quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Almas que ardem




Sons longínquos da cidade
Rumor estranho e bizarro
Sonho o sonho da saudade
De um destino conturbado

Pressenti tua a viagem
Por entre várzeas e montes
Conferi a cor da miragem
Que brilha nos horizontes

Almas que ardem no mar
Quando surgem as marés
Ilusões esvaem-se pelo ar 
Vão no vento de lés-a-lés

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Tempo de pousio ...





Mozart, Beethowen, Vivaldi ou Wagner? Apenas confirmo que a música clássica, que brota da Antena 2, é duma pureza e harmonia que me envolve por inteiro. 
Está uma manhã levemente molhada por uma chuva miudinha, nativa de um céu cinzento. Não há vento a remexer as escassas folhas do plantio em redor, nem vivalma a deambular pelo povoado.
Ao largo, o rio corre, taciturno, para poente, cintilando à superfície e reflectindo a penumbra bucólica de águas pardacentas, bordadas pelo verde dos campos e pelo escasso casario de cores mortiças.
O silêncio desta pitoresca paisagem empurra-nos para um estádio de alma onde a melancolia da memória se desfaz em horizontes de esperança.
É, sempre, para cá que regresso, quando a saudade busca os afectos que desejamos partilhar. 
É por aqui que liberto as inquietações na expectativa de que se embalem nas águas, até à foz, e se dissipem pelo largo oceano. 
É aqui que procuro moer as vicissitudes que a vida sempre nos reserva.
O inverno é um excepcional tempo de vigília e de ausências. É o tempo de pousio onde se estruturam as utopias que dão sentido à vida. É, também, um tempo de introspecção sobre os caminhos já percorridos. É neste tempo que semeio sonhos e aventuras, a concretizar em dias luminosos de primavera.
Os sons dos clássicos acompanham-me por entre as sombras desta época sugerindo uma paz inquietante e nostálgica. Talvez porque a nostalgia é um mar que amo navegar.


sábado, 2 de janeiro de 2016

Valeu a pena!

A rádio «nostalgia» debita melodias com mais de quatro décadas, nesta tarde cinzenta e frágil do último dia do ano. Nostalgia positiva é, também, o estado anímico de que estou investido, postado na margem direita do Cávado, em Esposende.
Google Imagens
Ao estender o olhar pelo estuário verde, que se alinha à minha frente, uma série de pensamentos, vindos de longe, emergem na minha alma. Quase todos feitos de saudade dum tempo que está a findar. Apenas alguns de estupefacção pelas histórias surpreendentes e inesperadas em que me vi embrulhado.
2015 foi, por certo, um ano atípico na minha vida. Quando me achava lançado numa estrada de contornos previsíveis e de metas alcançáveis, tudo se altera a certo momento. Habituado a navegar em mansos rios de afectos, é por aí que, no início do ano, se concentra o esforço para não perder o rumo que sempre norteou a minha vivência. Tudo foi feito para que esse ambiente sadio se transformasse em cimento de emoções perenes.
2015 foi, também, um tempo de fresca saudade. Por muito que se encare com naturalidade os ciclos da existência humana, não é fácil perder a referência maior. Não é fácil!
Por último, 2015 foi de abertura de uma confidência que já o não era há muito, muito tempo. Mas, o impulso que me chegou, há alguns dias, foi a constatação de que o ser humano tem fragilidades que o tempo sempre acabará por conferir. 
Há muito que a ébria efabulação de um dos nossos, que só em parte nos pertence, era do conhecimento do interessado. Mas esse facto fora sempre ignorado no seio da turma em nome da sagrada dignidade da fonte de ternura e afectos e, mais proximamente, da memória de saudade que se espalhou como um estigma insanável.
A serenidade perante certas histórias da vida real, que nos prende a existência como humanos, vale pelo que ganhamos em afectos e sorrisos. E, apesar de tudo, acho que valeu bem a pena!

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

BOM ANO !




