sexta-feira, 20 de agosto de 2021

Poeira no vento!

 




«I close my eyes only for a moment, and the moment's gone. All my dreams pass before my eyes, a curiosity»

Dust in the wind (Kansas)



Que bela canção e que letra tão profunda de emoção: «Dust in the wind». A nostalgia dos sons e a relevância do poema conduz-nos para bem longe do nosso deserto pacífico.

Ao dispensar atenção ao bulício do quotidiano, perpassam pensamentos de roupagem multicolor. O presente obriga-nos a olhar em frente e a abandonar o passado esmaecido do nosso destino.

Tudo o que vivemos deixa de ter valor e significado mais à frente. A natureza em flor, os sussurros do vento, as melodias das aves vagabundas, o sol claro e morno da tarde deixam de ser pontos de referência quando o tempo se esgota por entre pensamentos furtivos sobre o significado da vida. 

«All we are is dust in the wind»!

CG


quarta-feira, 18 de agosto de 2021

Chamamento do mar!

 














O furor esbranquiçado das águas deste oceano de sonho prenuncia um tempo de luz e magia. Nada como o sol para aconchegar e amaciar o ambiente neste final de viagem que não cumpriu o planeado.

Mas, o que menos importa é de onde se parte ou em que lugar se chega. O que mais fascina é o caminho!

Viajar é sentir o mundo à flor da pele, é partir e voltar, deslumbre e sacrifício, descoberta e paixão e, a todo o momento, novos horizontes conquistados. 

Nada se compara à emoção de ser peregrino na própria viagem, de sentir o mundo pelo olhar dos outros e desvanecer nos ventos de feição a liberdade de viver.

Após alguns dias de itinerãncia, aportamos na nossa Vila Praia de Âncora para matar saudades de um tempo recuado e carregar o sol que nos faltou nos últimos dias. É aqui que gostamos de ancorar sempre que respondemos ao chamamento do mar!









Esta terra fez-se refúgio quando o futuro ainda estava longe. É para cá que desejamos vir quando o presente deixar de ter sentido e o passado se desfizer em memória.

Um dia, numa conversa informal sobre a vida, Narciso e sua companheira de vida decidiram isso mesmo: as cinzas serão parceiras destas rochas habitadas pelo mar.

Porém, a concordância da consorte fez-se acompanhar de um sussurro de preferência pelas zonas mais firmes de mar chão, por nunca se ter compatibilizado com águas profundas. 

Narciso sorriu pelo inusitado desejo já que nessa altura nada mais importa e todos os medos dissiparam-se lá atrás. Mas, assim será!

CG


segunda-feira, 16 de agosto de 2021

Tui - uma cidade surpreendente!


De Paredes de Coura a Tui percorre-se cerca de trinta quilómetros, por entre montes e vales polvilhados por um casario granítico e, de onde a onde, mansões senhoriais rodeadas de vegetação abundante.

A cidade de Tui, que sobe a colina da margem direita do Rio Minho, frontal a Valença foi, em tempos remotos, sinónimo de chocolate, caramelos e outras guloseimas para os visitantes fugazes da outra margem.

Nos dias de hoje é o combustível mais em conta que seduz os portugueses raianos ou em viagens de proximidade.


A primeira impressão que Tui deixa ao visitante é a de uma cidade medieval, graças à arquitetura do edificado, quase todo em granito e de notável conservação.

É um prazer percorrer as suas ruelas e calçadas, ora mais estreitas, ora mais largas, mas sempre apresentando a peculiar traça milenar.

Percebe-se bem a razão porque a cidade foi declarada conjunto histórico-artístico espanhol, por apresentar um estilo medieval e por mérito do seu rico património arquitetónico cujo expoente maior é a catedral românica e gótica, Santa Maria de Tui.


Lá em baixo, avista-se um espelho de água longo e sereno, o Rio Minho, que parece reflexivo e consciente da sua missão de unir os dois países até desaguar em terras lusas. 

 É, sem dúvida, uma cidade surpreendente!

CG


sexta-feira, 13 de agosto de 2021

Aventura falhada

 















                                                                                                                                        CG

Visitamos, pela primeira vez, Paredes de Coura, lugar mítico que acolhe, desde 1993, um dos maiores festivais de música em Portugal, evento que atrai milhares de entusiastas deste tipo de espetáculos de verão. Pernoitamos na área de serviço de autocaravanas, preparada a preceito há alguns anos, mas que, presentemente, tem a maioria dos serviços desativados. Uma pena!

