sábado, 18 de junho de 2011

Década de ouro !

Apetece escrever, neste início da manhã, ao ouvir o magnífico poema e a não menos bela melodia: «Amélia dos olhos doces».
Uma das mais lindas canções que ouvi na voz de Carlos Mendes, que conta o destino forçado de uma gaiata, «com nome de navio», que vende o seu corpo de amor lá pelo Cais do Sodré.

Esta canção transporta-me para tempos e espaços de outrora. Faz-me sentir o cheiro de uma adolescência de sonhos plenos de platónica magia e das certezas que tinha em os concretizar. Tempo de fermentação de ideais, de expectativas de vida e de horizontes sem nome, foi nele que vivi a doce ilusão dos primeiros amores furtivos.
Foi, também, o tempo político e social em que tudo era questionado e em que ganhou força libertária o lema panfletário, feito horizonte de esperança, «make love not war». Estávamos na década de sessenta do século XX.
Para além de uma certa inquietude pelo tempo que passa, sinto-me um privilegiado pelo facto de ter vivido um tempo em que quase tudo aconteceu. Foi nessa década que surgiram os beatles que revolucionaram a música pop e influenciaram fortemente os costumes. Foram uma gigantesca força da natureza!
Foi, também, a década em que o mundo mudou por força das revoltas estudantis de França, cujo espírito se espalhou um pouco por todo o mundo, à semelhança com o que tinha acontecido, duzentos anos antes, com Revolução Francesa. Foi nesse tempo que Portugal viu nasceu e morrer a esperança de uma primavera marcelista e os jovens do meu país ou emigravam clandestinamente ou eram levados para uma das três frentes da guerra colonial em África.
Mas foi também um tempo de descoberta. Em que o homem cumpriu o sonho de caminhar na lua. Em que estação quente era marcada pelos bailes de garagem ao ritmo dos sons vindos de longe. O tempo em que, com a minha guitarra, acompanhava, com alguns acordes, as liturgias num santuário católico de Coimbra. Um tempo em que tinha a vida toda pela frente e a inquietude de um futuro de grandes incertezas.
Um tempo em que o mundo das cantigas estava prenhe de mensagens revolucionárias. Em que ouvia os discos dos Beatles, dos Bee Gees, do Elvis, do Neil Diamond, do Adamo e do Gianni Morandi, entre outros, trazidos pelos jovens emigrantes regressados para umas férias de um ano de trabalho.
E em que carreguei, vezes sem conta, as máquinas de vinil dos bares para sonhar, repetidamente, com a Jane Birkin a cantar o «Je t’aime moi non plus», em parceria com o Serge Gainsbourg. Porque esse foi, sem dúvida, o tempo das minhas primeiras paixões amorosas e da timidez que tomava conta de mim ao ensaiar os primeiros passos na arte da sedução.

Carlos da Gama
                                      Fotos: Google Imagens

sexta-feira, 17 de junho de 2011

De quando em vez, a nostalgia …


                                       
                                        De quando em vez, a nostalgia
                                        Do bulício em que me deito,
                                        Finge ser a mais vadia
                                        Deste tempo rarefeito
                                        Que há muito não tem jeito !

                                        Sempre tenho maior saudade
                                        Quando olho o firmamento
                                        Ou perscruto ao fim da tarde
                                        Qual a razão que faz o vento
                                        Soprar um fogo que arde !

                                        Os beirais de telhas mortas
                                        Onde jazem as memórias
                                        Dos rigores do nosso Inverno
                                        Lembram também as histórias
                                        De um tempo mais fraterno !

                                        Vagueio por essas sombras,
                                        Dia e noite em contraponto
                                        Mas bebo a vida num trago
                                        Na emoção de um encontro
                                        Ou num olhar deslumbrado !
                                                         
                                                                                     Carlos da Gama
                                                                                             Foto: Google Imagens

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Mar e mar!