O homem tem por hábito dar um especial relevo à passagem do último dia de Dezembro e o primeiro de Janeiro. E faz questão, quase sempre, de ambicionar um novo ciclo de sucesso e bem-estar.
Alguns socorrem-se dos astros, bruxas, cartomantes e quejandos vários para antever o futuro próximo. Depois, ao longo do ano, esquecem tudo o que foi previsto e enfrentam a vida com a resignação de sempre.
Quando a idade fica mais madura, as escolhas são de outra índole: foram-se as ilusões do tempo verde e navegamos mais na construção de silêncios. E as companhias que mais procuramos são os afectos de proximidade.
O ano está quase no fim. São dias agitados, de grande rebuliço pelas catedrais do consumo. Repetem-se as liturgias de sempre. Vêm-se olhares mais ternos e sorrisos acolhedores neste tempo de natal e fim de ciclo.
As descortesias das últimas semanas não conseguem turvar o conforto do calor humano. O tempo já passado aviva a realidade de que a vida é uma viagem de encontros e desencontros. Mas o que mais importa é a viagem e os que se querem manter na carruagem feita de emoções e afectos.
Para todos, BOM 2016 !

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

A importância do futebol





A tarde já ia a meio. Acabamos de chegar às portas da cidade e não tínhamos qualquer referência onde estacionar e pernoitar. 
Avistamos um posto de polícia e parámos. Ao sair da autocaravana, percebi o olhar surpreso dos agentes que conviviam do lado de fora do posto. Dirigi-me a eles e procurei saber onde poderia estacionar. 
Já com a descontracção visível em seus rostos, fomos encaminhados para um parque próximo dali, junto ao «Centre Commercial Acima». Estávamos em Beni-Mellal, cidade situada no sopé do monte Tassemit, entre a cordilheira do Médio Atlas e a planície de Tadia.
Após um curto tempo de descanso e de estudo do local, deslocamo-nos até ao centro da cidade para perceber o seu carácter e observar o seu modo de vida. E não demos o tempo por perdido.
A medina, no coração da cidade velha, tem a feição de outras cidades e vilas marroquinas: ruas estreitas e escuras sempre cheias de gente e onde se vende de tudo um pouco. 
Impressionou-me a pobreza de algumas bancas que apenas vendiam pequenas porções de peixe frito e outras ninharias culinárias expostas ao sol e ao imenso pó levantado dos caminhos de terra pelos transeuntes. 
E, mesmo esses humildes locais de venda, tinham clientes que, por uns escassos dirhams, matavam a fome.
São ruas onde não existe o conceito de higiene, sobretudo, nas bancas de peixe e de carne, onde as moscas se passeiam aos magotes sem qualquer manifestação de incómodo, quer por parte dos vendedores, quer dos compradores. O mesmo acontece nas bancas de venda de pão, muitas vezes colocado em pilhas nas soleiras das portas para cliente ver, apalpar à vontade e levar aquele que melhor satisfaz a sua mirada.
Considerada uma das cidades mais importantes do centro de Marrocos, Beni-Mellal é, também, uma cidade histórica e moderna, com o seu castelo de quatro torres rodeado de amplos jardins e fontes.
Ao cair da noite, fomos abordados por dois jovens que manifestaram simpatia pelo facto de sermos compatriotas de Figo, Coentrão e Ronaldo, ícones do futebol mundial. Brindaram-nos com dois postais ilustrando as melhores vistas da cidade e neles colocaram os respectivos telefones na eventualidade de virmos a precisar enquanto aí estivéssemos. Este episódio ilustra, na plenitude, a importância do futebol para as relações de amizade entre os povos, por mais distantes que sejam.

domingo, 11 de outubro de 2015

Por que viajamos


«Nós viajamos, em primeiro lugar, para nos perdermos; e, em seguida, viajamos para nos encontrarmos. Nós viajamos para abrirmos nossos corações e olhos e para aprendermos mais sobre o mundo do que aquilo que nos é noticiado pelos nossos jornais.
Nós viajamos para trazermos um pouco do que pudermos, em nossa ignorância e conhecimento, daquelas partes do globo nas quais os ricos estão diversamente dispersos. E nós viajamos, em essência, para nos tornarmos jovens tolos novamente - para diminuir a velocidade do tempo e absorvê-lo, e nos apaixonarmos mais uma vez.»
Por que viajamos – Pico Iyer

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Versos inquietos







Emergem flores aos molhos
No rio dos meus desejos
Para escrever em teus olhos
Poemas quentes de beijos!