Paredes de Coura é uma típica Vila do interior do Minho, banhada pelo rio Coura, um pequeno curso de água límpida que serpenteia estas terras de múltiplos encantos naturais. Por ali, a pandemia tem feito caminho, a ponto de obrigar ao encerramento de alguns serviços municipais, tais como o Museu Regional.

Como parte da fachada é envidraçada, deu para espiar algum do seu acervo, como um encantador tear rústico de madeira que, num instante, despertou memórias da minha avó materna, a quem chamava de «mãezinha». 

Ao admirá-lo, uma enxurrada de emoções emergiram em meu espírito, a ponto de quase ouvir de novo o mágico «toque, toque, toque» da braçadeira do pente a arrastar os fios da teia com que se produziam as mantas e os tapetes.

Para além dessa atividade artesanal, a minha avó era dona de um belo quintal de onde obtinha as verduras necessárias ao dia-a-dia e colhia uma apreciável variedade de frutos da época. Como a sua descendência de segunda e terceira geração era abundante, acontecia que os frutos desapareciam como por magia. Daí que fosse seu costume colocá-los a madurar numa varanda sempre vigiada para que nenhum intruso se enamorasse deles.

Vivia ainda a infância da vida e já me aventurava a entrar, de quando em vez, no espaço proibido da casa da avó e, ouvindo o costumeiro «toque, toque, toque» no andar inferior da moradia, caminhava ao som dos balanços da travessa do tear a fim de mitigar o ruído dos meus passos no soalho de madeira e alcançar o «fruto proibido». 

Um dia, quando já estava à entrada da varanda, surgiu a mãezinha que, com um sorriso de «gioconda», afirmou: - Afinal és tu o mandrião!

Admirado pela inesperada aparição, constatei depois que ela, enquanto se aproximava da varanda, simulou o «toque, toque, toque» batendo com uma vara nas escadas que ali desaguavam. O constrangimento que senti foi suficiente para pôr fim àquela aventura falhada.

CG

terça-feira, 3 de agosto de 2021

O bajulador

                                                                                                                                         in Blog Caiçara



Neste tempo de chumbo por que passamos, foram muitos os festejos que ficaram adiados. Nas aldeias mais rurais deste pais, as festas e romarias sempre funcionaram como um escape de liberdade e alegria e uma brisa de descontração a insuflar a alma para fazer frente a mais um ano de trabalhos e canseiras.

Numa animada conversa, sobre este assunto, Narciso destacava de maior importância a festa da Páscoa na sua aldeia, pelo alvoroço e entusiasmo que suscitava nas pessoas e, sobretudo, nas crianças.

Lembrava-se de, ainda menino, se deleitar com a turma do «compasso pascal», tradição arreigada em terras minhotas, baseada num ritual que se traduz na visita, pelo pároco, com a ajuda de mordomos e outros auxiliares, às casas dos paroquianos, levando a cruz a anunciar o Cristo ressuscitado.

Narciso era interno dum colégio religioso, daí que o padre da aldeia sempre reclamava a sua presença nessa liturgia, dando-lhe a função de recolher num saco as esmolas oferecidas a um santo de que já não recordava o nome. 

No final do beija-cruz em cada lar, gostava de apreciar as mesas, repletas de doces, frutas, guloseimas e vinhos finos, expostas para consumo dos integrantes do grupo do compasso.

Em determinado ano, quando tinha cerca de doze-treze anos, o compasso entrou na casa de um paroquiano, que vivia do seu ofício de cesteiro, e que era um conhecido puxa-saco do «senhor abade». 

Inesperadamente, aquele anfitrião abeirou-se do pequeno Narciso, pensando que era o sobrinho do padre, o Arturinho, e iniciou todo um cerimonial de bajulação e afagos em voz suficientemente sonora para que o padre pudesse ouvir.

Narciso estava agradado com os elogios e os mimos do artesão, mas, perante a insistência em confundi-lo com o sobrinho do padre, respondeu-lhe timidamente: - Eu não sou o Arturinho!

Embasbacado, o bajulador levantou-se num ápice, perguntando: - Então de quem és tu?

Como constatou que estava perante um garoto de origem humilde, descartou-o de imediato com o semblante constrangido pelo engano e enfadado pela perda de tempo com um puto irrelevante. 

No espírito daquele imbecil acantonou-se o ciúme por Narciso, apesar dos parcos recursos da família, ser um dos poucos rapazes da aldeia que tinha escapado aos trabalhos braçais e rumado a um colégio para se dedicar aos estudos.