A música é sobre o mar: «Senhora do Mar!» é a canção que representou o meu país num dos últimos festivais europeus que passa, neste preciso momento, na telefonia. Nem de propósito! É mesmo frente ao mar imenso que avisto o voo das gaivotas ao redor do simbolo dos descobrmentos portugueses.
E, mais ao lado, um pequeno promontório, escuro de mexilhão rebuscado por gerações de banhistas.
Está um mar de calmaria num dia luminoso.
Um «mar» de gente, logo ao amanhecer do dia, surge na marginal. Transportam alegria no rosto das crianças quando apenas o mar é o objecto da atenção. O sol aquece o ambiente e dá outro colorido à praia que vai enchendo de gente.
O passeio marítimo, da marginal alongada, convida a uns exercícios matinais, ao rolar das bicicletas numa fuga constante às rotinas, aos olhares pelo azul-turquesa até aos horizontes da imaginação.
Respirar a maresia, olhando, ao longe, uma regata de dezenas de veleiros, poder admirar, serenamente, a pose atenta e profissional do fotógrafo que procura captar a melhor objectiva de um minúsculo pássaro de mar, caminhar, sem cansaço, até aos painéis de um azul antigo, para viajar pela história daquela localidade… é bom demais!
Mas é a marginal que mais me seduz. Lá em baixo, o mar resmunga os seus humores intermináveis. Mas é daqui que o horizonte se avista mais longe. É nesta imensa passadeira que muitos suam o stress da faina de todo o ano. Esta pista de ares oxigenados é o melhor antídoto contra as doenças da civilização e dos estilos de vida! Os autarcas locais estão de parabéns!

Carlos da Gama
                      Foto: Google Imagens

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Miragem …



Ao novo raiar do dia
a vida acorda em chilreio
nas árvores do pensamento.
A memória faz-se à estrada
na busca de novos sonhos
e da esperança que acalento!

És tu que sempre eu avisto
nas madrugadas do Tejo
de extravagâncias contidas.
Nas demandas do desejo
ou quando foges do vento
é em mim que te abrigas!

Os caminhos que percorro
quase sempre a contra gosto
e em rotinas tão banais,
fazem o tempo esvair-se
num esforço sem sentido
que não repetirei jamais!

Do cimo desta montanha
que subi com muito esforço
vejo ao longe à minha espera
cenários de cor e espuma
e horizontes de utopia
de que se veste a quimera!

Queria voar pelo sul
com as asas da aventura
sem destino nem viagem,
embriagar-me de azul
cobrir com muita ternura
teu corpo, minha miragem!


Carlos da Gama
                                      Fotos: Google Imagens

terça-feira, 14 de junho de 2011

Vamos conseguir !

Já não constitui novidade a afirmação de que os portugueses vivem tempos difíceis. E as más notícias chegam rápido. Em cada dia que passa, as sombras da crise escurecem ainda mais o caminho deste meu pobre país.
Desde o início do novo milénio que se ouve falar de crise, crise e … crise! Foi e continua a ser em nome dela que os impostos aumentam brutalmente, os salários reais baixaram, os juros dos créditos continuam a aumentar, a pobreza alastra e o desemprego não pára de subir. Este é um país à beira de um ataque de nervos!
O cidadão comum perde constantemente poder de compra e uma parte da classe média viu desaparecer os empregos que lhe sustentavam um despreocupado nível de vida. Daí que, nunca como agora, a pobreza envergonhada tenha atingido índices tão preocupantes.
Na empresa pública onde trabalho, quase diariamente são recebidas execuções fiscais de penhoras sobre o vencimento mensal de muitos trabalhadores. É um barómetro do estado da economia familiar, que não consegue fazer face aos compromissos assumidos.
De acordo com notícias vindas a público, são já centenas de milhares as famílias que perderam a capacidade de pagar os vários créditos, passando a constar da lista dos insolventes. Por essa via, o crédito malparado tem subido a valores nunca antes vistos.

