sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

ISTO





Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!
Fernando Pessoa





terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Viajar ...



Toda a nossa vida é um desafio peregrino. Viajamos a cada momento pelo passado que o presente convoca. E a viagem da memória é a mais melancólica e real.

CG

Viajamos, por vezes, por entre angústias e desassossego.

Temos necessidade de, de quando em vez, viajar por um longo período de tempo para esquecer alguma coisa ou, simplesmente, para esquecer o que ficou para trás.

Como escreveu o escritor francês, Gustave Flaubert, «viajar torna uma pessoa modesta – vê-se como é pequeno o lugar que ocupamos no mundo». É isso mesmo!

sábado, 19 de novembro de 2016

Escrever até ser dia!



CG

Escrever pelo fim da tarde
Denunciar silêncios e vozes
Escrever até que a saudade
Convoque angústias velozes

Escrever afectos ausentes
Nos caminhos por percorrer
Escrever remansos carentes
Do lusco-fusco ao entardecer

Escrever como que a gritar
Embalado pela voz do Cohen
Escrever trovas com o olhar
E os enigmas que mais doem

Escrever nas águas do mar
As farsas que andam por aí
Escrever e não mais parar
Surfar a seiva em que nascí

Escrever à memória tardia
Sem pesar o que a gente diz
Escrever, enfim, até ser dia
Semeando ventos pela raiz


segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Evocar emoções!

 Fazia muito frio quando chegamos a Saint-Flour, vindos de Clermont-Ferrand. Aí estávamos, pela primeira vez, a admirar aquela bela cidade de França, debruçada sobre um promontório vulcânico, junto do maciço central francês.
CG
À chegada, fomos seduzidos pela cidade baixa. Mas, rapidamente, a curiosidade levou-nos a subir os íngremes percursos que levam à cidade alta para apreciar o extraordinário centro histórico, o passado fortificado de Saint-Flour e o seu rico património, destacando-se a possante Catedral de São Pedro rodeada de belas casas renascentistas e palácios do século XVI. 
Fomos, também, atraídos pela admiração da paisagem do planalto, pelo palpitar das ruas e suas gentes e pela arquitectura medieval de uma urbe de inusitada beleza.
Durante a subida, vislumbrei o teu rosto ofegante do esforço e encrespado pelo vento gélido. Quase lá no alto, umas espaçadas pingas de chuva aumentavam o pressentimento de que íamos ter borrasca. De repente, tivemos de nos encostar sob a cobertura de um velho prédio que fazia esquina com uma minúscula praça triangular.
A chuva aumentava a cada instante e o forte vento empurrava-a em todos os sentidos. 
Connosco, outras criaturas abrigavam-se e estendiam o olhar para o céu cinzento como que a implorar uma trégua naquele dilúvio.
Trocamos olhares cúmplices sobre o que fazer: se esperar a bonança que sempre se segue à tempestade ou descer apressadamente os cerca de mil metros que distavam do nosso abrigo.
Com o passar do tempo e como a imagem soturna do céu se mantinha, decidimos pela segunda opção. Assim, ao esforço da subida fomos recuperar algumas forças e corremos, rua abaixo, por entre uma carga d’água que não parava de cair.
Ver-te chegar toda molhada, veio-me à memória aquele fim de tarde orvalheira na nossa cidade, quando ainda iniciávamos as doçuras do encantamento, da conquista e do compromisso. Lembro bem aquela correria, de mãos dadas, pela avenida abaixo, até ao Palacete do Raio. Exibias os teus longos cabelos, inundados de água da chuva, linda de juventude e de confiança no futuro.
Confirmo-te, passadas que estão algumas décadas, que aquele banho foi um bálsamo que amei vivenciar. A ponto de ficar, para sempre, gravado nas minhas melhores memórias. Ainda não esqueci o rosto franzino e muito belo e recordo com paixão os teus beijos quentes de primavera florida. A única diferença é que a chuva desta altaneira cidade é fria por demais. Talvez porque navegamos já o outono da nossa existência. Mesmo assim, adoro evocar emoções de tempos felizes!