Narciso ficou triste e melancólico, pelo inesperado da situação, e ficou-lhe para sempre gravado na memória este obscuro episódio da sua vida. Até porque, como muito bem reza, a propósito, um ditado popular: «Fere mais a língua do adulador do que a espada do perseguidor».

CG

segunda-feira, 2 de agosto de 2021

A diversidade do meu pequeno pomar ...

 


Apesar das fruteiras serem muito jovens, este ano a colheita parece compensar um pouco mais...

  
Mais do que a maior ou menor quantidade de frutos para consumo próprio, a sua qualidade espelha a dedicação como as plantas são tratadas e amimadas no dia-a-dia. 

             
   

Para além de retribuírem para uma alimentação saudável, as frutíferas proporcionam uma relevante qualidade de vida aos que lhes dedicam o tempo e os nutrientes imprescindíveis ao seu desenvolvimento, pois, é adquirido pela ciência que viver perto da natureza melhora e aumenta a saúde mental e os padrões de atividade física. 


CG





sábado, 31 de julho de 2021

Até onde nos levará?

 


imagem do Satélite Astronómico Hubble 
Fonte: Portal IG




A astronomia não fazia parte das curiosidades científicas do Narciso.

Foi o seu filho, Eduardo, que um dia lhe inspirou um deslumbramento pelos astros do universo e lhe surgiu em casa com uma despretensiosa luneta para olhar o céu noturno. Na altura, Narciso ficou estupefacto com o atrevimento do Eduardo pela precoce curiosidade sobre a astronomia. quando ainda iniciava a vivência dos anos sonhadores da adolescência.

Contudo, este entusiasmo do seu rebento acabaria por despoletar nele uma saudável inquietação para as questões sobre a origem da vida e do universo. Cedo começou a presumir que a narrativa criacionista da religião cristã não poderia constituir um dogma sem qualquer possibilidade de demonstração.

Nos inícios da década de setenta, do século passado, Narciso teve um crise de fé em terras de África, quando aí prestava serviço militar na guerra da Guiné-Bissau, para a qual implorou a ajuda de um sacerdote conhecido, não tendo obtido qualquer resposta.

Nos momentos de combate no mato, quando a morte era sua vizinha nos corpos baleados e contorcidos dos camaradas mais azarados e testemunhava a miséria de todo um povo, cerceado de liberdade, acantonado às «tabancas» e sofrendo os danos colaterais de uma guerra injusta, Narciso sentia-se vazio por dentro e incrédulo em qualquer divindade.

Naqueles momentos de tragédia, questionava, por exemplo, a ausência dos capelães do exército, que sempre preferiam o «ar condicionado» de Bissau às matas e bolanhas onde os combatentes «caíam que nem tordos».

Lembra-se bem de, nas «emboscadas noturnas», quando deitado no capim pelas altas horas da noite a olhar o firmamento de África carregado de estrelas, descobrir o seu fascínio pelo cosmos. Depois, percebeu que o universo é gigantesco como o infinito, está em expansão e que o nosso planeta é um simples grão de poeira quando comparado com a grandeza do cosmos multiverso.

Impressionava-se pelo mutismo sufocante das hierarquias da igreja católica perante a evolução da ciência, facto que contribuía para reduzir, progressivamente, a sua narrativa a um efetivo malogro.

Não por acaso, desde a antiguidade clássica até aos nossos dias, a ciência tem colidido com a religião católica em diversos domínios. 

O desenvolvimento da astronomia, por exemplo, tem colocado a ridículo a interpretação literal da bíblia sobre a criação do mundo, sobretudo a partir da demonstração de que a Terra não fica no centro do universo e que orbita o sol.

A própria teoria da evolução de Charles Darwin, sobre a seleção natural, deitou por terra a teoria criacionista defendida pela religião cristã. E só em 1950 o Papa Pio XII descreveu a evolução como uma abordagem apropriada à origem do ser humano.

Ou seja, o avanço da ciência tem funcionado como um cilindro gigante que vai esmagando teorias, dogmas, interpretações, contradições e mitos tidos como verdades absolutas durante milênios. Até onde nos levará?

CG



terça-feira, 27 de julho de 2021

A próstata do Narciso


 «É difícil permanecer imperador na presença do médico e mais difícil permanecer homem...»

                Marguerite Yourcenar in «Memórias de Adriano»


















Narciso andava um pouco ansioso nos últimos tempos. 
O seu corpo de décadas começava a revelar sinais de que alguns órgãos exigiam especial cuidado. Apesar de ainda não ter atingido a idade em que o dia-a-dia do ser humano se torna numa derrota consumada.