Por vezes a vida emudece
Com a razão em ruptura
Ai, a teia que o tempo tece
Em desordem com a ternura

Ó memória terna de afectos
O tempo moeu-se em instantes
Subsistem versos inquietos
Mas nada será como dantes!
  

domingo, 20 de setembro de 2015

A vida gasta-se!






"Inventámos um monte de consumos supérfluos e há que continuar a comprar e a deitar fora. 
E o que estamos a gastar é tempo de vida, porque quando compramos algo não o compramos com dinheiro, pagamos com o tempo de vida que tivemos de gastar para ter esse dinheiro. Mas com esta diferença: a única coisa que não se pode comprar é a vida. 
A vida gasta-se. E é lamentável desperdiçar a vida para perder a liberdade."
José Mujica, ex-presidente do Uruguai


segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Oeste ...

Lagoa de Óbidos
À entrada do Parque de Autocaravanas da Foz do Arelho, uma surpresa: está a funcionar uma recepção onde se é recebido com simpatia e se faz a inscrição e o pagamento da estadia.
São notórias melhorias na oferta de condições, já só faltando a disponibilização de pontos de electricidade e investir, um pouco mais, na higienização das estruturas sanitárias.
Foz do Arelho
Apesar das cerca de cinco dezenas de autocaravanas já instaladas, foi possível estacionar de frente para a lagoa, tal a dimensão do espaço disponível. O sol faz parte de um cenário magnífico de um dos locais mais belos da zona oeste do meu país.
Já por aqui estive várias vezes sem conta. Apaixonei-me por esta região quando, pelos meus vinte anos, iniciei a obrigatória fase militar no quartel das Caldas da Rainha. Foi nesse tempo que descobri e admirei a rota turística de grande qualidade composta por Peniche, Óbidos, Foz do Arelho, S. Martinho do Porto e Nazaré.
Foz do Arelho
Mais tarde, por cá veraneei, na adolescência dos meus filhos, ficando alojados nas magníficas instalações do Inatel, cujo edifício principal foi propriedade do filantropo, do início do século XX, Francisco Grandella.
Este industrial dos famosos «Armazéns Grandella», construiu este palácio situado um pouco mais para o interior, debruçado sobre a lagoa de Òbidos, ao estilo neo-manuelino, muito ao gosto da época, e a escola primária que ainda hoje funciona na Foz do Arelho.
S. Martinho do Porto
Reparo que a lagoa está em grande transformação, quer das suas margens, quer do próprio leito, criando melhores condições para a sua fauna e flora, bem como para os pescadores locais que vivem do que conseguem retirar da lagoa.
O tempo tem estado quente e ensolarado, convidando a um passeio pelas margens da lagoa e redondezas das Freguesias Foz do Arelho e Nadadouro. Espera-se que assim continue!

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Afectos de proximidade!