domingo, 13 de novembro de 2016

sábado, 5 de novembro de 2016

Pousio do silêncio

«Aprendi que os imbecis estão mais perto de nós do que nós pensamos»
(Pedro Boucherie Mendes)


De repente, quase sem dar por nada, ei-lo, para ali, lambendo as mágoas de um tempo inquietante, por demais. Quem diria que, em idade madura, toda uma vida densamente mourejada se desfizesse ao vento por entre uma turba sequiosa de renovados sabores e tramas.
Joana
Percebeu, em experiência sofrida, que a vida é uma viagem sempre condicionada pelos encontros ou desencontros. 
E que, à hora menos esperada pela razão, surgem devaneios sórdidos a desassossegar os critérios em que sempre nos confiamos.
Nesses momentos, socorremo-nos de energias residuais para não nos desviarmos do rumo desde sempre traçado.
Constato que cedo incorporou a vertigem sentida pela intriga infame que lhe mereceu sentimentos de menosprezo. Mas sei que aprendeu com os seus «maiores» que, mais do que anatematizar certa direcção de afectos, o melhor é compreendê-la na sua circunstância e contexto psicossocial. Daí que, apesar de tudo, prefira relativizar o modo e a circunstância, navegando pela bela história de amor que esteve na origem do seu advento. 
Há muito que deixou de se ralar com questões filosóficas do tipo de donde vimos e para onde vamos. Porque é já distante o tempo do reacondicionamento dos afectos. Escasseia o fôlego e a coragem para o redesenhar dos sentidos.
Confirmo que a defesa da dignidade da sua alma gémea continua a ser o motor que sempre norteou as suas opções de vida. Mesmo para lá do tempo que ele percebeu definitivo. Pois, para ele, o longo pousio do silêncio permanecerá inerte «forever and ever».
Quanto ao demais, mormente sobre as aleivosias trazidas por ventos desabridos, recolhe-se no que, um dia, escreveu Miguel Torga, «Não há como o tempo para tornar relativos os juízos absolutos».

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Outono!


Joana

Tempo de silêncios. Dias longos, solitários. Melancolia que se refugia na alma. Saudade dos sorrisos luminosos. 
Outono: tempo de recolhimento sem calor maternal. Nostalgia doída bem dentro da alma. Saudade do escasso tempo em falta. Tristeza perdida na confusão.
Outono: tempo de descoberta da inocência perdida,  lá longe ... saudade do tempo em que o olhar transpirava ternura.  Vida de inquietações moldada por encontros e desencontros. Esperança derretida na amálgama da turma desalinhada.
Outono: tempo de silêncios!

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Arribas rendilhadas!

CG

Fonte da Telha é um povoado ribeirinho em plena Costa da Caparica. 
É uma longa tira de areia situada na base de uma falésia fóssil, de cor amarelo-pardo ou ligeiramente avermelhada, que faz barreira ao oceano numa vasta dimensão até ao Cabo Espichel. 
CG
A areia, muito compacta e de cor alaranjada, é de uma extensão a perder de vista. 
Ao chegarmos, uma surpresa: o casario, de classe média-baixa, está implantado em pleno areal e algumas casas esforçam-se arriba acima.
As pequenas construções, os cafés e bares dão um aspecto colorido a esta praia. Porém, o caótico amontoado do edificado indicia alguma clandestinidade de tempos idos.
CG
O mar, por ali, parece-se com o do Algarve com águas que se espreguiçam num vai e vem cadenciado e sereno. 