A diabetes, descoberta alguns anos antes de atingir as cinco dezenas, estava devidamente controlada, naturalmente, à custa de uma radical mudança dos hábitos alimentares. 

Nos últimos tempos, porém, Narciso deu-se conta de que se levantava de noite sempre com uma teimosa vontade de urinar.

Sabia que era normal o crescimento da próstata nos homens a partir dos cinquenta anos. Mas o aperto cada vez maior que sentia na bexiga durante a noite começava a perturbá-lo em demasia,  pelo que resolveu ouvir o parecer de um urologista.

Renegou os populares preconceitos de que a visita àquela especialidade médica propicia uma situação constrangedora, quer pelo exame do toque retal, quer pela eventual gravidade do problema poder comprometer a vida sexual dos pacientes.

Não se surpreendeu quando, na sala de espera do consultório, reconheceu alguns amigos, que disfarçaram um olhar comprometido e embaraçado. Quase todos estavam ali pelos mesmos sintomas, mas, numa primeira abordagem, cada um fazia questão de apoucar o seu problema com a evasiva de que se tratava «tão-só da hipertrofia benigna da próstata!». 

O problema de saúde do Narciso era esse mesmo. Mas percebeu o acanhamento e a fuga para a frente daqueles companheiros de vida: ninguém gosta de exibir aos outros as fragilidades mais íntimas de saúde. Mas, como dizia alguém, é a vida!

CG


domingo, 25 de julho de 2021

Tempo de ouro!

 



O azul profundo, mais ao largo, faz um excelente contraste com a alvura remexida pelo embate das ondas contra as rochas de Vila Praia de Âncora.

Para Narciso, este vilarejo soube sempre a sol de verão.

Foi lá que sonhou a primeira juventude, quando o campismo rebelde se fazia junto à fortaleza local. Nesse tempo já distante, tudo era novidade e desassombro.

Narciso adora relembrar aquele mês de Agosto pós-revolucionário passado nesse cantinho de luz e mar na companhia de sua companheira e de um jovem casal de amigos.

Foi um tempo de encanto e aventura, de exercício dos afetos pelas longas noites de luar e remanso das ondas do oceano, dentro de uma pequena tenda «apache», reprimindo, a custo, os devaneios dos corpos inquietos.

Foi um tempo de pleno exercício de liberdade, pela ousadia dos sentidos, com a brisa de maresia a seduzir aqueles apaixonados na fruição do esplendor da lua brilhando no horizonte de céu e mar.

Mas, também, tempos austeros, pois, o país, à época, para além de conviver com um processo revolucionário decorrente dos equívocos do «25 de Abril», teve que aconchegar os milhares de fugitivos das possessões africanas devido à guerra civil que se instalou nos novíssimos países de Angola e Moçambique.

O Pedro, homem franzino, dedicado ao jornalismo, cheio de alegria de viver, era um dos regressados dessa epopeia africana.

A família tinha-se refugiado na região do Minho, onde dispunham de alguns bens legados pelos seus antepassados, e lançou-se, de novo, à vida.

Foi com ele e a sua jovem namorada que Narciso e a sua companheira viveram aquele sonho de verão. Um verdadeiro tempo de ouro, aquele!

O Pedro já não está entre nós. Mas Narciso sempre prefere recordá-lo na vivência feliz daqueles dias, como dos melhores da sua vida.

CG



quinta-feira, 22 de julho de 2021

A curva da estrada

 






Ferreira era um velho, dono de um sorriso franco e desdentado. 

Narciso, como seu vizinho mais próximo, via-o passar, dia após dia, na mesma cadência arrastada, em direção à taberna próxima da habitação para sorver o café pós-almoço. Convenceu-se de que esse ritual era a única folga de seus dias contínuos e aposentados. O resto do dia passava-o sentado no pátio de sua casa a olhar a vida a passar e a azáfama da vizinhança.

Tinha sido uma fortaleza de força, em tempos idos. Agora, os anos pesavam-lhe no corpo cansado a ponto de carecer do amparo de uma vara de eucalipto.

Contava já mais de noventa primaveras. Mas teimava em agilizar ao máximo a locomoção numa caminhada diária pelos caminhos da aldeia.

A sua característica mais notada era o olhar matreiro e curioso para tudo o que era a labuta particular dos convizinhos. Se o não fazia na hora, vinha, mais tarde, pela calada do entardecer, meter o nariz abismado nas «novidades» dos outros.