Durante a década noventa do século XX, o país viveu um período de ilusória prosperidade. A entrada na moeda única europeia, e a consequente baixa de juros, levou a que muitos optassem pelo recurso ao crédito bancário para financiamento da aquisição de casa própria, de carro, das férias e das próprias cerimónias familiares, como os casamentos. Gerou-se um clima de facilitismo ilusório e a convicção de que tudo seria permitido com o acesso ao dinheiro «barato».
Os próprios Estados davam esse exemplo, quando fizeram do financiamento nos mercados internacionais uma forma de vida que se julgava normalíssima. Só que tudo o que é emprestado terá que ser saldado. E quando soou o alarme da crise da economia mundial, iniciada nos Estados Unidos da América, com o anúncio do colapso do «Lemon Brothers», tudo começou a esboroar-se como um baralho de cartas.
A crise alastrou rapidamente a sua mancha ao nosso país, atingindo a banca, as empresas, as famílias e os particulares. Quem tinha compromissos suportados em crédito bancário acabou por ser arrastado pela turbulência económica e financeira. O inesperado crescimento do desemprego levou a que muitos deixassem de obter rendimento suficiente para satisfazer as suas obrigações. O recurso a mais crédito, para pagamento de outros, teve o efeito da «pescadinha de rabo na boca», agravando o problema. Daí, ao colapso financeiro, foi um passo!

Portugal e os portugueses vão viver, por muito mais tempo, uma situação de crise profunda. Porque esta tem fundamentos estruturais que não são possíveis de ultrapassar em poucos anos. A penúria vai continuar a perseguir muitos concidadãos, sem meios para fazer face à sua subsistência. As novas gerações, habituadas a obter quase tudo com grande facilidade, vão ter que aprender a viver com muito menos e a enfrentar a crise com espírito de sacrifício e uma nova visão do mundo.
Apesar de tudo, estou certo que os jovens olharão para esta crise como uma oportunidade e não como uma fatalidade. Vão querer deixar de se auto-denominar de «geração à rasca», para se afirmar como a «geração desenrascada»!
O futuro de qualquer país está na sua juventude. Por isso, sou dos consideram que Portugal tem futuro. O caminho é longo, sem dúvida. Mas, tal como no passado, vamos conseguir!

Carlos da Gama
                                      Fotos: Google Imagens

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Magia do luar …


Quando uma canção impressiona ao ponto de, sem dar por isso, a trautear a todo o momento, de imaginar os contextos que a mensagem transporta, de sentir uma serena paz de espírito e a sua sonoridade fazer despertar emoções, é um sintoma real de que o objectivo foi atingido.

Ouvi, recentemente, pela enésima vez e com um prazer indescritível, uma das melodias mais belas da minha vida: «Luar do Sertão». Considerado um dos clássicos da música popular brasileira, este canto de saudade tem quase uma centena de anos. De autoria, ainda hoje, embrulhada em polémica, teve um enorme sucesso, foi gravado vezes sem conta e cantado por uma boa parte dos monstros sagrados da música do Brasil.
Vestido de um poema que ilustra a intensa nostalgia sentida por alguém do interior que vive no litoral longínquo, – «Não há, ó gente, oh não, luar como este do sertão...» – o autor emprestou-lhe uma musicalidade, tão doce e melancólica que arrepia a alma mais empedernida. O «Luar do Sertão» enche-me de nostálgica saudade. Porque é de saudade de que nos fala a letra. E é de melancolia que se veste a sua musicalidade.
É curioso como este trecho musical me faz sentir saudades de um país que ainda não visitei mas que apenas «conheço» através da leitura de vários livros, da visão de filmes e novelas e de reportagens e documentários da televisão. Certamente que segrego também saudades de enternecedores feitiços de maresia e vivências de familiares que, num passado já distante, rumaram para «Terras de Santa Maria», quando aquele país era um dos prometedores destinos de emigração.