Ao amanhecer, fizemos um longo passeio, ao longo da praia, no sentido norte-sul, junto da rebentação, até à Lagoa de Albufeira. 
Apenas alguns pescadores se atarefavam na arte de enganar os peixes. 
O ambiente ia aquecendo à medida que o dia clareava e o sol a surgia no horizonte, a montante. A admiração da arriba fóssil adjacente e do manso oceano aligeiraram o esforço da caminhada, de cerca de duas horas e meia.
A arriba, que percorre todo o areal até à Lagoa de Albufeira, é de uma beleza extraordinária. 
CG
A vegetação do sopé, de um intenso verde, acrescenta frescura à arriba fóssil, da cor do ouro, rica em restos de vertebrados marinhos e que, em 1984, foi classificada como Paisagem Protegida com a finalidade de preservar as características morfológicas e geológicas do local.
Lá no alto, a arriba exibe formas singulares, caprichosamente lavradas pela erosão, de belas construções naturais semelhantes a castelos fantásticos com imensas torres de diferentes tamanhos.
O azul do mar a reflectir a abóbada celeste, a visão do esplendor rendilhado das arribas e o caminhar solitário pelo vasto areal fez desta manhã soalheira, de suave brisa, um dos mais belos momentos deste peregrinar pelo país.


domingo, 2 de outubro de 2016

Alentejo borda-d’água

(Carvalhal)

Cá estamos, pela segunda vez, na Praia do Carvalhal, imponente abertura para o Atlântico, emparedada por possantes contrafortes graníticos, característicos da costa vicentina.
Aqui chegados, o mesmo deslumbre que nos invadiu na primeira vez. São belos os montes que rodeiam este refúgio, onde o nudismo se passeia com um à-vontade que impressiona. A praia é de areia macia e o oceano exibe-se de baixa maré.

Para trás ficou a costa algarvia. Albufeira, ainda apinhada de gente, suaviza o interesse de quem ama mais o sossego e os silêncios da voz do mar.
A Praia da Rocha convida a um percurso até ao Vau, por entre arribas, que desafiam o instável equilíbrio, e grutas da cor do ouro semeadas ao longo do imenso areal.
(Sagres)
Sagres, pelo contrário, é um promontório que nos convoca à meditação sobre os recuados tempos em que o nosso país se aventurou na conquista de territórios desconhecidos. 
Por ali permanecem vestígios da Escola Náutica que formou homens de têmpera que ousaram enfrentar o medo do desconhecido para levar, o mais longe possível, o nome de Portugal.

São cerca de 9.00 horas e o sol já se faz sentir com alguma intensidade. Os veraneantes, de fim de época, vão chegando aos poucos. Não se vêm crianças, pois, já estarão atarefadas pelo regresso às rotinas escolares. Daí que a praia do Carvalhal esteja mais solitária. 
                                                                                                                    (Carvalhal)
O marulhar das águas, lá ao fundo, denuncia um azul-turquesa que dá mais brilho a este Alentejo borda-d’água.
Subi o morro do lado direito para admirar a praia lá do alto. E amei. 
As águas parecem mais serenas e os poucos veraneantes passeiam-se na admiração do mar.
Ao contemplar a paisagem bucólica, por entre um silêncio de sonho, tudo o que a alma carrega de preocupações desaparece, como por magia. Adorava permanecer neste paraíso, achado ao acaso, durante todo o tempo que o mundo tem. Esquecer o que vivemos e deixar que o pensamento voe tranquilamente pelo nosso futuro breve.

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Alentejo da cor do céu


Estamos, pela primeira vez, na Albufeira de Alqueva, o maior lago artificial da Europa. 
O dia está ensolarado e de clima tropical, acompanhado de uma brisa que ajuda a suportar o calor deste final de verão.
Visitamos, há momentos, a nova Aldeia da Luz que tanta tinta fez correr nos idos anos oitenta e noventa do século passado. 
Construída de raiz para albergar os habitantes da povoação homónima, que ficou submersa quando se fez a enchente da barragem, a nova aldeia é uma cópia quase perfeita das ruas e ruelas e de todo o casario e equipamentos sociais existentes na original.

A hora a que chegamos era de sesta pelo que não almejamos vivalma pelas ruas e apenas um bar, pouco frequentado, nos serviu um café de bom sabor.
A albufeira do Alqueva é um assombro. 
A enorme extensão de água, da cor do céu, dá uma beleza extraordinária a estas terras do Guadiana. 
Ao longe, avistam-se várias ilhotas desertas que emprestam à albufeira um acrescido encanto.

