in Blog Caiçara
Neste
tempo de chumbo por que passamos, foram muitos os festejos que
ficaram adiados. Nas aldeias mais rurais deste pais, as festas e
romarias sempre funcionaram como um escape de liberdade e alegria e
uma brisa de descontração a insuflar a alma para fazer frente a
mais um ano de trabalhos e canseiras.
Numa
animada conversa, sobre este assunto, Narciso destacava de maior
importância a festa da Páscoa na sua aldeia, pelo alvoroço e
entusiasmo que suscitava nas pessoas e, sobretudo, nas crianças.
Lembrava-se
de, ainda menino, se deleitar com a turma do «compasso pascal»,
tradição arreigada em terras minhotas, baseada num ritual que se
traduz na visita, pelo pároco, com a ajuda de mordomos e outros
auxiliares, às casas dos paroquianos, levando a cruz a anunciar o Cristo ressuscitado.
Narciso
era interno dum colégio religioso, daí que o padre da aldeia
sempre reclamava a sua presença nessa liturgia, dando-lhe a função
de recolher num saco as esmolas oferecidas a um santo de que
já não recordava o nome.
No final do beija-cruz em cada lar,
gostava de apreciar as mesas, repletas de doces, frutas, guloseimas e
vinhos finos, expostas para consumo dos integrantes do grupo do
compasso.
Em
determinado ano, quando tinha cerca de doze-treze anos, o compasso
entrou na casa de um paroquiano, que vivia do seu ofício de cesteiro, e que era um conhecido puxa-saco do «senhor abade».
Inesperadamente, aquele anfitrião abeirou-se do pequeno Narciso, pensando que era o sobrinho do padre, o Arturinho, e iniciou todo um
cerimonial de bajulação e afagos em voz suficientemente sonora para
que o padre pudesse ouvir.
Narciso
estava agradado com os elogios e os mimos do artesão, mas, perante a
insistência em confundi-lo com o sobrinho do padre, respondeu-lhe
timidamente: - Eu não sou o Arturinho!
Embasbacado,
o bajulador levantou-se num ápice, perguntando: - Então de quem és tu?
Como
constatou que estava perante um garoto de origem humilde, descartou-o
de imediato com o semblante constrangido pelo engano e enfadado pela
perda de tempo com um puto irrelevante.
No
espírito daquele imbecil
acantonou-se o ciúme por Narciso, apesar dos parcos recursos da família, ser um
dos poucos rapazes da aldeia que tinha escapado aos trabalhos braçais
e rumado a um colégio para se dedicar aos estudos.
Narciso
ficou triste e melancólico, pelo inesperado da situação, e ficou-lhe
para sempre gravado na memória este obscuro episódio da sua vida. Até porque,
como muito bem reza, a propósito, um ditado popular: «Fere mais a língua do adulador do que a espada do perseguidor».
CG