O Brasil é um dos meus maiores sonhos de viagem. Já há muito que desejo visitar aquele imenso e belo país de língua portuguesa. Lembro bem da vontade intensa que me assaltou a alma no final da leitura do livro «Sul» de Miguel Sousa Tavares, sobretudo, o capítulo da descrição da viagem de «buggy» de mais de mil quilómetros pelas praias do nordeste. Porque, Brasil e maresia são uma combinação perfeita de intenso efeito de evasão e liberdade!
Lembro, também, o Brasil do «Rio das Flores», primorosamente romanceado pelo mesmo escritor. E adorei saber da vida do Rio de Janeiro à época e dos locais que perduram com idêntico «glamour», como é o exemplo do «Copacabana Palace», entre outros. Era o tempo da nova descoberta do Brasil pelos portugueses.

A colonização daquele imenso território deixou-nos esse património comum que é a língua portuguesa. O que facilita o intercambio entre os dois povos e culturas.
O doce sotaque brasileiro, trazido, em primeiro lugar, pelos emigrantes regressados ao seu país e, mais tarde, pelas novelas da televisão, aumentou fortemente o carinho que os portugueses sempre nutriram pelo povo brasileiro. Sobretudo pelos descendentes dos que um dia se fizeram ao mar em busca do sonho!
Daí ser raro encontrar um brasileiro que aterre no nosso país sem que tenha o propósito de visitar o torrão natal donde partiram os seus antepassados: do Minho, das Beiras ou de Trás-os-Montes. E este intercâmbio constitui uma enorme riqueza cultural que deve ser aproveitada em favor de ambos os povos.

Por vezes, dou comigo a afirmar com inusitada convicção: «Adoro o Brasil». Mas fico um pouco intranquilo por ter de responder à questão que resvala, de imediato, do meu interlocutor: - «Que região conhece?», dado tratar-se do maior território sul-americano.
Pois… não conheço ao vivo e a cores! Ou melhor, conheço sim! Mas apenas, como referi acima, através da tela dos média, das novelas que apresentam as várias facetas e paisagens daquele imenso país e… dos livros do Miguel Sousa Tavares, entre outros escritores. Faço jus ao ditado popular: «Quem não estuda e quer saber, ou passeia ou sabe ler!».
Continuo a ouvir o «luar do sertão» que incute em mim um feitiço de aventura e nostalgia, embrulhado numa maresia de saudade. É a magia do luar!

Carlos da Gama
                                      Fotos: Google Imagens

quarta-feira, 8 de junho de 2011

memória de afectos …

Das situações que me deixam mais curioso, quando me desloco aos hipermercados, é a quantidade de pessoas que se instalam na área de venda de livros e revistas.
Quase todas estão ali, não porque pretendam adquirir qualquer daqueles produtos mas, tão só, para ler as últimas novidades da «socialite», dos enredos das telenovelas, dos casos do dia que estão na moda e de um ou outro livro mais «na crista da onda».

Aqueles espaços, apesar de pouco rentáveis a nível económico, são suportados pela gestão das superfícies comerciais na convicção de que os «clientes» acabarão também por efectuar outras compras imprescindíveis ao seu estilo de vida.
Acredito, também, que, por detrás desta tolerância, exista algum espírito de mecenas nestes contributos que as superfícies comerciais oferecem à sociedade, proporcionando que alguns cidadãos tenham um acesso gratuito ao que se passa no mundo em que vivem e possam viajar pelos temas culturais da sua preferência.
Mas esta realidade é, por si mesma, um sinal dos tempos difíceis em que vivemos. Com orçamentos familiares cada vez mais diminutos, a opção das pessoas é de reduzir despesas no que consideram mais supérfluo.
Embora isso constitua um enorme paradoxo: pois é com a cultura que um país progride e a cidadania se exerce na plenitude. Daí que o Estado deveria ter uma redobrada atenção na facilitação do acesso à aquisição de livros e revistas. Porque isso representaria uma aposta no futuro da sociedade.