Pernoitamos na ribeirinha aldeia de  Pedrógão do Alentejo, pertencente ao concelho da Vidigueira. Na Praça da República, onde se situa a Igreja Matriz, concentram-se restaurantes, cafés e outros equipamentos sociais. 

Aí encontramos uma lápide com um poema do poeta popular, Francisco Bentes, congratulando-se com os homens e mulheres que, durante décadas, sonharam fixar o azul do céu na planície alentejana, para fazer crescer as sementes de trigo nos vastos campos em redor.
De facto, junto a esta pacata freguesia foi construída uma barragem, que se integra no empreendimento do Alqueva, com a finalidade de estabilizar o caudal do rio Guadiana, bem como, produzir energia eléctrica e abastecer de água de rega este belo Alentejo da cor do céu e com horizontes de restolho dourado da terra quente.
Por aqui respira-se a tranquilidade que nos falta no dia-a-dia das cidades que habitamos. 
As ilhas doiradas, que se espelham na lonjura, parecem segredos esquecidos por entre águas de fantasia.
O sol quente, que se capricha por cá, aconchega a vida numa espécie de ilusão de paraíso. 
E apetece mergulhar nestas águas, quase estagnadas, e embebedar-mo-nos desta paz tão próxima da maresia.
A noite cai e com ela o silêncio espalha-se por todo o lado. Só um leve rumor se agita nos arbustos prateados pelo luar deste belo recanto do meu país.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

lonjuras do pensamento ...


 
Aportamos em Fátima, uma vez mais, neste início de Setembro. Por cá o calor derrete os corpos e até o kiko parece abafar, preso ao capote de espesso pêlo castanho que usa em todas as estações.
A aragem que nos visita não acalma o ambiente tropical de cerca de quarenta graus centígrados. É à sombra de um arbusto, que julgo ser uma azinheira, que escrevo esta crónica de viagem.
Há momentos, recebemos uma chamada dos nossos infantes, a saber se tudo estava bem connosco. É muito reconfortante, de quando em vez, ouvirmos a voz dos «putos» partilhando emoções de proximidade. Fica-se com a doce sensação de que a vida tem mais sentido quando nos deleitamos no abraço de ternura que cimenta o núcleo de afectos.
Só mais logo, pelo entardecer, iremos percorrer os locais simbólicos desta terra de fé, sobretudo, a Igreja da Santíssima Trindade, a Capela das Aparições e o Santuário.
Apesar do calor, pela longa estrada do norte, vimos inúmeros peregrinos em direcção a Fátima, num imenso sacrifício de abnegação e fé. O que nos deixa a cismar nas razões desta emocionante persuasão que, ano após ano arrasta, estrada fora, centenas de milhares de fiéis marianos.
Fátima é um local aprazível ao corpo e à mente. Os silêncios que por aqui se respiram transportam-nos para lonjuras do pensamento. É uma quietação que interroga a nossa vivência colectiva. Porventura, sensibilizados pelos rostos devotos e imagem icónicas de uma das maiores referências do culto mariano que continua atrair gente do mundo inteiro.
Sem dúvida que a Igreja agarrou bem a memória das três crianças que, há cerca de cem anos, traziam os animais a pastorear neste local ermo. Depois, uma história de surgimento de sinais no sol desaguou, com a ajuda do prelado da época, numa visita da «Mãe de Deus» com mensagens que constituíram, durante décadas, um «segredo» bem guardado. Porque importava criar uma atmosfera de incerteza do desconhecido para melhor alicerçar o mito.
Fátima cresceu graças a esse mito. E a economia local muito beneficiou, desde logo, com as dezenas de lojas de venda de «artigos sagrados» que os peregrinos compram como testemunho da sua presença neste recinto.
No entanto, mesmo que a fé esteja arrefecida ou, há muito renegada, não se consegue ficar indiferente aos genuínos testemunhos que por aqui se espalham.