Um passeio pela praia, ao entardecer, é sempre um exercício de reflexão solitária. Os pensamentos voam como o vento que acaricia o rosto quente por um sol de estio. 
Pousamos o olhar no mar, até ao horizonte, e uma sensação de liberdade entra por nós adentro impelida por um desejo de correr de braços abertos para que a magia do momento se eternize.
Sentimos o mundo artificial bem afastado e esquecido e reconfortamo-nos em paisagens singulares, longe do quotidiano rotineiro. 
São momentos propícios a evocar episódios vividos com intensidade, há mais ou menos tempo. 
Sobretudo, quando o inesperado nos toma por inteiro e imprime marcas profundas e perenes na alma, fazendo a vida ganhar novo sentido.
Ora, o desaparecimento de um dos nossos familiares mais queridos, apesar de expectável pelo tempo vivido, é sempre um momento único de dor e angústia onde a racionalidade se perde num emaranhado de emoções difíceis de controlar.
Os primeiros tempos são de incompreensão sofrida pelo desenlace a que se segue uma contida raiva contra o destino comum, a começar pelos nossos maiores. Depois, o tempo encarrega-se de nivelar emoções e injectar doses de resignação, muitas vezes alojada em crenças num reencontro futuro.
Ruminava tudo isto, há momentos, durante a caminhada junto ao mar de Porto Covo, na companhia de um pôr-do-sol de cores quentes. Mas era a forma como cada um de nós se confronta e reage, perante a adversidade, que mais puxava a minha reflexão.
Diz-se, e eu acredito, que não há maior dor que o desaparecimento de um filho. Mas também asseguro que não há menos dor quando a nossa mãe decide partir em direcção ao infinito. Porque é a ela que lhe devemos a vida e a aprendizagem da ternura e dos afectos que nos qualificam como seres humanos.
Por isso, e não só, sempre pensei que um imprevisto desses funcionaria como cimento, ainda mais agregador, dos filhos, sobretudo quando, até aí, os humores de alguns nem sempre foram consequentes. 
Seria impensável, para mim, que uma tragédia daquelas originasse uma maior separação dos que, até então, estavam unidos, quer na amizade fraterna, quer na atenção com o ser que nos gerou.
A ser assim, quero acreditar tratar-se de um paradoxo do destino, de um absurdo, de uma nova provação, de um equívoco ou seja lá o que for. 
Não se compreende, de todo, a postura de negação que se sobrepõe à continuidade do espírito gregário que, indiscutivelmente, sempre foi o anseio do maravilhoso ser humano que nos deixou.

Ao longo da minha vida, aprendi que se leva anos para se construir confiança e apenas segundos para a destruir. 
Ainda assim, acredito que o tempo faz sempre o seu caminho, qualquer que seja a distância e a circunstância. Sobretudo quando estão em causa afectos de proximidade. Oxalá!

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Luminosidades …







Lagos é, para mim, a cidade da luz. 

Porque a larga avenida, que nos conduz até à fortaleza, é abrigo da marina que se caracteriza pela brancura do seu edificado e dos iates que ali buscam guarida;

Porque o Mercado Municipal reflecte uma maior luminosidade desde que a Sophia de Mello Andersen escreveu, a propósito do mercado de Lagos, onde fazia compras em tempo de férias: «Entra no mercado e vira à tua direita e ao terceiro homem que encontrares, em frente da terceira banca de pedra, compra peixe».
Porque o centro da cidade é um rendilhado de ruas, mais ou menos alongadas e apertadas por um alvo casario de construção centenária;

Porque o seu concelho abriga uma das mais afamadas localidades – a Praia da Luz – muito antes de aí ter ocorrido o trágico desaparecimento da criança inglesa que tanta tinta faz correr.

Lagos  é uma bela cidade que gosto de visitar sempre que o Algarve é destino de viagem. 

É dali que, quase sempre, regresso a casa percorrendo a costa alentejana. 
Desta vez, a primeira paragem é em Almograve. 


Caminhamos alguns quilómetros junto ao mar, admirando as águas límpidas do oceano e o rendilhado das baixas arribas, revestidas de lajedo, de corte longitudinal, parecido com a ardósia.

Por ali, apenas se ouve o silêncio cúmplice da natureza espreguiçada ao sol e o leve marulhar das águas contra a costa.

Seguimos, depois, para Porto Covo, simpática Vila, também ela de uma enternecedora brancura, não estivéssemos no Alentejo profundo.

Apesar de o verão estar quase velho, são ainda muitos os veraneantes que procuram este local. 

Talvez, atraídos pelas águas azul-turquesa que banham as pequenas praias e deslumbram o olhar dos visitantes.

O dia está bem ensolarado, mas sem castigar. 

Uma brisa refrescante perpassa por nós, aconchegando a caminhada pela marginal onde apetece sentar-mo-nos num dos vários bancos e aí ficar a escutar a voz do mar e a tentar perscrutar os mistérios que carrega.

Ao longe, avista-se a «Ilha do Pessegueiro», romanticamente cantada por Rui Veloso, numa trova que nos embala, apesar da trágica história de amor, de tempos imemoriais, que relata.

Mas, mais do que palavras, deixo-vos algumas fotos, como sempre acontece nos post’s  que publico. Porque, como escreveu José Cardoso Pires, no livro «E agora, José?», «… a fotografia vê o que o olhar não abrange, aquilo que a nossa atenção visual deixa escapar ou esquecer».