Lembro bem da emoção que a minha mãe manifesta quando fala do seu tempo de juventude em que o único recurso para conseguir ler um livro era a biblioteca itinerante da Fundação Calouste Gulbenkian que, durante muitos anos, percorreu o país de lés-a-lés, especialmente em aldeias onde o acesso aos livros e à leitura era inexistente.
É enternecedor ouvir as suas memórias quando fala dos livros que lhe marcaram a vida: A história do Marquês de Pombal, os Miseráveis, a Rosa do Adro, as Pupilas do Senhor Reitor e os Maias, entre tantos outros clássicos portugueses.
É com manifesto orgulho que recorda que o tempo para dedicar à leitura era escasso, pelo que aproveitava as gravidezes e os pós-parto para devorar os livros que religiosamente guardava. Talvez não tenha sido por acaso que tenha colocado no mundo uma dúzia de filhos. Eram, tempos difíceis, aqueles!
Um gosto manifestado, ainda hoje, na avidez com que se entrega à leitura. Quando a visito, encontro-a, quase sempre, rodeada de revistas e do jornal que diariamente lhe é trazido a casa. Daí que esteja a par de tudo o que se passa no mundo. E os seus 87 anos não a impedem de abordar os temas da actualidade e de opinar sobre os mesmos com conhecimento de causa!

Na época, a escolaridade não era obrigatória e todo o tempo era dedicado a cuidar da vida. Daí que o analfabetismo grassasse no meu país.
Ouvi, vezes sem conta, da minha avó materna a confirmação de que a Maria – é esse o nome da minha mãe – fugia para a escola pelo gosto de aprender a ler e a contar.
É com grande satisfação que, convictamente, afirmo que a minha mãe é uma das mulheres da minha vida. Porque sempre soube estar à frente do seu tempo. Apesar das limitações económicas da família, nesse passado já longínquo, procurou que os seus filhos olhassem mais longe e incitou-os a basear o seu futuro na formação e na defesa dos valores que enformam a sociedade.
Carlos da Gama
                      Fotos: Google Imagens

terça-feira, 7 de junho de 2011

O mais importante …

Foi durante a minha estadia em África, como militar na guerra colonial, que li a admirável obra de Dostoievski, «Crime e Castigo». Foi uma leitura feita em época de forte invernia, com dias de chuva copiosa e intensa. Foi nesse tempo que eu receei a fúria das trovoadas tropicais, manifestação da natureza tremendamente zangada e rabugenta. As descargas eléctricas eram tão fortes e contínuas que, não raras vezes, accionavam os dispositivos eléctricos de defesa militar do aquartelamento. Por isso é que, sempre que me surge o nome de Dostoievski, sinto a memória desse cenário, de grande turbulência da natureza, a aprisionar-me a alma num sufoco ainda difícil de suportar.
A leitura desse clássico impressionou-me a ponto de me deixar um retrato vivo dos rigores da época das chuvas equatoriais embrulhadas na carga dramática do enredo criado pelo grande escritor Fiodor Dostoievski.
Em termos gerais, o livro conta a história de um jovem estudante que se envolve num crime, por uma recompensa ridícula, e acaba enredado num universo psicológico de auto flagelação e de grande ansiedade resultantes do acto hediondo que cometera. Percebe-se, pois, que a meteorologia tenha ajudado a melhor se perceber as angústias do protagonista da história, de cujo final se adivinhava ainda mais dramático.
Não existe pior castigo do que o sofrimento psicológico provocado por uma qualquer atitude de maior ou menor consciência social. No caso descrito por Dostoievski, estava em causa um monstruoso assassinato que nada poderia ou deveria justificar.
Porém, outras situações existem na sociedade que se iniciam em contextos sadios e inofensivos mas que, com o passar do tempo e influências perversas, acabam por se transformar em gigantescos pesadelos e insuportáveis sofrimentos de alma. Sobretudo quando é colocada em causa a honra e a dignidade do ser humano.
Os sofrimentos do espírito são os mais difíceis de suportar, como muito bem afirmava um dos meus escritores preferidos: Antero de Quental. No entanto, quase sempre a vida ensina-nos que os episódios estranhos têm sempre uma razão de ser.
Por vezes, parece que o mundo desaba toda a sua energia negativa sobre o cidadão desprevenido que se vê fortemente esmagado e condicionado na gestão das rotinas a que se habituara. Esse é o tempo em que a alma sente-se cercada e com dificuldade em se libertar. É o tempo em que a angústia faz o seu caminho de sofrimento e expectativa. É o tempo em que se segrega uma maior receptividade de se partir para contextos de maior serenidade. É o tempo…
Mas é, também, o tempo de desviar a atenção para outros horizontes de vida. De ter um olhar mais sereno para aspectos sedutores da nossa existência, de que sempre estivemos alheios. De relativizar os acontecimentos à nossa volta em face do que tem real importância na vida. De dar valor às coisas simples que nos rodeiam e às pessoas que nunca nos abandonaram.
E de olhar o mar, sempre que possível! Para nele mergulhar tudo o que nos condiciona a liberdade de espírito e voltar a aspirar a magia de viver. Porque, como escreveu o poeta e ensaísta, Oliver Holmes, «O mais importante da vida não é a situação em que estamos, mas a direcção para a qual nos movemos».

