhor aconchego



Google


O caminho foi longo. 
A Figueira da Foz ficou para trás após nos proporcionar uma noite de chuva, embalada por ventos fortes, e um possante rumor de mar alterado.
A manhã, com um sol tímido a espreitar entre nuvens negras, permitiu-nos admirar as obras de revitalização da envolvente do Forte de Santa Catarina.
CG
Mas o vento gélido e insistente não nos deixou fruir por muito tempo essa nova face da Foz do Mondego. 
Depois, partimos mais para sul. 
Após cerca de 300 kms, cá estamos a olhar a ilha mítica, magistralmente popularizada por Rui Veloso. 
Aquela que a lenda reza de que ali existia um pessegueiro que fora plantado por um «Vizir de Odemira», ao tempo da ocupação árabe desta bela costa alentejana.

CG
Porto Covo é um lugar aprazível onde apetece ficar por muito tempo. A jovem vila oferece ao visitante paisagens de sonho com o mar a embelezar todos os postais.
Há momentos, na companhia do kiko, sentei-me num pequeno banco, por sobre a falésia. 
Ali, meu pensamento voou para lá do horizonte matando saudades da maresia de que estava carente.
CG
Está uma tarde ensolarada, apesar do vento fresco desaconselhar veleidades de veraneio.
A agitação do mar agiganta a área esbranquiçada da rebentação contra as rochas, fazendo esvoaçar bocados de espuma que mais pareciam pequenas aves tão típicas das zonas marinhas.
O sol que nos acompanha faz esquecer os três meses de chuva copiosa de um dos invernos mais rigorosos dos últimos anos. Foi por ele que decidimos rumar ao sul, como aves migratórias na busca de um melhor aconchego.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Quem sabe ...




Ouço o Pedro Barroso neste início de noite calma, de silêncios e melodias. 
Lá fora, a chuva cai, talvez em obediência a uma rotina que vem de longe. Já nem consigo lembrar com nitidez o deslumbramento da luz solar em cor azul. São de chumbo estes tempos de inverno vestido a rigor.
No fim-de-semana, que ontem desfaleceu, temeu-se o pior. Anunciava-se uma borrasca cruel e brutal. Mas apenas uns breves arranhões foram sentidos em terras do centro do meu país. E foi precisa a luz de um estádio para justificar tamanho alarido meteorológico.
Este tempo, coberto de cinza húmida, parece querer afastar de mim a poesia que chega de longe. Um verso quente que emerge, de quando em vez, na minha vida. Depois de uma troca de afectos, plenos de esperança, cansa de paciência e afasta-se uma vez mais, cumprindo o ciclo das marés ... ou de renovada paisagem colhida em qualquer café de esquina.
Este tempo é propício a isso mesmo: é impaciente, turvo quanto baste e transparente apenas no olhar. Quem sabe se, uma outra vez, essa visão surge numa qualquer estrela do meu firmamento. Quem sabe ...
Imagem: Google

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Eusébio




Um nome grande do meu país. 
Uma referência de humildade, de disciplina, de abnegação e de heroísmo.
Lembro que despertei para a vida com o nome de Eusébio na boca do mundo. 
Não sendo um especial aficionado do futebol, a primeira vez que entrei num estádio (da Académica) foi, propositadamente, para o ver.
Portugal foi maior com este homem que hoje nos deixa. 
Que descanse em paz!

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Saudades de Azurara!

 

Dentro da Micha, ouço melodias de sempre da década de setenta. 

Em frente, avisto a cidade a bordejar o rio calmo contrastando com a agitação marítima a menos de cem metros. 
 
Pela pele do Ave passam canoas com promissores campeões da arte de navegar.

A tarde espreguiça-se ao longo do rio e Vila do Conde está iluminada por um sol que aquece de esperança estes breves dias de inverno que antecedem o Natal.

Ao fundo, resiste ao tempo o majestático convento que marca a paisagem.  

Mais ao lado, pescadores aguardam pacientemente que a linha dê sinais de esperança. 

Estão juntos e enroupados porque o tempo está de fastio.
Olho a outra margem e à memória chegam emoções de adolescência quando aportava em Azurara em férias de verão. 

Era o tempo em que julgava o mar da mesma idade. Era o tempo das perguntas sem resposta e do convívio com a rapaziada de idêntico destino. 

Apesar da formação elitista que recebia, aquele foi um tempo com uma única brecha: o céu dos crentes.

Foi a «manhã submersa» da minha vida, abandonada com o lento despertar para as emoções de juventude. 

Quando as interrogações libertaram a alma, ousei subir a estrada de afectos, com expectativas, coragem e aventura. Apesar de tudo … saudades de Azurara!