Mantinha rituais, exercitados na infância, que a modernidade destituiu de sentido: apesar de viver numa casa com os mínimos requisitos de higiene, não era raro vê-lo, pela manhã, a dirigir-se para o meio da leira, descer as calças e aliviar-se das necessidade fisiológicas que, depois, qual gato asseado, cobria de terra com a enxada de que se fazia acompanhar. Desta forma, dava expressão à lei da conservação da matéria do químico francês Antoine Lavoisier: «na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma».

Narciso gostava, por vezes, de o interpelar sobre assuntos de maior atualidade. E ele sempre correspondia com um corolário de histórias passadas, sempre repetidas à exaustão.

Transportava uma mágoa há mais de vinte anos, com a qual se tinha já conformado: a loucura precoce da sua única filha deitou por terra a promessa de uma velhice mais amparada. Mas manteve sempre por ela uma terna afeição e respeito em contraponto com a restante parentela.

Um dia, Ferreira deixou de ir tomar café. E Narciso, após visitar a sua lápide no cemitério local, recordou o que, a respeito, escreveu Fernando Pessoa, «A morte é a curva da estrada, morrer é só não ser visto (...)».

CG




quarta-feira, 21 de julho de 2021

Fado da noite

 

«Sim, minha força está na solidão. Não tenho medo, nem de chuvas temprestivas, nem de grandes ventanias soltas, pois, eu também sou o escuro da noite».

Clarice Lispector in «A hora da estrela»



Sentia-se meio perdido por entre reminiscências de anos submersos em abismos proibidos. 

E divagava por entre sombras que tinham ficado lá atrás, preferindo um olhar mais macio do porvir.

Narciso suspendeu aquele instante para cismar o momento numa singular calmaria. 

Sabia que o rumo em que se movia ia-se desfazendo em pó há um bom tempo;

Vivenciou a vertigem do desassossego pela inquietude em que se achava mergulhado. 

O sufoco das vigilias soturnas teimava em povoar-lhe a memória desfeita em vento.


Nos últimos tempos, Narciso mostrava-se prenhe de silêncios nocturnos, de vivências falhadas e de medos sem futuro. 

A quimera que se esvaia em espuma acrescia-lhe inquietações que o retiam num entusiasmo descontente. Dia após dia!

Ansiava pelo retorno às manhãs bonanceiras de sonhos derramados numa vida sem regresso. Mas temia que já fosse tarde demais, pois, parecia que o fado da noite se tinha colado à sua pele. 

Até quando?

C G



terça-feira, 30 de junho de 2020

Saudades



CG



Sinto saudades de tudo que marcou a minha vida.
Quando vejo retratos, quando sinto cheiros,
quando escuto uma voz, quando me lembro do passado,
eu sinto saudades…
Sinto saudades de amigos que nunca mais vi,
de pessoas com quem não mais falei ou cruzei…
(…)
Sinto saudades do presente,
que não aproveitei de todo,
lembrando do passado
e apostando no futuro…
Sinto saudades do futuro,
que se idealizado,
provavelmente não será do jeito que eu penso que vai ser…
Sinto saudades de quem me deixou e de quem eu deixei!
De quem disse que viria
e nem apareceu;
de quem apareceu correndo,
sem me conhecer direito,
de quem nunca vou ter a oportunidade de conhecer.
Sinto saudades dos que se foram e de quem não me despedi direito!
Daqueles que não tiveram
como me dizer adeus;
de gente que passou na calçada contrária da minha vida
e que só enxerguei de vislumbre!
Sinto saudades de coisas que tive
e de outras que não tive
mas quis muito ter!
(…)
Sinto saudades dos livros que li e que me fizeram viajar!
Sinto saudades dos discos que ouvi e que me fizeram sonhar,
Sinto saudades das coisas que vivi
e das que deixei passar,
sem curtir na totalidade.
Quantas vezes tenho vontade de encontrar não sei o que…
não sei onde…
para resgatar alguma coisa que nem sei o que é e nem onde perdi…
(…)
E é por isso que eu tenho mais saudades…
Porque encontrei uma palavra
para usar todas as vezes
em que sinto este aperto no peito,
meio nostálgico, meio gostoso,
mas que funciona melhor
do que um sinal vital
quando se quer falar de vida
e de sentimentos.
Ela é a prova inequívoca
de que somos sensíveis!
De que amamos muito
o que tivemos 
e lamentamos as coisas boas que perdemos
ao longo da nossa existência… 

                                                                                         Clarice Lispector