Carlos da Gama
                      Fotos: Google Imagens

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Pressa de viver!

Muitos dos que visitam este espaço virtual, devem sentir-se um pouco defraudados pelo rumo que o mesmo tomou até ao momento.
Pressupostamente dedicado a repositório de viagens em autocaravana, «estrada fora» tem sido parco em textos de confirmação desse objectivo.
Mas, em minha opinião, esta tese não é totalmente verdadeira. Em primeiro lugar, porque todos os textos aqui publicados são pretensas viagens de vida, um repositório de encontros e desencontros, de experiências vividas e de sonhos por concretizar.
Deixar que a imaginação se estenda, em liberdade, por contextos de vida ou aventuras de maresia, é viajar pelo tempo … sem tempo!

Desde que nasce, até que parte para uma outra dimensão, o homem é um ser em permanente viagem. Mas, também, é pertença da natureza, portanto, eminentemente composto de matéria. E, a acreditarmos no princípio da conservação da matéria, enunciado pelo cientista francês, Antoine Lavoisier: "na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”, podemos almejar outras viagens para além das que experimentamos nesta curta existência.
Já deixei por aqui emoções de pequenas viagens efectuadas para o lado do mar. Porque é lá que me sinto mais em casa. É junto do mar que gosto de procurar perceber a razão desta passagem breve pela vida e, sobretudo, de sentir as emoções e as vertigens segregadas por um olhar mais longe ou descomprometido.

Adoro viver a monotonia do rumor do mar, admirar o pôr-do-sol em horizontes matizados, caminhar pelo espraiado contra o vento e sentir a serenidade a entranhar-se em mim quando a solidão se faz companheira. Sem dúvida, este imenso oceano transporta-me para horizontes de liberdade e de maresia. E aumenta a saudade de outras latitudes e de emoções guardadas em segredo, na cumplicidade do oceano e nas confidências da lua.
Mas há outras viagens vividas em frente da tela de um computador. Porque viajar é, acima de tudo, um estado de espírito e um espaço em que a imaginação veste-se de mágicos poderes.

Quase todos os dias viajo na companhia de autocaravanistas por vários continentes. Ultimamente, acompanho, com grande admiração, o casal «Estrela» nessa epopeia em que se tornou a sua «Rota da Seda». Serão oito meses de deslumbramento com os relatos da sua passagem por países quase impossíveis, convivendo com culturas ancestrais, por estradas sem condição, sujeitos a perigos vários como que a lembrar os nossos heróis quinhentistas na descoberta de «novos mundos ao mundo». Estou-lhes grato por me proporcionarem viver emoções fortes, quer despertadas por fantásticas paisagens de territórios inóspitos, quer por monumentos intemporais daquele extraordinário mundo desconhecido.

Sinto, também, uma especial predilecção pelas viagens que muitos autocaravanistas fazem pelo interior meu país. E é aí que constato que o «lá fora!» fica, tantas vezes, a uma enorme distância das excepcionais belezas do nosso território.
Viajar é, sem sombra de dúvidas, a minha praia favorita. Ao longo da vida, visitei vários países na companhia de uma pequena tenda de campismo. Mais tarde, os filhos ganharam novas preferências e foi o tempo de repousar, em instâncias de veraneio, o descanso de um ano de trabalho.
Muito recentemente, cumpri o sonho de juventude, com a aquisição de uma autocaravana. Tinha prometido a mim mesmo adquirir uma casa rolante quando se aproximasse o tempo de me desligar das rotinas laborais. Esse tempo está quase a bater à minha porta! Oxalá chegue logo em liberdade, porque tenho pressa de viver!
    
Carlos da Gama
                                      Fotos: Google Imagens

domingo, 5 de junho de 2011

democracia em viagem ...

Lembro, ainda com nítida memória, o enredo da obra-prima de Jorge Amado: «Gabriela, Cravo e Canela». Um retrato histórico do poder dos coronéis do interior do Brasil que tudo comandava e a todos controlava.
Portugal, nos idos anos setenta do século XX, parava na hora de passar mais um episódio daquela telenovela.
E foi com ela que o país aprendeu a saborear a doçura do sotaque brasileiro e a melhor admirar as paisagens e o modo de vida das gentes daquele imenso e belo país de língua portuguesa.
É na terra dos coronéis da ditadura que um candidato da oposição ganha uma eleição renhida para perfeito da cidade.
A sua campanha, ao longo de muitos meses, foi fundamentada na crítica mordaz aos costumes impostos pelo regime autocrático vigente, acolitado por capangas que lhe asseguravam a administração dos vários serviços na ponta da baioneta.
Nunca ninguém tinha ousado enfrentar o poder naquelas paragens. E anunciava-se uma derrota daquele jovem, prenhe de sonhos para mudar o mundo.
Foi essa visão moderna da gestão de uma região e a denúncia dos ditames de uma ditadura de décadas, sustentada pelo medo e absoluta subserviência, que foi abrindo algumas tímidas brechas no sistema. A ponto de, com o passar do tempo, o jovem opositor conseguir virar as intenções de voto e ganhar a eleição contra tudo o que, de início, se poderia pensar.
Entretanto, na noite que antecedeu a eleição, acontece a morte natural do velho coronel, facto que facilitou a passagem pacífica do testemunho político para a oposição.
Mas o que mais me impressionou naquele duelo foi verificar que, após a eleição do novo perfeito, este passa a aceitar os cumprimentos de subserviência que tanto criticava ao seu antecessor.
E arrepia ver, nas últimas imagens daquela telenovela, a pose do novo rosto do poder a aguardar, da população, o beija-mão acompanhado da respectiva vénia genuflectora. Um sinal de que quase nada tinha mudado!
Ou seja, apesar da esperança de uma nova postura e visão da administração do poder, estávamos perante a mesma realidade política e social, embora com novos protagonistas. Dir-se-ia, como diz o povo, que apenas tinham mudado as moscas!

Vem isto a propósito da eleição para a Assembleia da República que hoje tem lugar neste meu pobre país. Votar é uma opção. Por vezes, uma obrigação. Quase sempre uma frustração.
Depois do voto, mudam os protagonistas para uma mesma realidade. O que mais importa aos vencedores é ficar no lugar dos vencidos, se estes detinham o poder.
Depois… bem, depois é a força das vontades, dos lobbies e dos interesses a ganhar terreno, quase sempre!
E a hipocrisia manifestada pela maioria dos cidadãos: em qualquer local onde se constate a mudança, todos assumem-se vencedores no dia seguinte. Todos confirmam que votaram na nova tribo. E lá estarão a exigir a recompensa.
Contava-me, há alguns anos, um amigo, vencedor da eleição para presidente de um município do interior que, no dia seguinte à vitória, a frase que mais ouvia era: - «Agora é a nossa vez!», numa alusão de assalto ao poder.
A democracia transformou-se num negócio quando passou a ser facturada. Infelizmente!

Carlos da Gama
                                      Fotos: Google Imagens

sábado, 4 de junho de 2011

Fragmentos …









Como uma alma alada
vagueando pelo breu,
ou rio lento que corre
em serena confusão.
Sou esperança renovada 
numa tão breve ilusão!


                                No vento que sopra forte
                                um mágico pássaro azul
                                esvoaça vindo do norte
                                num voo directo ao sul.
                                Trás a chave do destino
                                desde quando era menino!

                                Queria partir para longe
                                colocando bem à prova
                                em grito, espuma e raiva
                                tudo aquilo que eu sou.
                                Saudade que se renova
                                dum tempo que já passou!

                              Carlos da Gama
                                      Foto: Google Imagens

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Burumtuma …

Há dias encontrei um amigo de longa data cuja amizade se forjou nas terras longínquas do ultramar português. E a conversa levou-nos até à guerra colonial, ocorrida na segunda metade do século XX.
Aí, o calor do assunto e a interessada atenção do meu interlocutor, trouxeram-me à memória alguns episódios mais dramáticos da minha estada na Guiné, nos idos anos de 1973 e 1974.
Foi apenas um ano que por lá estive, numa guerra de guerrilha que o «inimigo» levou a melhor. Naquele território da dimensão do Minho, Portugal tinha tantos militares como em cada um dos teatros de guerra de Angola e Moçambique, ou seja, 50 mil homens em cada colónia.
Este indicador permite entender a intensidade do conflito militar em cada região, sendo certo que era na Guiné que a guerrilha do PAIGC - Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde - mostrava-se mais ousada, guerreira e apoiada. Logo que aportei naquele território dei conta que cerca de um terço estava já tomado pelo movimento de libertação.

Após o primeiro mês na fantasmagórica Ilha de Bolama, estive em alguns aquartelamentos do leste da Guiné. Mas foi no de Burumtumba onde aprendi a relativizar a vida, tal era o stress de guerra a que estávamos sujeitos.
O PAIGC usava um armamento altamente sofisticado à época, enquanto os militares portugueses limitavam-se ao uso dos obuses, metralhadoras e restante material já utilizado na Segunda Guerra Mundial. Apenas a nível da aviação é que os portugueses tinham alguma supremacia.
Lembro bem a angústia que todos sentíamos quando os mísseis eram lançados do território da Guiné Conakry e que acertavam, invariavelmente, no alvo. Aquele zumbido, que se aproximava a uma grande velocidade, transmitia-nos a perturbadora sensação de que era junto de nós que iriam explodir. Eram segundos intermináveis e impiedosos que aniquilava qualquer manifestação de valentia e destruía qualquer veleidade de heroísmo.

Decorridos mais de 35 anos, lembro, como se fosse hoje, o primeiro ataque com mísseis que sofri no aquartelamento de Burumtuma Foi cerca das 07.00 horas da manhã. Os soldados do pelotão que comandava estavam já todos entregues à faxina do interior do aquartelamento, enquanto outros dois pelotões cedo tinham saído para um patrulhamento de quase 20 horas.
De repente, ouço três explosões ao longe, correspondentes ao disparo de três mísseis em direcção ao aquartelamento. Mulheres e crianças correm aturdidas para dentro do abrigo onde dormíamos, enquanto os militares saltavam para a vala. O ruído da explosão dos mísseis roubou-me a possibilidade de balbuciar qualquer palavra. Apesar do esforço que fazia para articular a voz, apenas passados uns longos segundos é que consegui falar, apoiar os mais afoitos ao pânico e a organizar a defesa em toda a zona de que era responsável.
Cerca de meia hora passada, regressei ao abrigo para uma análise das pessoas que lá estavam. E ainda hoje retenho na mais viva memória, um rosto de menina de 4 ou 5 anos, de olhar assustado, em cima de um beliche e com o corpo colado à parede, como que num esforço inglório de se esconder dentro daquele muro feito de gigantescas pedras e abundante cimento.
Foi aí que percebi melhor a injustiça daquela guerra que, para além de fazer vítimas entre a população mais frágil, não tinha qualquer sentido ou solução militar. Tratava-se de uma teimosia do regime que os jovens portugueses da altura pagaram muito caro.

Carlos da Gama
                      Fotos: Google Imagens